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19 Set - 18h15
quinta, 19 de setembro de 2019

FILME & PROSA

Cinema das Amazonas e o trajeto dos filmes amazônicos

De Jorane Castro até Adrianna Oliveira, o cinema paraense é costurado imageticamente pelas mulheres (foto: Fabiano Maciel)

07 Set 2019 - 21h26Por Lorenna Montenegro
Problematizadora por natureza pois pisciana com ascendente em sagitário e lua em touro, começo essa crônica sobre cinema e amazônia, uma recapitulação amorosa e não necessariamente cronológica, com um nome me salta aos olhos e ao coração: o de Jorane Castro. A cineasta nascida no Pará, que viveu e realizou filmes na França mas que sempre teve em seu discurso fílmico uma preocupação em falar e representar mulheres daqui, lançou seu primeiro filme de longa-metragem, "Para Ter Onde Ir", neste ano. Genuíno representante de uma estética muito personalista, existencial e, porque não, feminina, é uma peça importante na engrenagem de produções da filha de Edna Castro, documentarista conhecida pelos clássicos "Maria das Castanhas" e "Fronteira Carajás".
 
 
Jorane segue o percurso iniciado por Silvino Santos ainda no início do século passado, ao fazer o primeiro registro do 'país das Amazonas', passando pelo legado de Líbero Luxardo e o KinemAndara de Vicente Cecim, ao desembocar no seminal "Iracema - Uma Transa Amazônica", ficcção com ares documentais de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Olhares dessa região ainda seria atravessados por experiências externas muitas, como "Bye Bye Brasil" de Cacá Diegues, "Orfãos do Eldorado", "Filhos do Sol", "Eu Receberia as melhores notícias de seus lindos lábios", "Florestas das Esmeraldas", chegando à margem sustentada por filmes autorais como "Matinta" de Fernando Segtowick, terror autêntico e atualização da lenda amazônica. De Fernando, Jorane e Luiz Arnaldo Campos ("Chama Verequete") temos belos exemplares nos meados dos anos 2000, filmes de ficção e documentários que buscam ampliar a narrativa regional por meio de uma estética universal. Experiências independentes e realizações universitárias também se proliferaram de forma fortuita pela região, seja por estímulo de festivais como o Osga, pelo surgimento do curso de Cinema e Audiovisual da UFPA - da onde inclusive já brotou um longa, o "Besta Pop" no ano passado - ou pela criação do Fundo Setorial do Audiovisual da Ancine e suas cotas regionais, o que acabou retroalimentando o audiovisual local.
 
 
Poderia escrever um livro para traçar o panorama do cinema Paraense e Amazônico e de que forma a cosmogonia da floresta, o olhar amazônida influem na produção contemporânea. Mas por hora, voltando ao legado de Jorane Castro, a mais prolífica cineasta que temos - são mais de dez filmes na carreira - fica o lembrete de que tem que ser sagaz para estar na "Batalha de São Brás", título do documentário de Adrianna Oliveira - e também para fazer cinema. Tem que ter o dobro de coragem e força para ser cineasta mulher num meio artístico tão machista e sexista, onde muitos condicionam o olhar aos filmes convencionais e mal conhecem ou dão espaço para aquelas que produzem filmes seja aqui, lá ou em qualquer lugar. Me magoa saber que, como no Quizz do programa que explora a vida difícil dos brasileiros, aquele mesmo do almofadinha Luciano Huck, ninguém tenha chutado que Anna Muylaert, Laís Bodanzky e Tata Amaral seriam cineastas brasileiras. Mas tenho muito orgulho e fé no que virá, seja pelo olhar de Adrianna, de Flávia Abtibol, de Joyce Cursino, Zienhe Castro, Yasmim Maia, Ângela Gomes, Ariela Motizuki, Adriana de Faria e muitas mulheres, icamiabas que seguem o fluxo dos rios, que se banham nessa cosmogonia só nossa e nos presenteiam com cinema sensível, potente e de qualidade.
 

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