Dólar Comercial compra R$ 5,4144 venda R$ 5,4149 máxima 5,4146
Euro compra R$ 6,3652 venda R$ 6,3679 máxima 6,3755
21 Set - 22h30
segunda, 21 de setembro de 2020

MULHERES NO PODER

O fiasco do novo filme de Kevin Spacey e o assédio no mercado de trabalho

Billionaire Boys Club, orçado em 50 milhões arrecadou 2.500 reais no seu fim de semana de estreia. Já são os sintomas do efeito Weinstein e o fim da era do assédio sexual institucionalizado.

26 Ago 2018 - 19h49Por Mari Tupiassu

Era uma vez um soberano em Hollywood. Vencedor de dois Oscar, estrela de Beleza Americana e de House Of Cards, Kevin Spacey assim o foi até um dia desses. Hoje, o seu mais recente filme Billionaire Boys Club (ainda sem data de estreia no Brasil), já pode ser considerado o maior fiasco cinematográfico do ano.

Os reis estão ficando nus e Spacey é prova disso. Seu novo filme arrecadou 120 dólares em seu primeiro dia de estreia.

O fracasso já era uma tragédia anunciada, considerando que a produtora não pôde realizar ações de marketing ou promoção na mídia, já que nenhum membro do elenco quis vincular sua imagem à de Spacey que responde a pelo menos quinze acusações de assédio sexual. 

Spacey é igual a Harvey Weinstein, que é igual a todos os homens? Não. Os homens não são todos iguais. Precisamos entender que o padrão não significa uma condição sine qua non,  mas um comportamento que se repete com regularidade, pela interferência de diversos fatores. O assédio no ambiente de trabalho é um padrão, mas o tratamos como um sintoma de uma imutável(pseuda) natureza masculina.

Todo homem trai... todo homem e o seu instinto sexual… todo homem pensa com a cabeça de baixo. Quem nunca? Generalizações como essas colocam o masculino na caixa do bon vivant anti-ético, onde tudo lhe é permitido, e mais ainda, tudo lhe convém.

Do outro lado, na ponta mais fraca da corda, estamos nós, instrumentos do gozo sexual masculino e muitas vezes tão somente isso tem que nos bastar. A propósito, as mulheres deveriam estar rendendo graças à procriação através do serviço do útero. Se elas agora estão reivindicando o topo do mercado, vagas disso ou daquilo outro, e todo esse mimimi… o mínimo tolerável é a aceitação da sua condição de objeto e calar-se diante da nobre oferta de fazer feliz o seu superior (no caso, um chefe).

Isso poderia ser uma abordagem introdutória do setor de recursos humanos, mas como não estamos falando de uma prática declarada, e sim de um acordo tácito, a boca do povo diz, “vai lá, usa o teu charme”, como se fosse a voz de Deus.

Essa foi a frase que ouvi quando cansada da implicância de um chefe, contei a uma colega de trabalho que diante de um convite dele para jantar eu respondi “não”. Ela se assustou. Lembrou-me dos inúmeros casos com o mais de um terço da equipe de trabalho e que ele era um cara de caráter passional, portanto, seguramente ficou em fúria com minha resposta.  

Homens no poder tem dificuldade de ouvir não. Um dos fatores é justamente o poder. Há uma relação de subjugação da mulher que parece dar ao homem a sensação de sentar em um trono toda vez que ela diz sim aos caprichos do soberano.

Fui repórter de rua por anos e já tive dezenas de companheiros de trabalho: cinegrafistas, auxiliares, motoristas. Fiz viagens aos lugares mais inóspitos como única mulher da equipe e nunca tive sequer uma situação desrespeitosa. Detalhe importante, eu era a líder da equipe.

O padrão do assédio tem raiz nas relações de poder. Cômodos, Imperador Romano, apenas escolheu a escrava de sua então esposa (Crispina) para ser sua amante. Márcia, obviamente, não se atreveu a negá-lo. Como a escolhida concubina, passou a ser dona de todas as regalias dos nobres. Ou seja, aos olhos da sociedade romana: uma privilegiada.

Mais de dois mil anos depois, ainda sofremos nos ambientes de trabalho uma prostituição forçada, sob total desqualificação da nossa real capacidade produtiva. Foi com essa segurança que Harvey Weinstein, Spacey, Wood Allen assediaram dezenas de mulheres dentro de um mercado de evidência global, o cinema americano.

O silêncio esteve do lado deles por décadas. Acontece que o silêncio não é uma anuência. Ninguém escolhe como profissão na vida, “ter sucesso profissionalmente abrindo as pernas” (exceto as prostitutas e quando fazem isso por escolha). Somos coagidas. O silêncio é um sintoma da gravidade do problema: você é muito menor do que o muro com que dá de encontro. Ou você aceita ou você não se cria. O que eu chamo de "assédio institucionalizado". Eu, por exemplo, como não usei o charme, pedi demissão.  

Somos vítimas de assédio no ambiente de trabalho porque há homens que se julgam soberanos e até então o mercado concedeu a eles toda soberania. Mas os “reis” estão ficando nus e quando uma de nós se pronuncia, é mais um assediador que cai. Só o #FigthLikeAGirls ou #MeToo pra quebrar a muralha dos muitos e muitos tiranos, que só querem uma posição de poder pra colocar seus pênis de fora. Quiçá, daqui a um tempo, poderemos imaginar um mundo onde nossas filhas não precisarão mais ouvir: vai lá, garota, usa o teu charme.

 

Deixe seu Comentário

Leia Também

Paulo Bonamigo é o novo técnico do Remo
COMO EM 2000

Paulo Bonamigo é o novo técnico do Remo

há 57 minutos atrás
Paulo Bonamigo é o novo técnico do Remo
Estudo brasileiro aponta que covid-19 pode causar danos cerebrais
CORONAVÍRUS

Estudo brasileiro aponta que covid-19 pode causar danos cerebrais

21/09/2020 21:02
Estudo brasileiro aponta que covid-19 pode causar danos cerebrais
POUCAS E BOAS

Setor farmacêutico em alta

21/09/2020 21:00
Hospital em Belém capacita funcionários para acolhimento humanizado a pacientes transgêneros
POLÍTICA NACIONAL

Hospital em Belém capacita funcionários para acolhimento humanizado a pacientes transgêneros

21/09/2020 21:00
Hospital em Belém capacita funcionários para acolhimento humanizado a pacientes transgêneros
Sandra Annenberg e Ernesto Paglia comemoram 26 anos de casados
VIVA O AMOR!

Sandra Annenberg e Ernesto Paglia comemoram 26 anos de casados

21/09/2020 20:40
Sandra Annenberg e Ernesto Paglia comemoram 26 anos de casados
Últimas Notícias