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terça, 07 de julho de 2020

Anime Geek

A evolução da representatividade LGBTQIA+ na cultura pop

Ainda há muito o que se caminhar, mas o que não falta são motivos de ORGULHO.

28 Jun 2020 - 21h45Por Ana Paula Castro

O mundo gamer mais uma vez esteve nos holofotes recentemente, mas nem o foi o lançamento do PlayStation 5 que mais ocupou os portais de notícias. O lançamento de The Last Of Us Part II, com uma protagonista mulher e homossexual, no dia 19 de junho, ou seja, em pleno mês do orgulho gay, recebeu uma chuva de elogios da crítica especializada e outra chuva de ódio de jogadores LGBTfóbicos que não conseguem aceitar o fato de uma mulher forte e lésbica ser protagonista.

Não vamos aqui dar palco para palhaços. Vamos focar no que realmente importa. Não apenas o jogo já vendeu mais de 4 milhões de cópias em poucos dias, mas também se mostrou uma obra fantástica, com um enredo comovente e realista, em que o relacionamento entre Ellie, a protagonista, e Dina foi construído de forma bastante verossímil no desenvolvimento da história, dando um novo ar de representatividade para a população LGBTQIA+ nos games.

Mas nada disso seria possível se não fosse um longo processo de quebra de paradigmas em relação a gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais na cultura pop. O que antes começou com representações extremamente estereotipadas e preconceituosas, com o objetivo de causar risadas no espectador, hoje se abre para um universo vasto, com personagens complexos e histórias que o público consegue se identificar. O mundo pop parece finalmente estar caminhando positivamente no entendimento de que pessoas LGBTQIA+ existem e merecem ser representadas nesse meio.

Os primeiros passos

Os primeiros personagens abertamente gays da indústria não tinham espaço nem para serem coadjuvantes. Em All In The Family (1971), quando Archie descobre sobre a sexualidade de seu amigo Steve, a palavra “gay” sequer é citada, por exemplo.

Se nas obras audiovisuais, muito mais acessíveis ao grande público, a questão “sexualidade” foi um tabu por décadas, nos quadrinhos a desconstrução foi mais cedo. Um grande exemplo disso é V de Vingança, HQ lançada em 1988 pela DC Comics e transformada em filme em 2006. O impacto cultural desta obra é indiscutível, o que traz ainda mais peso para a história de Valerie, mulher lésbica que foi presa apenas por sua sexualidade, vítima de uma sistema totalitarista, claramente inspirado no nazifascismo.

Na música o ativismo foi ainda maior. O lançamento de “I Will Survive”, em 1978, pela cantora Gloria Gaynor, o sucesso do Queen com Freddie Mercury, que mesmo sem falar abertamente sobre sua sexualidade na época, deixava bem claro de que lado estava, Cazuza e Renato Russo no Brasil, e a música “Vogue”, interpretada por Madonna e inspirada na cultura LGBT preta de Nova York, são só alguns marcos de como esse debate estava crescendo em meio à sociedade.

Saindo do armário

Foi realmente nos anos 90 que o cenário começou a andar. Em 1992, a Marvel traz o primeiro personagem assumidamente gay dos quadrinhos, o Estrela Polar, que expôs sua sexualidade ao público em meio a uma discussão profunda sobre a AIDS, trazida pela edição.

Dawson’s Creek apresentou o primeiro beijo gay da TV americana partindo de uma narrativa romântica e afetiva. Enquanto Friends, uma das séries mais populares da história, mostrou o casamento lésbico de Carol e Susan. 

No cinema, vimos obras como Filadélfia (1993), que trazia uma discussão sobre a crise do HIV e do estigma com que a sociedade tratava os soropositivos, e Priscilla, A Rainha do Deserto (1994), que acompanhava a história de duas drag queens e uma mulher trans em suas aventuras pelo deserto australiano, mostrando personagens, situações e problemas LGBTQs para um público mainstream.

Mesmo com os gritos esporádicos trazidos por obras como essas, o preconceito ainda era grande. Ellen DeGeneres, hoje um ícone da TV americana, sofreu na pele os impactos de se assumir em meio a uma sociedade tão LGBTfóbica. Ela protagonizava um sitcom chamado Ellen, que foi cancelado após ela publicamente se assumir lésbica. Depois de ficar sem trabalho por três anos, Ellen conseguiu dar a volta por cima e com certeza foi uma das responsáveis pela maior aceitação da diversidade por Hollywood.

Presente-Futuro

E então nos deparamos com o crescimento do movimento LGBTQIA+ em todo o mundo. Por todos os lugares temos gays, lésbicas, homens e mulheres trans, drag queens, bissexuais, pansexuais, assexuais, entre outros, lutando por visibilidade, respeito e representatividade. A arte e o entretenimento, é claro, não podiam deixar de receber esse impacto.

De novo nos quadrinhos, pudemos ler a recriação da Batwoman, em 2006. A personagem que antes havia sido criada apenas para ser par romântico do Batman ganhou uma história própria em que, mesmo sendo forte o suficiente para substituir o Batman em alguns momentos, foi por diversas vezes discriminada e teve sua capacidade questionada só por ser lésbica. A profundidade dada à personagem e o carisma que ela traz conquistou os fãs. E o resultado é vermos, cada vez mais, personagens LGBTQIA+ ganhando espaço nos quadrinhos.

Séries como Will & Grace, Glee e Modern Family foram algumas das pioneiras em colocar casais homoafetivos no centro da trama, abrindo espaço para personagens mais complexos e histórias mais elaboradas. Foi o que permitiu, por exemplo, que inúmeras sexualidades e expressões de gênero fossem tão bem retratadas em séries como Sense8 e Sex Education.

Estamos vivendo uma era em que uma narrativa poderosa de um jovem negro assumindo sua sexualidade, em Moonlight, ganha o Oscar de Melhor Filme, rompendo barreiras para a representação LGBT, negra e muçulmana. Fomos da conquista de ter uma personagem trans interpretada por uma mulher trans em Orange Is The New Black até a vitória de ver o maior elenco trans da história em Pose.

Que maravilhoso é ver Lady Gaga, um dos maiores nomes da música pop, cantando para o mundo que “não importa se você é gay, hétero ou bi, lésbica ou se é transexual você está no caminho certo, você nasceu para sobreviver”. Que lindo ver histórias românticas e sensíveis protagonizadas por casais gays no cinema. Que incrível é ver Rupaul's Drag Race ultrapassando as barreiras do nicho queer.

E ainda mais incrível é ver a comunidade LGBTQIA+ ganhando espaço nos animes mainstream, como a personagem O-Kiku em One Piece. É ver o amor da Marceline e da Princesa Jujuba em Hora de Aventura, de Rubi e Safira em Steven Universo, de Korra e Asami em A Lenda de Korra e perceber que os desenhos animados infantis conseguem retratar a diversidade com uma naturalidade própria das crianças.

Que o futuro da representatividade LGBTQIA+ na cultura pop agora seja esse: o da naturalização. Que as obras produzidas daqui por diante não precisem passar pelo paradigma cis-hétero que faz com que a presença de personagens homossexuais, transgênero, drags, entre outros, parta de uma premissa “chocante”. Que obras como The Last Of Us não sejam acusadas de “lacrar demais” e passem por tantos discursos de ódio nas redes sociais. 

Esperamos, profundamente, que o público desenvolva a maturidade e a empatia necessária para assistir, ler e ouvir produções do contexto LGBTQIA+ da mesma forma que qualquer outra. Pois esse é o caminho de uma luta de tantas décadas, que proporciona tantos motivos para se ter ORGULHO.

 

Esta coluna é escrita pelos integrantes do Anime Geek, evento multicultural pop e geek realizado em Belém desde 2012. Nossa próxima edição será nos dias 14 e 15 de novembro na UNAMA-BR. Para mais informações, acesse também as nossas redes sociais:

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