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sexta, 15 de fevereiro de 2019

MULHERES NO PODER

Poderia ser qualquer uma de nós

Crime brutal de feminicídio: violência contra a mulher acontece em qualquer lugar, a qualquer hora.

04 Nov 2018 - 19h14Por Mari Tupiassu

Não existe lugar seguro para nós. E esse texto é porque prezo que você não seja mais uma vítima. Um banheiro escondido, um quarteirão deserto, um buraco no muro. Qualquer espaço pode tornar-se propício, desde que a condição seja: gênero feminino.

Somos presas fáceis da força, como no mundo animal o antílope dificilmente escapa de um réptil com garras pontiagudas. Norma foi uma vítima, você não a conhece, mas como ela, poderia ser qualquer uma de nós. Narrarei os traços de requinte e crueldade do crime no ímpeto de vomitar minha angústia e ratificar em tom de revolta: meninas, não estamos livres.

Norma, empregada doméstica, estava numa parada de ônibus, como as tantas outras existentes no Brasil. Soturnas, iluminação precária, segurança zero. Ela voltava do trabalho. Dirão… ah, mas era de noite… ah, mas de madrugada essas coisas acontecem. Não, amores. Norma estava na parada às duas da tarde de um sábado. Luz, dia, carros passando.

Ela foi arrastada e levada para um matagal, através de um buraco no muro. Estuprada, espancada e morta por enforcamento, com um pedaço de cipó. Detalhe, o local do crime? Terreno baldio? Casa abandonada? Nada disso. Pasmem, o crime aconteceu numa área de reserva militar de Belém.

Hoje, uma semana depois, em frente a fatídica parada, placas e cartazes pedem justiça e o fim da violência contra a mulher. O buraco foi fechado, mas outro já se abre, três metros a frente. Isso significa que… quantas mulheres estão correndo o mesmo risco?   

Eu moro no mesmo bairro de Norma. Talvez uma das áreas mais tranquilas ainda da cidade, onde alguns sentam na porta enquanto flertam com o movimento da rua. Perto da minha casa há uma enorme avenida, linda, arborizada, a Santarém. Gostava de correr lá no fim do dia. Mas tive que deixar de ir. Por que? Preguiça? Não. Entre a minha casa e a avenida há um cemitério tomado por lixo, e também uma subestação de água que, adivinhem... tem um buraco no muro. Às vezes em que passei por ali, pensei comigo… esse buraco… alguém me arrasta pra lá, já era!

Eu fui mais esperta que Norma? Não. Eu posso atravessar esse medo indo até a Santarém de carro. Norma, muito provavelmente já havia intuído o risco. Mas que outra opção restava a esta senhora, empregada doméstica, assalariada? A parada insegura era o único meio. E mulheres, como nós muito bem sabemos, não fogem a luta diária do ganha pão.

Lembrei-me que quando eu era criança, minha mãe pegava todos os dias dois ônibus para ir trabalhar e outros dois para voltar para casa. Ela sai às seis da manhã e retornava às onze da noite, subindo a nossa rua, escura e deserta. Minha mãe, como Norma, não tinha outra escolha, precisava alimentar as três filhas. 

Há um bar que frequento há anos, um bar de vinil onde canto e danço a noite toda. O banheiro fica na parte de fora do estabelecimento. Um dia, lá pelas três da manhã, saio do banheiro e um homem está com o pênis de fora, fingindo se atrapalhar para fechar o zíper. Passei por ele igual uma bala, virando o rosto pro lado, com o coração acelerado diante da iminência de ser violada.  

Reflitamos juntas. Podemos nos considerar livres? Quantas vezes escapamos? Quantas coisas deixamos de fazer por sermos mulheres? Graças damos a Maria da Penha. Graças damos a Lei do Feminicídio. Ainda que existam avanços, estamos longe, eu diria equidistantes,  de finalizar com um corte histórico e definitivo, essa escravidão que cerceia o nosso direito de ir e vir, de andar pelas ruas, de simplesmente voltar do trabalho em paz.

Por quantas ruas ainda teremos que deixar de passar? Não somos, mas vivemos como se fóssemos presas, escapando diariamente, na medida em que somos capazes de antever e evitar uma ocasião. Dizem que a ocasião faz o ladrão. Lembremo-nos, no caso de crime contra a mulher o nosso gênero já é uma condição sine qua non. 

 

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