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sábado, 08 de agosto de 2020

Anime Geek

O fim é o começo e o começo é o fim

Uma análise (com spoilers) sobre a temporada final de Dark.

05 Jul 2020 - 21h23Por Thyago Andrade e Rai Moraes
O fim é o começo e o começo é o fim, luz e escuridão, passado e futuro, esperança e desolação, morte e vida. Dark, série alemã considerada a melhor da história da Netflix, chega ao fim após concluir sua terceira temporada de maneira frenética usando e abusando de referências à dualidade.
 
Dark surgiu sem fazer barulho, conquistou uma legião de fãs de maneira silenciosa. Quase sem pretensões, saiu de “mais uma série de viagens no tempo” para “a série de viagens no tempo” em três anos. Com muitas reviravoltas, criatividade e inventividade, a previsibilidade que a obra supostamente teria deu lugar à estupefação dos fãs, mesmo com uma trama evidentemente complexa.
 
As duas primeiras temporadas apresentam a jornada do jovem Jonas Kahnwald. Jonas é filho de Michael Kahnwald, que na verdade é Mikkel Nielsen, desaparecido quando criança em 2019 atravessando uma fenda do tempo dentro de uma caverna, voltando ao ano de 1986. Assim como Mikkel, Jonas e vários outros personagens da série experimentam viajar no tempo, tanto para o passado quanto para o futuro. Através de inúmeras viagens para quase meia dúzia de diferentes épocas, os habitantes da pequena cidade de Winden começam a perceber que estão ligados por um grande nó que mistura suas histórias, influencia diretamente suas origens, confunde seus sentimentos e até os transforma em familiares consanguíneos. A longa jornada de Jonas se inicia com busca de respostas para o suicídio misterioso de seu pai e termina, literalmente, numa tentativa épica de busca por paz, redenção e salvação do mundo que conhece... e até de mundos que ele não conhece! Como se as diferentes linhas temporais já não bastassem, também existem diferentes realidades que causam impactos colossais na história e fazem o espectador da obra levar às mãos à boca e a fazer todo tipo de especulação que se possa imaginar.
 
Esteja ciente de que a partir deste ponto haverá muito spoilers sobre o desfecho da série. Caso você ainda não tenha visto e não queira deixar de ser surpreendido pelo desenrolar do enredo, sugiro que assista todos os episódios e volte aqui.
 
A terceira temporada dá clima de guerra total à trama, a todo momento apostando na dualidade presente em quase todos os elementos que compõem a trama. Jonas e Martha, apesar de jovens amantes e pais do “Desconhecido” (sim, o “Desconhecido” ou “a Origem” é filho do casal) que se apresenta sempre – e simultaneamente – nas versões criança, adulto e idoso, protagonizam um embate de 66 anos entre as diferentes épocas e realidades. “Escondidos” atrás dos pseudônimos “Adam” e “Eva”, ambos tentam encerrar o infinito loop temporal de diferentes formas, coisa que leva o espectador a imaginar que – talvez – o amor entre eles tenha dado lugar a um sentimento de ferrenha oposição mútua. Contudo, como quase tudo em Dark, o que vemos não é o que exatamente é.
 
A serie também é bastante inteligente quando resolver utilizar alegorias oriundas da fé. O filho de Bartosz, Hanno, que durante a maior parte da série foi conhecido como Noah (ou Noé), mesmo desempenhando um papel muitas vezes confundido com um vilão, teve participação fundamental na salvação de boa parte dos “escolhidos” (as pessoas que faziam parte do nó temporal). Hanno/Noah tem uma das tramas mais complexas da série, atuando como elo inicial entre as diferentes épocas que compõem o nó, conduzindo seu pai quando este ainda era jovem, influenciando Jonas enigmaticamente e, como se nada faltasse, sendo o pai da policial Charlotte. Charlotte dispensa comentários desde o final da segunda temporada, mesmo que não atue tão consistentemente para a consolidação do ato final, já que a personagem é filha de Hanno e de sua própria filha Elisabeth.
 
Ainda sobre símbolos religiosos na trama, é interessante observar que um objeto – não uma personagem – também acaba tendo uma saga fantástica em Dark. A medalha de São Cristóvão, que viajou por muitas mãos e eras durante a série inteira, cumpre o papel de inserir o conceito de Paradoxo de Bootstrap que, se tivesse sido explicado como diz a teoria, provavelmente a daria momentos sonolentos que afastariam o espectador. Utilizando o recurso com muita inteligência e ousadia, o roteiro consegue unir fé e ciência num objeto, além de explicar como funciona o paradoxo, além de também oferecer exemplos práticos de maneira facilmente compreensível.

Sem querer apelar para clichês, mas talvez o fazendo um pouco, deve-se ressaltar que Dark também fala sobre amor. Amor de diferentes formas, por diferentes pessoas, motivado por diferentes laços, construído e alimentado por diferentes perspectivas (às vezes meio erradas, não é Ulrich? Hein, Hannah?). A verdade e a intensidade por trás de cada sentimento apresentado em Dark conseguem exprimir a motivação de cada personagem, coisa que evidencia que a luta de cada um não era apenas contra um evento de extinção da vida, mas sim pela vida e pela felicidade do outro, daquele que importa mais do que o próprio mundo.

A jornada de Claudia Tiedemann talvez seja a que mais representa o amor na série. Claudia confronta o tempo, a si mesma em diferentes épocas, Adam, Eva e o próprio destino para salvar a vida de sua filha de um câncer. A personagem vai de Einstein à Marie Curie em genialidade e pavimenta o caminho final dos protagonistas impulsionada por um forte sentimento materno.
 
Se você leu até aqui e acho que não haveria críticas negativas, se enganou. Apesar de fazer jus à alcunha de “melhor série da história da Netflix”, Dark apresenta algumas ideias e as abandona sem maiores explicações.
 
Até hoje não sabemos como que Helge Doppler conseguiu se relacionar com alguém e ser pai de Peter. Outra coisa que ficou esquisita é a relevância (ou total irrelevância) do segredo Aleksander para a trama, coisa que criou muitas expectativas e no final não era nada que influenciasse as viagens no tempo e suas consequências. Por fim, o que mais chama atenção negativamente, é o fato de que as experiências feitas com Mads Nielsen e o mistério em relação ao seu sumiço poderiam ser totalmente removidas da trama sem que causassem qualquer prejuízo à compreensão da ideia.
 
Dark termina com mais uma genialidade, que é surpreendentemente simples diante de toda complexidade apresentada até o último episódio.  Desafiando o espectador a opinar sobre o que é real e o que não é, é apresentado um terceiro mundo paralelo com um colorido até então não explorado. Ironicamente, não há tanta complexidade neste ponto e isso, para o desfecho de Dark, é tudo o que faltava.
 
Preferimos não narrar a solução pois Dark termina de maneira brilhante e totalmente inenarrável. Qualquer descrição do apagar das luzes (e você perceberá que elas realmente se apagam) corre o risco de ser mal contada e até injusta com a riqueza de detalhes de um roteiro evidentemente trabalhado com muito carinho. Diferentemente de quase tudo que assistimos hoje em dia, Dark não fez questão de espremer até a última gota da ideia e se estender por quase uma década, muito pelo contrário: O fim e o começo estavam conectados e já existiam desde o início e a obra se posicionou de maneira muito madura sobre quando parar... e acertou!
 
Apesar de não termos a intenção de discutir a tecnicalidade da obra, seria injusto não mencionar que a trilha sonora da série é um espetáculo à parte. Observar como os efeitos sonoros e músicas de fundo casam perfeitamente com a proposta, com o cenário, com os diferentes momentos e até com as variações de humor dos personagens dá a ideia de como a série foi tratada com muito carinho, desde o primeiro episódio. Seja neste, ou em qualquer outro tempo, realidade ou momento, Dark merece ser vista e revista muitas vezes.
 

Esta coluna é escrita pelos integrantes do Anime Geek, evento multicultural pop e geek realizado em Belém desde 2012. Nossa próxima edição será em novembro na UNAMA-BR. Para mais informações, acesse também as nossas redes sociais:

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