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quarta, 26 de setembro de 2018
REINO UNIDO

O tabu da perda de um filho: Inglesa emociona com relato postado na web

16 Set 2018 - 09h36Por Rodrigo Monteiro
O tabu da perda de um filho: Inglesa emociona com relato postado na web -

A inglesa Elle Wright perdeu o filho, Teddy, logo depois que ele nasceu e quer mudar a percepção de que uma pessoa só possa ser considerada mãe ou pai se tiver um filho vivo.

Ela enviou um depoimento emocionante à BBC de Londres. O relato ganhou o mundo via web e emocionou os internautas.

Leia o depoimento dela à BBC: Carta postada na íntegra (traduzida)

"Meu filho Teddy faria três anos na próxima primavera (do hemisfério Norte), mas ele nunca chegou a sair do hospital - morreu com 3 dias de vida. Quando tudo aconteceu eu me vi catapultada em um clima maternal que eu nunca esperei sentir.

Eu descobri a gestação em setembro de 2015, depois de 10 meses tentando engravidar. Eu me lembro de esperar o meu marido, Nico, voltar para a casa, para contar a novidade.

Eu coloquei o teste de gravidez que deu positivo nas mãos dele, e quando ele abriu os olhos pude ver sua expressão mudar completamente. Ele chorou de alegria. Nunca pensei que algo pudesse superar o sentimento de euforia do nosso casamento.

Nós esperamos até o primeiro ultrassom, com 12 semanas, para contar para as pessoas. Eu não conseguia acreditar até que vi nosso bebê na tela de computador do ultrassom, chutando e se mexendo, tão cheio de vida.

Eu deixei meu marido no trabalho e ele me mandou uma mensagem de texto pouco depois: "Essa é a melhor manhã de segunda-feira da minha vida. Queria que todas as segundas trouxessem um sentimento tão bom".

Seis meses depois, eu segurava meu bebê nos braços. Ele estava em silêncio, parecia tão pequeno.

Imediatamente, a parteira o tirou de mim. Fiquei lá para expelir a placenta, com a ansiedade crescendo dentro de mim. Mas, pouco depois, Nico apareceu, seguido por uma enfermeira sorridente que carregava meu filho. Ele estava envolto em toalhas e usava um capuz azul de marinheiro.

A enfermeira explicou que nosso bebê teve um "probleminha", mas que agora já estava estável e respirando. Com o chapeuzinho de tricô, ele parecia estar pronto até para uma excursão em alto-mar.

Mal sabíamos que ele enfrentaria uma jornada bem diferente, depois de passar só 74 horas nessa Terra. Nós decidimos chamá-lo de Teddy. O nome todo dele seria Edward Constantine - esse segundo nome veio da nossa paixão pela Baía de Constantine, na costa de North Cornish, no Reino Unido.

Eu sonhava em ver Teddy dando os primeiros rumos ao surfe na nossa praia favorita. Teddy e eu fomos dormir naquela noite numa ala onde ficavam outros pais e bebês que precisavam de cuidados adicionais.

Mas, duas horas e meia depois, foi acordada por uma enfermeira sacudindo meu ombro. As palavras dela foram: "Eu tenho que levá-lo, ele está muito frio". Eu vi os bracinhos dele penderem para os lados quando ela o tirou do berço. Ele tinha parado de respirar e ninguém sabia havia quanto tempo.

Foram necessários 18 minutos para que ele fosse ressuscitado e, depois, soubemos que o dano da falta de oxigênio ao cérebro dele era irreversível. Teddy foi transferido para uma unidade de terapia intensiva em outro hospital.

Enquanto tudo isso acontecia, meu corpo se comportava como o de uma mãe. No dia em que soubemos que os aparelhos que mantinham Teddy vivo seriam desligados, o leite passou a sair do meu peito. Era a mãe natureza sendo cruel.

Eu não sei se serei capaz de descrever como me senti ao saber que ninguém poderia fazer nada por Teddy e que ele poderia morrer naquele dia. Senti como se o último suspiro estivesse sendo arrancado do meu peito - como se uma onda me puxasse para baixo e que eu não seria capaz de submergir por mais que eu gritasse, chutasse ou lutasse.

O adeus

Teddy nasceu em 16 de maio de 2016 e morreu no dia 19 de maio, de uma síndrome metabólica rara chamada 3 methylglutaric aciduria (3MGA). Significa que tudo era venenoso para ele, mesmo o ar que respirou assim que nasceu. Meu corpo o estava mantendo vivo, motivo pelo qual eu pude conhecer Teddy, carregá-lo, sentir o cheiro dele e sentir o calor da sua pele na minha, ainda que brevemente.

As horas que se estenderam até o nosso último adeus pareciam transcorrer em câmera lenta. Nós finalmente pudemos tirá-lo do leito e niná-lo. Os avós dele o seguraram pela primeira vez e nós tiramos as únicas fotos como uma família de três - Teddy, Nico e eu.

Quando a hora chegou, eu sentei no sofá, rodeada por Nico e minha mãe. A enfermeira parou de bombear ar nos pulmões de Teddy, retirou os esparadrapos que estavam ao redor da boquinha dele, e o entregou para nós.

Finalmente, ele estava livre daqueles fios e daquelas máquinas barulhentas. Enquanto Teddy dava os últimos suspiros, nós líamos a ele uma história chamada "Adivinhe o tanto que a gente te ama". Eu me perdia nas palavras enquanto tentava memorizar cada detalhe do rostinho perfeito dele, em formato de coração, e do peso dele nos meus braços.

Quando ele parou de respirar, eu não senti medo. Eu queria que ele se sentisse seguro e soubesse o quanto eu o amava. É o que uma mãe faz, não é? Esquece-se dos próprios sentimentos, para proteger os de seus filhos. Mas eu acho que senti meu coração fisicamente se partir naquele momento. Pelo menos, essa é a única forma que eu consigo descrever o sentimento.

Após essa perda repentina, eu me senti dormente tanto física quanto emocionalmente. "Esse tipo de coisa acontece com outras pessoas", eu me lembro de pensar. Mandei algumas poucas mensagens a alguns amigos explicando que tivemos que dar adeus a Teddy.

Eu não conseguia dizer "ele morreu", ou "ele está morto". Levou alguns meses para que eu pudesse dizer ou escrever essas palavras: "Teddy morreu". Ao chegar em casa nos deparamos com um carrinho de bebê no corredor e um berço no nosso quarto. Nico os escondeu atrás de uma porta, em outra parte da casa.

Eu não conseguia chegar perto de lá. Constantemente me lembrava do que estava faltando na minha vida. Uma vida para a qual eu levei nove meses me preparando. O telefone da casa e nossos celulares pareciam não parar de tocar.

As melhores mensagens que recebi na época foram as de amigos que simplesmente diziam: "Eu estou aqui para você, se precisar, e quero que saiba que eu te amo".

O que dizer para quem perdeu um bebê

Eu nunca quero que aquele T desapareça. Algumas das mulheres do nosso grupo de WhatsApp foram abençoadas com mais bebês. Eles preenchem as nossas vidas com a esperança de dias melhores. Mas essas gestações traziam preocupações e ansiedades novas para cada uma daquelas mulheres. Perder um bebê faz isso.

As Mulheres Guerreiras entendem isso. Elas não amenizam nem reduzem o entusiasmo nas congratulações ao receber a notícia. E, claro, nunca as parabenizamos como "mães de primeira viagem", porque sabemos que elas não são.

Há algo de tão horrível em perder um filho que a sociedade não tem nem um nome para isso. Se sua mulher morre, você é viúvo, se seus pais morrem, você é órfão. Perder um filho desafia a ordem natural das coisas e é uma perspectiva dolorosa demais.

Mas o que isso significa para pais e mães, como Nico e eu, que somos mãe e pai de uma criança que não está viva? Existem milhares de pais enlutados andando por aí sem serem reconhecidos e compreendidos pelo mundo ao redor deles.

Quando as pessoas me perguntam se eu tenho filhos, eu tenho que decidir se conto ou não que Teddy morreu. Eu me preocupo em contar, porque sei que isso vai fazer o interlocutor se sentir desconfortável.

Às vezes as pessoas dizem coisas como: "Não se preocupe. Você será uma mãe maravilhosa um dia." Eu sei que elas têm boa intenção, mas é muito insensível.

Imagina se eu contasse que meu marido morreu e a reação imediata fosse: "Não se preocupe, você vai se casar de novo e será uma grande esposa".

Muito frequentemente as pessoas simplesmente mudam de assunto para algo como a previsão do tempo. Mas não tem nada pior do que o silêncio. Quando conto que tenho um filho, mas que ele não chegou ir para casa, faz uma diferença enorme para o meu dia se a pessoa diz: "Eu sinto muito. Qual era o nome dele?".

Isso me faz sentir que a minha narrativa de mãe é válida e que Teddy foi uma pessoa que importava e que ainda importa. Depois que o Teddy morreu eu ouvi a frase: "Você vai aprender a sentir o amor, mais que a perda". Para mim, é exatamente isso que dizer o nome dele nos permitiu.

Ao ouvir o nome Teddy, ao normalizá-lo e reconhecer a sua existência, estamos preenchendo o espaço cavernoso da perda com amor". Fonte: BBC de Londres.

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