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terça, 28 de setembro de 2021

Anime Geek

Esta não é mais uma crítica de Mulher-Maravilha 1984

É um convite à reflexão sobre a representação feminina na indústria cinematográfica.

13 Jan 2021 - 21h41Por Ana Paula Castro

No primeiro final de semana do ano eu assisti Mulher-Maravilha 1984. Minha intenção era fazer uma crítica para a coluna e também tentar entender porque a crítica especializada estava tão controversa, algumas só elogios, outras só bomba... No final, acabei entendendo o porquê dessa dissonância toda, mas decidi que não faria uma crítica. Resumindo, Mulher-Maravilha 1984 é um filme cheio de problemas de roteiro, mas passível de causar reflexões profundas, especialmente sobre política e sobre o momento em que estamos vivendo, você vai achar o filme bom ou ruim, dependendo de onde escolher focar.

Mas uma coisa que ficou na minha cabeça por muito tempo antes de começar a desabafar em palavras nesse texto foi a trama pessoal da Diana. Sim, vamos conversar um pouco sobre representatividade feminina nos cinemas e séries. E se você é daqueles que o cérebro derrete só de ouvir a palavra “feminismo”, sugiro que pare de ler aqui.

É importante deixar claro que não farei um recorte de representatividade por raça ou orientação sexual. Essas são conversas também bastante complexas e que requerem textos diferentes para cada uma. A ideia é falar de traços da personalidade de personagens femininas, as tramas que as envolvem, as escolhas que os roteiristas (em sua maioria homens) colocam para elas e como isso interfere na forma como nós, mulheres, nos enxergamos em uma obra audiovisual mainstream.

Da Branca de Neve à Furiosa, de Hermione à Arlequina, já vimos inúmeros “tipos” ou “traços de personalidade” de mulheres nas histórias que todo mundo conhece. Tem a mãe, a nerd (que precisa tirar os óculos e alisar o cabelo para virar a bonitona), a garota legal (que conquistou esse título basicamente por se comportar como qualquer homem), a princesinha, a patricinha que é necessariamente perversa, a punk que não está nem aí para nada, a mulher que sabe lutar e conquista o respeito dos personagens masculinos e dos fãs por isso, a que é super inteligente e empolga os fandons de vez em quando, a mulher que é fissurada em trabalho e infeliz no amor e por isso sua vida nunca estará completa... Enfim, são muitos exemplos.

E, infelizmente para nós, os padrões de feminilidade instituídos pelo patriarcado (espero que não seja necessário explicar isso) estão sempre lá, nem que seja para serem quebrados. Funciona quase como uma régua. Daqui pra cá, a personagem segue as regras e tem sua trama pautada nisso, provocando identificação já que fomos criadas para viver sob essas regras. Daqui pra lá, as personagens quebram os paradigmas, por fazerem coisas que “tradicionalmente” só os homens fazem, gerando admiração por sua força, costumeiramente representada pela força física.

Houve uma época em que você colocar uma mulher forte, fisicamente, e habilidosa na tela era algo altamente inovador e ousado, além de nos fazer sentir muito representadas. Isso porque essas mulheres costumavam ser menosprezadas por serem mulheres dentro de um sistema opressor, fosse este a representação do nosso próprio sistema social ou de um criado pelo autor (que não deixa de ter inspirações no nosso ou no passado). Esse menosprezo fazia com que as mulheres se esforçassem o dobro para conseguir travar suas batalhas com maestria, pois não bastava que elas “lutassem como um homem”, era preciso ser excepcional, a melhor, para conseguir um respeito que deveria ser o básico.

Só que os tempos mudaram, o feminismo cresceu, mulheres começaram a ganhar mais visibilidade e chegou o momento em que colocar mulheres que quebram esses paradigmas na forma de força física não era mais tão inovador assim. Já era lugar comum que mulheres poderiam ser tão ou mais fortes que os homens e que não existia nenhum tipo de limitação, além da que nos é imposta todos os dias pelo patriarcado, que impedisse uma mulher de ser tão habilidosa quanto qualquer homem.

Tanto é que quando assisti à saga O Senhor dos Anéis pela primeira vez, a personagem Éowyn foi tão pouco cativante para mim que tive que ir no Google para conseguir lembrar o nome dela e colocar aqui (e digitei “senhor dos anéis menina que luta”). Tudo porque assisti aos filmes muito tempo depois do lançamento e ver uma mulher lutar com espadas como se fosse a coisa mais admirável do mundo já não era novidade para mim. Jamais vou questionar a genialidade de Tolkien e seu pioneirismo no mundo da fantasia, mas é demais esperar que ter uma mulher que sabe lutar no meio de vários homens é suficiente para que a obra dele ou de qualquer outro autor seja considerada justa, do ponto de vista de gênero. Mesmo que, para a época em que os livros foram escritos, tenha sido inovador.

Com o tempo, fui percebendo um padrão em mim: personagens no estilo de Éowyn me cansam um pouco. Eu amo a Mulan, mas não é minha “princesa” favorita nem de longe. Em Game Of Thrones, preferia muito mais ver a Sansa, a Daenerys e a Cersei do que a Arya, por exemplo. Não que eu não goste da Arya, ao contrário, adoro, apenas sentia que as outras personagens femininas tinham coisas mais diferentes para entregar. Em Sense8, eu me empolgava com as cenas de luta da Sun, mas gostava muito mais de ver a Kala mostrando seus conhecimentos de química e a Nomi sendo a maior expert em informática, sem ser nerd! Meu interesse nessas mulheres se dão justamente por elas representarem um outro tipo de força, uma que não está relacionada com valores tradicionalmente masculinos. E isso me empolga!

E aí veio a Mulher-Maravilha, que não é apenas uma mulher habilidosa no meio de vários homens, é a super-heroína mais icônica de todos os tempos! Primeira super-heroína a ganhar um filme solo desde o boom dos filmes do gênero. A mulher mais forte do mundo. Representante da cultura das amazonas, o que, para uma nortista como eu, significa muito mais que uma lenda grega. A Mulher-Maravilha é forte, ela luta, nunca abaixa a cabeça, desce homens tão ou mais fortes que ela na porrada.

Isso é o mínimo que se espera dela. Porque ao contrário da maioria de nós, mulheres da vida real, que não somos excepcionais em alguma área da vida, apenas lutamos pelo respeito que merecemos independente de sermos extraordinárias ou não, a Mulher-Maravilha é excepcional e só a sua imagem já demanda respeito.

Qualquer trama da Mulher-Maravilha precisa considerar a sua importância histórica, tudo o que ela representa desde o seu surgimento e a razão de ser uma personagem tão popular ao ponto de até sua avó, que nunca leu um quadrinho na vida, ouvir esse nome e conseguir visualizá-la.

Uma coisa é normalizar personagens femininas guerreiras, fortes fisicamente, habilidosas com armas. Essa normalização já veio até bem tarde. Outra coisa, bem diferente, é partir dessa normalização para pegar personagens que além de fortes são ícones e trazê-las para o outro lado da linha, em uma trama disfarçada com o manto da “profundidade”.

Colocar a Mulher-Maravilha no mesmo cesto das mulheres que precisam viver um romance para serem completas, das mulheres que passam mais de duas horas e meia de história sofrendo por um homem, das mulheres que estão dispostas a simplesmente abdicar de sua força (olha o poder dessa metáfora) para poderem viver com o homem que amam, é no mínimo frustrante e um pouco assustador considerando que o filme foi dirigido e parcialmente roteirizado por uma mulher.

Sabemos que no final do longa a protagonista volta à razão e nos é mostrada uma Mulher-Maravilha razoável, quase digna do nome. Mas ainda assim, são mais de duas horas da maior super-heroína de todos os tempos se resumindo a sofrer por amor, sem mais nada na vida capaz de lhe trazer a felicidade que seu antigo amor lhe trouxe. Como se realmente não houvesse mais nada, amigos, conexões, pessoas, outros romances, salvar o mundo etc.

Cheguei a ver muita gente tentando resumir toda a problemática de se tratar a Mulher-Maravilha dessa forma a uma briga de Marvel x DC, visto que o Steve Rogers também nunca superou o fato de ter perdido seu grande amor do passado. Mas a grande diferença é que o Capitão América ficou congelado por 90 anos, para ele, tudo aquilo passou em apenas um dia, é claro que ele não ia superar. Ainda assim, ele fez amigos, viveu sua vida, teve outras preocupações. Completamente diferente da Diana, que viveu mais de 60 anos depois da morte de Trevor e ainda assim parecia que ele, e somente ele, era a parte mais importante dos seus séculos de vida. Em nenhum momento do filme, ela pensa em sua mãe, por exemplo, ou em sua treinadora, ou em sua ilha, ou em qualquer pessoa que tenha passado pela sua vida nos mais de 60 anos depois de Steve.

E sinceramente, eu não me importaria de ver um pouco mais de homens românticos, sensíveis, que não se importam em reafirmar sua masculinidade a todo custo e, por que não, inseridos em tramas e subtramas tradicionalmente dedicadas às personagens femininas, sendo representados na indústria cinematográfica mainstream. Agora, mulheres que baseiam sua vida e suas escolhas somente no amor, que passam um filme inteiro chorando por um homem, personagens femininas que só servem para o crescimento do protagonista masculino... a gente precisa mesmo disso? Mais ainda? Já não tem o suficiente?

De verdade, acredito que não precisamos mais. E definitivamente não precisamos que a MULHER-MARAVILHA se preste a esse papel. Se a força física, habilidade e destreza femininas já foram normalizadas, está na hora de aprofundar o debate, mostrar diferentes tipos de força, e não de voltar à velha representação de mulher que vive apenas para o romance.

 

Esta coluna é escrita pelos integrantes do Anime Geek, evento multicultural pop e geek realizado em Belém desde 2012. Para mais informações, acesse também as nossas redes sociais:
 
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