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quinta, 22 de outubro de 2020

Anime Geek

Mulan tem muita coragem. Mas seu filme não.

Crítica com spoilers de "Mulan" (2020).

16 Set 2020 - 18h54Por Ana Paula Castro

Antes de qualquer coisa: para aqueles que não estão familiarizados com o conceito, a crítica de um filme nada mais é do que uma análise da obra, que ressalta seus aspectos positivos e negativos sem deixar de emitir a opinião do autor em relação a ela. Ou seja, é uma opinião, única, de quem está analisando o filme. Logo, o leitor tem total e completa liberdade de concordar ou discordar sem que isso signifique que um está certo e o outro errado. São apenas opiniões diferentes. Estamos entendidos? Então vamos começar.

Mulan é, antes de tudo, uma lenda chinesa que habita o imaginário desse povo desde o século VII, quando foi descrita no poema A Balada de Mulan. Faço questão de dizer isso antes de falar da animação da Disney de 1998, pois a lenda é muito maior do que o filme. Apesar de muitos de nós termos conhecido a guerreira por meio dessa animação, acho fundamental deixar claro que essa crítica pouco vai falar dela. A proposta desse texto é analisar o live action de Mulan pelo que ele é, independente da animação e das expectativas que foram criadas por conta dela.

No filme de 2020, Mulan (Yifei Liu), que desde criança já apresentava certa aptidão para as artes marciais, é filha de Hua Zhou (Tzi Ma) e Hua Li (Rosalind Chao). Logo no início já podemos observar o quanto seu comportamento incomoda a sociedade na qual ela vive, o que faz com que seu pai peça para que ela “cale sua voz”, para protegê-la, visto que uma mulher naquele contexto só poderia trazer honra para a família por meio do casamento. Assim, Mulan cresce e veste esse papel. Mas tudo muda quando o império chinês é atacado por invasores liderados pelo poderoso Böri Khan (Jason Scott Lee), avançando cada vez mais por seus territórios. Com isso, o imperador (Jet Lee) precisa reforçar seu exército e convoca um homem de cada família para lutar.

O pai de Mulan, que já está com uma perna ferida devido a uma guerra anterior, não tem nenhum filho homem e está disposto a servir ao império como soldado. O medo de perder o pai, somado com sua coragem inata, fazem com que Mulan roube a armadura dele e se apresente ao exército com uma nova identidade, Hua Jun. Ela se passa por um homem durante todo o treinamento e uma parte da guerra, estando em constante conflito com os valores de seu povo, que preza pela honestidade. No entanto, a maior virtude de Mulan é sua devoção à família e, ao longo do filme, ela precisa colocar na balança a necessidade de descobrir quem é, ser verdadeira consigo mesma e com seu povo, e, ao mesmo tempo, proteger a honra de sua família.

A proposta da Disney em investir nesse live action claramente teve a ver com a oportunidade de corrigir certos erros e estereótipos ocidentais em relação ao povo chinês, muito presentes na animação, além dos objetivos financeiros, é claro. Por isso, a inspiração para o filme veio muito mais da lenda e da cultura da China, o que é algo bastante enriquecedor.

O filme já vinha causando polêmica antes de seu lançamento, pela proposta diferente do que têm sido os live actions da Disney, que mudam pouca coisa em relação às suas versões 2D. Ainda assim, a expectativa para ver Mulan nos cinemas era grande, porém essa foi mais uma das coisas abaladas pela pandemia. Depois de ser adiado uma vez, o estúdio optou por lançar o filme direto em sua plataforma de streaming, o Disney+, cobrando um valor adicional à assinatura, na tentativa de compensar o alto investimento de 200 milhões de dólares na produção.

A intenção foi boa

A primeira impressão ao se ver o filme é que Mulan foi uma aposta alta da Disney, não apenas pelo seu orçamento, mas também pelas suas escolhas. O primeiro ponto bastante positivo que merece ser exaltado, o maior ponto positivo na minha visão, é a exaltação da cultura e dos valores da sociedade chinesa daquela época. Fica muito claro para o espectador que a desonra, para eles, é muito pior que a morte, o que nos ajuda a entender os conflitos dos personagens.

É por meio desse trabalho apurado em relação aos valores sociais que podemos entrar mais em contato com a cultura. Por isso, não fica muito claro o motivo da escolha do mito da fênix como o símbolo que representa a protagonista, pois, apesar de também ter uma origem chinesa, foi a versão egípcia da lenda que foi apresentada no filme, o que não fez muito sentido.

Outro ponto positivo a ser ressaltado é o elenco, 100% chinês. Com algumas poucas exceções, os atores escolhidos se encaixaram bem em seus papéis e entregaram boas interpretações. Infelizmente, uma dessas exceções é justamente a protagonista, que transmite muito mais emoção em sua versão em mandarim da música "Reflection", que toca nos créditos, do que em quase duas horas de filme.

Uma boa ideia, muito mal executada

A diretora Niki Caro recebeu duras críticas dos fãs da animação por optar excluir personagens queridos do público (ocidental, é bom deixar claro), como o dragão Mushu e o comandante do exército e par romântico de Mulan, Li Shang, bem como por optar não fazer um musical, com o argumento de que ninguém canta em meio a uma guerra.

Baseado nesse posicionamento, é difícil entender algumas escolhas da direção que deixaram o filme quase um musical sem música, com cenas extremamente escrachadas, exageradas e "teatrais" demais. Tudo parecia bastante coreografado e cronometrado, o que com certeza não caracteriza o drama de guerra que foi prometido. Em vários momentos, ele pareceu muito mais uma releitura da animação com excesso de câmera lenta. E a ideia não era justamente fazer diferente?

Ficou muito clara a tentativa de homenagem ao cinema chinês. Contudo, quando se tem atores como Donnie Yen e Jet Li, especialistas nas artes marciais, não são necessários inúmeros cortes de câmera em uma cena. Eles sozinhos, sem efeito nenhum, conseguem ser extraordinários e, infelizmente, foram muito mal aproveitados.

Toda essa performance cronometrada no roteiro não permitia com que o elenco reagisse às situações com a emoção e a adrenalina que elas requeriam, o que acabou interferindo também nas reações do público. Falta adrenalina, falta emoção, falta sentimento. E aí é inevitável a comparação com a animação, porque a cena em que Li Shang diz aos soldados que se eles morrerem, morrerão com honra, e todos sacando suas espadas logo em seguida frente a um exército de milhares, traz uma apreensão em quem assiste que nem o clímax da versão de 2020 conseguiu trazer.

Ainda falando de personagens e atores mal aproveitados, precisamos enfatizar o quanto é louvável a tentativa do roteiro e direção de promover a sororidade e quebrar com a ideia de rivalidade feminina. No entanto, optou-se por fazer isso com a personagem de Gong Li, a bruxa Xian Lang, o que poderia ter sido uma ótima escolha, não fosse tão pouco o tempo que tivemos para nos adaptar a ela como aliada.

Para piorar, tanto Mulan quanto a bruxa só reconhecem uma a outra como iguais devido às suas próprias habilidades. Pouco se pensou, em termos de construção do roteiro, na opressão de mulheres que não nasceram dotadas do "chi" e que por isso estavam fadadas a se submeter ao casamento como único destino aceitável, como a própria irmã de Mulan, outra personagem que de tão mal aproveitada poderia nem ter existido, o que certamente seria um caminho mais interessante a seguir, considerando que o plot de Xian Lang teve pouco desenvolvimento e sua evolução como personagem abrupta, fraca e superficial.

Superficial porque mesmo que ela tenha entendido que Mulan, apesar de ser mulher, não era tratada como inferior pelo exército chinês, diferente de si, isso traz uma outra problemática de roteiro: a da falta de consequências. Depois de tanto se falar na questão da honra e da verdade como valores essenciais para aquela sociedade, a protagonista simplesmente assume sua identidade feminina para o exército, porque sim, e pronto. Tudo o que Mulan sofre por falar a verdade se resume a uma cena de choro, porque depois todos a acolhem quase sem resistência, não apenas como soldado, mas como líder, em uma das cenas mais caricatas e contraditórias de todo o filme.

O esforço que Mulan não teve que fazer para que o exército imperial acreditasse nela também denota algo que foi o que mais me incomodou ao ver esse filme: ela não precisou se esforçar. Mulan, assim como Xian Lang, já nasceu com o "chi" e por isso consegue ser superior a todos os homens do exército. Não é uma mulher provando que pode ser tão forte quanto um homem, que iria enfrentar tudo o que fosse preciso para salvar o pai. É uma pessoa que já nasceu com tudo e só precisava de um estímulo para mostrar do que era capaz. Ela já era mais forte que qualquer um.

Isso tirou todo o peso e a importância da personagem que é um símbolo de força, coragem e superação para tanta gente, e acabou prejudicando também, como já foi dito antes, o plot de Xian Lang, deixando no ar a ideia de que mulheres, para conseguirem ser fortes e quebrar com estruturas sociais machistas e patriarcais, precisam já ter nascido com algum dom especial.

Até porque o que se subentende é que as habilidades de Mulan estavam apenas no início e que, se fossem trabalhadas, evoluiriam para os poderes que a bruxa já tem, algo que chega ao sobrenatural. Nenhum homem ou mulher, por mais forte que seja, conseguiria se equiparar a isso, tanto que Lang só morreu porque escolheu se sacrificar, mas ela jamais perderia uma luta.

Com o perdão da comparação, já que não é essa a ideia, a Mulan da animação demonstrou muito mais força, determinação e disciplina, já que chegou no exército sem saber absolutamente nada sobre guerras ou batalhas e saiu de lá salvando a China.

Quem gostou do filme pode até dizer que os fãs estão tentando buscar a produção de 1998 nele, mas como não fazer isso se o próprio live action não consegue se desprender da animação? Trazendo fracas tentativas de humor e um par romântico desnecessário e mais fraco ainda, colocando diálogos que chegam a quase repetir as letras das músicas que foram cortadas, entre outras coisas.

Se o objetivo era se distanciar da animação, então faltou arriscar mais. A obra tentou tanto agradar a todos os públicos que acabou sem identidade, sem ter a coragem de assumir o que realmente quer ser, ficando no meio termo entre um remake da animação e um filme de guerra, entre o drama épico e a fantasia. E embora essa possa parecer uma mistura interessante, ela só daria certo se essa tivesse sido a proposta desde o início.

Infelizmente, este é mais um live action da Disney que permanecerá ofuscado pela sua versão 2D, perdendo a oportunidade de trazer uma história mais digna de Mulan e, por esse erro, provavelmente cairá no esquecimento. 

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