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terça, 01 de dezembro de 2020

Anime Geek

Quem disse que xadrez não pode ser emocionante?

Uma crítica de O Gambito da Rainha feita de homem para homens.

11 Nov 2020 - 16h24Por Thyago Andrade

O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit), minissérie de drama da Netflix, baseada no livro de mesmo nome (Walter Trevis, 1983), é uma série sobre a vida de uma mulher forte que todo homem deveria assistir.

Num mundo onde a violência e o desrespeito contra a mulher parecem ser cada vez mais normalizados, O Gambito da Rainha ressurge como uma obra que claramente faz um convite à reflexão sobre mulheres fortes, sobreviventes, independentes e que não se permitem domar por um sistema segregacionista e opressor. A obra conta a história da enxadrista Elizabeth (Beth) Harmon, que desde a infância demonstra um talento gigantesco diante do tabuleiro e surpreende os grandes jogadores de xadrez de seu tempo com suas jogadas ousadas e com vitórias de lavada sobre jogadores muito mais experientes.

A história de Beth é uma luta pela sobrevivência desde o começo. Filha de um relacionamento extraconjugal, Beth não teve figura paterna e foi criada pela mãe apenas até seus sete anos de idade. Como consequência do abandono afetivo paterno e do visível arrependimento que vivera, a mãe de Beth planeja um suicídio onde as duas deveriam morrer para abandonar o sofrimento que aquela vida vinha causando às duas, contudo a tentativa acaba fracassada e Beth sobrevive à batida de carro sem um único arranhão.

Traumatizada pela perda grotesca de sua mãe, Beth então passa a viver em um orfanato para garotas, instituição muito comum na década de 1960 nos Estados Unidos. Lá conhece Jolene, uma adolescente negra de temperamento forte a quem passa a ter como melhor amiga, Mr. Shaibel, o zelador do orfanato que acabou por torna-se seu mestre enxadrista e, infelizmente, o vício em pílulas calmantes.

Mr. Shaibel rapidamente percebe que Beth dispõe de uma inteligência descomunal, de uma velocidade de raciocínio completamente fora do comum e, principalmente, um talento para o xadrez como ele nunca tinha visto antes. Mesmo dizendo que “garotas não deveriam jogar xadrez”, Mr. Shaibel cede ao desejo de Beth de conhecer melhor o jogo e passa a ensiná-la tudo que sabe e a perceber que rapidamente foi superado pela criança que acabara de conhecer.

Mr. Shaibel e Beth, O Gambito da Rainha / Netflix

Quanto mais adentrava o mundo do enxadrismo, mais Beth percebia que era a única mulher ali. Embora fosse ganhando cada vez mais respeito e admiração daqueles que derrotava, ainda assim era subestimada pelos novos adversários que encontrava pelo simples fato de ser mulher. Beth torna-se uma jogadora cada vez mais implacável, de estilo agressivo e determinado, coisa que faz com que seus adversários passem até mesmo a temê-la.

Beth Harmon, O Gambito da Rainha / Netflix

Em um dos momentos mais dramáticos da obra, Beth é adotada por um casal do estado de Kentucky e deixa o orfanato, Mr. Shaibel e sua amiga Jolene. Claramente, Jolene demonstra a dor que sente por estar perdendo a companhia de sua amiga e diz que não tem esperanças de ser adotada por ser “preta demais”. Na opinião deste que escreve, a obra mais uma vez convida o espectador à reflexão sobre uma das chagas mais profundas da humanidade que é o racismo. A adoção é um dos atos mais nobres que um ser humano dispõe a fazer por outro, todavia, nem mesmo nesse momento parece ser possível despir-se totalmente de um preconceito completamente absurdo. Ver Jolene, uma garota de 13 anos, dizer isso de maneira tão natural, é como sentir um soco na boca do estômago e por não ter como refutá-la.

É possível imaginar que a saga de sobrevivência de Beth ficaria mais fácil após a adoção, mas, contrariando quaisquer expectativas, com o tempo a situação fica ainda mais dramática. Beth é adotada pelo casal Wheatley, formado por Alma e Allston. Alma dedica à Beth o amor de mãe que não pudera dar a uma criança que não pôde conceber, já Allston a trata com distância e desdém. Meses depois, ele abandona a família e passa a viver com a amante que tinha em outro estado, deixando Beth e Alma à própria sorte e quase nenhum recurso.

A dinâmica que ocorre entre Alma e Beth é o ponto mais alto da obra. Duas mulheres com vidas extremamente difíceis encontram apoio uma na outra e de fato convertem-se em mãe e filha, Alma sendo a mãe que Beth não teve desde cedo e Beth usando o máximo do seu talento para prover o necessário para a sobrevivência das duas através de campeonatos de xadrez. Alma abraça os sonhos de Beth, torna-se sua maior incentivadora, passa a cuidar dos bastidores de sua carreira e não mede esforços para ajudar sua filha a chegar ao topo.

Beth e Alma, O Gambito da Rainha / Netflix

Beth cresce, torna-se respeitada e extremamente temida pelos adversários que outrora lhe olhavam com estranheza. Quanto mais Beth avança nas competições regionais, nacionais e até internacionais de xadrez, mais nota-se que aquele mundo estava totalmente despreparado para receber uma mulher, sobretudo uma claramente independente e livre das amarras comportamentais e morais de uma sociedade extremamente atrasada e preconceituosa.

O mundo de Beth parece desmoronar quando ela perde também sua mãe adotiva e cai de cabeça no mundo do álcool, das pílulas calmantes e de uma vida descompromissada. Ela passa a ser vista como fraca, alcoólatra e como alguém cujo talento teria acabado.

Apesar de ter convivido com muitas dificuldades e preconceitos no mundo machista do Xadrez das décadas de 1960 e 1970, Beth fez amizades e viveu paixões efêmeras com alguns dos adversários que encontrou pelo caminho. Percebe-se aqui que eles eram homens que se permitiram mudar após o contato que tiveram com Beth e enxergaram nela aquilo que almejaram para si dentro das competições de xadrez. A minissérie, de maneira muito inteligente, consegue transmitir a mudança que os homens que a cercam sofreram através dos seus olhares. Aqueles que antes olhavam para Beth com desrespeito, desdém, subestima e até sarcasmo passam a olhá-la com respeito, admiração, preocupação nos momentos em que ela esteve mal e esperança pelo sonhado título mundial que permanecia com os soviéticos por décadas. A maior evidência disto são os olhares que Beth recebe de Vasily Borgov, campeão mundial nascido na União Soviética, que se torna seu adversário mais difícil e implacável. Borgov, diferentemente dos americanos, nunca a olhou com desdém, mas claramente se sentia superior. O último embate entre os dois, que é épico, torna-se inacreditavelmente emocionante... sinto até dificuldade de descrevê-lo num país como o nosso onde espera-se emoção apenas em esportes coletivos como o futebol e o vôlei, mas, acredite, é uma das melhores cenas de uma competição que veremos por muito tempo.

Iniciei este texto dizendo que todo homem deveria assistir esta minissérie e reforço dizendo que, de fato, deve! Nós, homens, desde muito pequenos somos condicionados a sentir que possuímos algum tipo de superioridade sobre as mulheres, seja física, seja mental, seja em qualquer aspecto. Beth Harmon, sua amiga Jolene e sua mãe Alma nos convidam a repensar isso trazendo à tona as violências que fazem com que muitos de nós achemos que isso faz algum sentido. Não apenas elas, mas o comportamento machista da maioria dos homens da obra e da sociedade de maneira geral também é um convite ao pensamento que leva à seguinte frase: Eu, homem, faço isso? Eu, homem, sou assim? Eu, homem, entenderia Beth e também apostaria nela? A respeitaria? aceitaria de bom grado ser derrotado por uma pessoa genial e talentosa como ela sem ofendê-la sendo um mau perdedor?

Fica aqui a recomendação desta que considerei uma obra-prima e uma grata surpresa neste 2020, fica aqui também o convite à reflexão e ao amadurecimento.

 

 
Esta coluna é escrita pelos integrantes do Anime Geek, evento multicultural pop e geek realizado em Belém desde 2012. Para mais informações, acesse também as nossas redes sociais:
 
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