Dólar Comercial compra R$ 5,2061 venda R$ 5,2069 máxima 5,2065
Euro compra R$ 6,2838 venda R$ 6,2868 máxima 6,2863
01 Dez - 20h28
terça, 01 de dezembro de 2020
NUMBER ONE - DESK - 30 A 15.12
VALE - PROTETORES DA FLORESTA - MOB - 24.11 a 24.12
CHEGA!

'Os clubes de futebol ainda não discutem o racismo estrutural', avalia diretor do Observatório Racial

Goleiro do Paysandu fala da emoção em ser eternizado em mural do clube e atacante do Bragantino conta situação vivida no futebol

20 Nov 2020 - 05h00Atualizado 20 Nov 2020 - 12h03Por Junior Cunha
Marcelo Carvalho, diretor e fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol - Crédito: NicolasMarcelo Carvalho, diretor e fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol - Crédito: Nicolas

Em 2020, já foram registrados cerca de 20 casos de racismo no futebol brasileiro. Os dados preliminares são do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Muito mais que isso, a luta contra o racismo no esporte brasileiro parece estar distante de acabar. 

Nos últimos meses, o combate ao preconceito racial tomou outra conotação ao redor do mundo. Após a morte de George Floyd, segurança negro, por um policial branco nos Estados Unidos, o mundo se uniu contra qualquer tipo de preconceito. Nesta luta, o esporte teve - e terá - um papel importante. Cada vez, manifestações contrárias ao racismo estão sendo observadas, seja ela no futebol, automobilismo ou vôlei. 

Em conversa com a reportagem, o diretor do Observatório, Marcelo Carvalho, afirmou que o reflexo destas manifestações já estão sendo sentidas no dia a dia com o aumento dos debates na sociedade sobre a questão racial. Entretanto, Marcelo faz uma ressalva: as campanhas ainda não chegaram ao ponto de combater a raiz do problema. 

"O que conseguimos observar é um maior debate provocado por essas campanhas (de combate ao racismo no esporte). Seja pelo incômodo que essas campanhas provocam internamente nos clubes, naqueles torcedores que não aceitam essas campanhas, seja no maior número de debates em programas esportivos e na sociedade. Isso a gente vem observando e é um ponto muito importante de ressaltar e a comemorar. Mas por outro lado, a gente ainda não tem o resultado dentro dos espaços de poder. Não temos ainda uma campanha efetiva de combate ao racismo no futebol brasileiro, seja a nível nacional ou seja a nível estadual", pondera.

Segundo Marcelo, os clubes brasileiros ainda não conseguiram enxergar que as ações de combate precisam ser aprofundadas para combater o chamado "racismo estrutural", que acontece quando os negros não ocupam os espaços majoritários ou de destaque nas empresas. Hoje, entre os 60 clubes que disputam as Séries A, B e C, onde estão Remo e Paysandu, apenas a Ponte Preta é comandada por um presidente negro, o funcionário público Sebastião Moreira, o Tiãozinho. Na beira do gramado, a situação é igual: apenas o Jacuipense é comandado por um negro, o treinador Jonilson Veloso.

"A gente não tem ainda programas de inserção, de inclusão e de diversidade dentro dos clubes de futebol. Os clubes de futebol, por mais que estejam falando mais de racismo no futebol, por mais que estejam se posicionando mais, ainda não discutem o racismo estrutural. Ainda não são capazes de olhar para dentro dos clubes e perceber que a falta de pessoas negras nos cargos de comando, também é racismo. Ainda não são capazes de perceber que não ter nenhum técnico negro na Série A do futebol brasileiro em 2020, também é racismo. A sociedade ainda não entendeu que isso também é racismo. Ainda acha que racismo é o incidente, o insulto. Por um lado temos um aumento no debate e isso é salutar, é algo que devemos comemorar. Mas lá na ponta, que é mais importante, quem decide e determina, a gente ainda não viu uma mudança e algum trabalho efetivo". 

Eternizado

Em agosto deste ano, o Paysandu, em uma das ações de revitalização da fachada do Estádio Banpará Curuzu, criou um mural para estampar o rosto de diversas personalidades negras que ajudaram a construir a história centenária do clube. Ex-jogadores e ídolos, ex-dirigentes, repórteres, torcedores e jogadores do atual elenco foram lembrados pelo clube e eternizados em uma das paredes do estádio. 

(Foto: Vitor Castelo/Paysandu)

Ente os escolhidos, está o goleiro Paulo Ricardo. Aos 23 anos, o goleiro é cria das categorias do clube e conquistou, durante este Campeonato Brasileiro da Série C, a vaga de titular na meta do Papão. Paulo contou à reportagem que não esperava receber essa homenagem do clube. Para ele, o próximo passo é ficar eternizado no clube com conquistas dentro de campo.

"É uma alegria muito grande ser homenageado por esse clube. Um clube tão grande e poder fazer parte da história. Mesmo tendo bastante tempo aqui, eu não esperava uma homenagem desse tamanho. Fico muito feliz e espero poder fazer ainda mais história aqui e quem saber poder ter meu rosto mais vezes estampado aqui, mas dessa vez por títulos e conquistas", disse o goleiro. 

(Foto: Jorge Luiz/Paysandu)

No último mês, Paulo Ricardo viu dois de seus companheiros de clube passarem por uma situação que, infelizmente, é rotineira para jovens negros de todo o mundo. Enquanto voltavam para casa de ônibus, o volante George e o atacante Debu, que integram a equipe sub-23 do Paysandu, foram vítimas de racismo. Após uma suposta denuncia de uma pessoa que estava no coletivo, a polícia entrou no local e revistou os dois garotos. Na mochila deles, apenas o material de treino, como chuteira e short

Para o goleiro bicolor, essa situação ainda está longe de ser mudada. Porém, com o posicionamento cada vez mais forte dos atletas, é possível que a igualdade possa virar realidade. "Hoje em dia os atletas se posicionam mais sobre essa questão. É muito importante, porque muitas pessoas se inspiram nos atletas. Ver as pessoas fazendo isso, pode ser uma boa forma de tentar uma igualdade. Sabemos que ainda está muito longe de conseguir isso, mas com muitos atletas incentivando, pode mudar essa realidade".

"Não ia dar em nada"

Aos 32 anos, o atacante Fidelis é um dos principais nomes do Bragantino nas duas últimas temporadas. Com quase 40 jogos pelo Tubarão do Caeté, o jogador já marcou oito gols. Com uma vasta experiência no futebol nacional e internacional, Fidelis enxerga o combate ao racismo como "uma luta quase impossível de vencer" por conta da pouca punição dada aos agressores.

"Eu vejo como uma luta quase impossível de vencer, já que os racistas nunca são punidos e temos que lutar de outra forma. Graças a Deus ainda tem alguns jogadores que podem nos representar por estarem jogando em ligas maiores. Acredito que só vai mudar quando houver punição de verdade. Não essas que a gente ver por ai, do cara pedir desculpa na rede social, dar entrevista chorando, fala que tem um monte de amigo preto, que já namorou mulher preta e que não é racista. Enquanto tiver assim, não vai acabar. Acredito que quando começar a ter punição dura, vai mudar sim", acredita.

(Foto: Marcelle Pires/DECOM Bragantino)

Em 2012, quando atuava pelo Imperial do Rio de Janeiro, Fidelis vivenciou de perto o preconceito dentro do futebol. Ele conta que não foi a primeira vez que sofreu racismo dentro de campo, porém essa situação foi a que mais marcou a carreira dele. 

Durante uma partida da segunda divisão do Campeonato Carioca daquele ano, um jogador da equipe adversária cometeu injúria racial contra ele. Segundo seu relato, todos que estavam na partida presenciaram o ato de racismo. Entretanto, na hora de tomar uma atitude, Fidelis foi "aconselhado" por um dirigente do Imperial a não levar o caso adiante porque "não ia dar em nada". 

"Diversas vezes, tanto fora do Brasil, como aqui no Brasil. Lembro de uma situação que me deixou muito triste quando eu jogava no Imperial lá no Rio (de Janeiro), na segunda divisão do Carioca. Aconteceu do cara cometer o ato de injúria. Todo mundo viu, todo mundo ouviu e o diretor do clube não fez nada. Mandou eu deixar para lá que não ia dar em nada. O próprio diretor do meu time. Isso me deixou muito triste na época. Depois eu comecei a combater de outras formas. Comecei a ver que essa forma de ir lá e denunciar, não ia acontecer nada, a gente tenta combater essa guerra de outra forma".

"Eu já estou cansado desse negócio de denunciar e nunca acontecer nada. Se acontecer comigo dentro de campo, eu vou 'para dentro'. Se for defensor, a gente tenta desestabilizar ele de alguma forma também. Se for fora (de campo), a gente vai para guerra. Já cansamos de denunciar, fazer postagem em rede social e não acontecer nada. O pessoal lembra dois, três dias e depois esquece. Só lembra quem sofreu", completa. 

Envie denúncias, informações, vídeos e imagens para o Whatsapp do Portal Roma News
(91) 98469-4559ou clique aqui e fale conosco

Deixe seu Comentário

Leia Também

Após vídeo polêmico, Internacional anuncia rescisão de contrato de dois jogadores da base
CASO DE POLÍCIA

Após vídeo polêmico, Internacional anuncia rescisão de contrato de dois jogadores da base

01/12/2020 17:58
Após vídeo polêmico, Internacional anuncia rescisão de contrato de dois jogadores da base
Romain Grosjean passará mais uma noite no hospital antes de ter alta
RECUPERAÇÃO

Romain Grosjean passará mais uma noite no hospital antes de ter alta

01/12/2020 17:32
Romain Grosjean passará mais uma noite no hospital antes de ter alta
Mimica confessa tranquilidade após classificação e comenta o Re-Pa: 'Clássico do alívio'
UFA!

Mimica confessa tranquilidade após classificação e comenta o Re-Pa: 'Clássico do alívio'

01/12/2020 17:24
Mimica confessa tranquilidade após classificação e comenta o Re-Pa: 'Clássico do alívio'
Stéphanie Frappart será primeira mulher a apitar um jogo da Champions masculina
DIA HISTÓRICO

Stéphanie Frappart será primeira mulher a apitar um jogo da Champions masculina

01/12/2020 15:57
Stéphanie Frappart será primeira mulher a apitar um jogo da Champions masculina
Coração de Maradona pesava o dobro do normal ao ser retirado para autópsia
CAUSA DA MORTE

Coração de Maradona pesava o dobro do normal ao ser retirado para autópsia

01/12/2020 14:56
Coração de Maradona pesava o dobro do normal ao ser retirado para autópsia
Últimas Notícias