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terça, 28 de setembro de 2021

Anime Geek

A nova Mulher-Maravilha é brasileira... E indígena!

Yara Flor estreou no universo da DC no dia 5 de janeiro, nos Estados Unidos.

15 Fev 2021 - 16h22Por Ana Paula Castro

Quem diria que a Amazônia seria palco para as histórias da super-heroína mais querida do mundo, hein? Yara Flor, que agora carrega o nome da Mulher-Maravilha na Terra, pode até não ter nascido no Brasil, mas foi criada no nosso país e é na floresta amazônica que ela começa sua jornada na DC Comics.

Yara faz parte do DC Future State, um novo arco que se passa no futuro, sucedendo Generations e Death Metal, com uma linha do tempo que vai de 2025 até o fim dos tempos. A ideia é mostrar justamente essa passagem de manto para a nova geração, juntando heróis de várias eras, com um novo Batman, o filho de Kal-El assumindo o posto de Superman e a própria Yara Flor, que assume as missões do planeta enquanto Diana enfrenta uma ameaça distante no espaço.

Então, caso não tenha ficado claro, sim, veremos Yara Flor em títulos como Liga da Justiça e Superman/Mulher-Maravilha, mesmo que sua HQ solo tenha uma história independente.

Yara Flor, a nova Mulher-Maravilha, brasileira e indígena

Quando a personagem foi anunciada, é claro que muitas expectativas surgiram nos leitores brasileiros. E também muitas críticas da galera que taxa tudo de “lacração” e parece que tem tanto prazer em xingar que não consegue nem ficar feliz por ver o próprio país sendo representado na pele de uma heroína tão icônica, de uma das maiores produtoras de quadrinhos do mundo.

Se você faz parte dessa galera, ou se apenas não nasceu no norte do Brasil, eu posso te dizer com tranquilidade que é até estranho que a associação da Mulher-Maravilha com mulheres indígenas tenha demorado tanto para acontecer. Ou você achava mesmo que o maior estado e o maior rio do Brasil têm o mesmo nome da lenda grega que inspirou a história de Diana por mera coincidência?

Icamiabas, as amazonas brasileiras

Acho importante fazer esse paralelo histórico para explicar porque a nova Mulher-Maravilha ser indígena faz tanto sentido. Até porque, se esse texto cair nas telas de pessoas que não são da Região Norte, fica aí a oportunidade de aprender um pouco mais sobre nossa cultura.

A história é a seguinte: quando a expedição do explorador espanhol Francisco Orellana chegou na região que hoje é conhecida como Amazônia, encontrou um grupo de mulheres guerreiras nas margens do rio Nhamundá, na divisa do Pará com o Amazonas. Segundo a descrição de Gaspar de Carvajal, que também fazia parte da expedição, eram mulheres altas, musculosas, de cabelos escuros e compridos e lutavam com arcos e flechas, para afastar os homens, que não eram permitidos em sua aldeia (parece familiar?).

Essas mulheres eram chamadas pelos indígenas de Icamiabas, que significa “a que não tem seio” ou “peito partido”. Acreditava-se que, assim como as amazonas gregas, elas cortavam o seio direito para facilitar o lançamento da flecha, embora alguns historiadores questionem essa parte, dizendo que elas apenas cobriam o seio com uma faixa. De qualquer forma, eram exímias arqueiras.

Apesar de não terem maridos, as Icamiabas tinham filhos. Uma vez ao ano, elas tinham relações sexuais com os indígenas de aldeias próximas (de onde se origina a lenda do Muiraquitã, que não vou entrar em detalhes porque não vem muito ao caso, mas se interessar a você, leitor, é só digitar “muiraquitã” no Google) e se daquela união nascesse uma menina, ela seria treinada nas artes da guerra com as Icamiabas, se fosse um menino, era dado ao pai para criar.

Então temos um grupo de mulheres guerreiras, que constituiam uma sociedade matriarcal na qual homens eram proibidos de entrar e que treinavam apenas as meninas nascidas de relações esporádicas com homens. Já dá para imaginar que o olhar eurocêntrico dos colonizadores espanhóis bastou para batizar o rio de Amazonas.

Será que sabendo dessa história você consegue admitir que a associação “Mulher-Maravilha/Mulheres indígenas” demorou demais para ser feita? Bom, isso com certeza é um acerto gigantesco da autora Joelle Jones, criadora de Yara Flor.

O que temos a dizer sobre a primeira edição?

Jones alavancou sua carreira com a série Lady Killer, que lhe rendeu o prêmio Eisner em 2015, considerado o Oscar dos quadrinhos. Em 2016, ela passou a trabalhar exclusivamente para a DC e foi a primeira ilustradorA a desenhar capas e quadrinhos do Batman em mais de duas edições consecutivas, além de ter trabalhado também nas HQs do Super-Homem, Supergirl e da Mulher-Gato. Ela é uma das maiores quadrinistas do mundo e já afirmou o compromisso de retratar bem a cultura brasileira por meio da heroína. Porém, como boa norte-americana, seu olhar um tanto homogeneizador para o Brasil já causou alguns problemas logo na primeira edição.

Para contextualizar, Yara começa em uma batalha de vida ou morte contra uma hidra selvagem no meio da floresta, já como Mulher-Maravilha. Seu objetivo é arrancar o chifre da criatura para levar ao submundo como moeda de troca para resgatar uma irmã das mãos de Hades. Porém, para impedir que o corpo do animal fosse maculado, a Caipora, espírito protetor da floresta, se oferece para ir com ela até o submundo e ajudá-la a trazer sua irmã de volta. Lá, a personalidade impulsiva de Yara acaba gerando alguns conflitos perigosos que podem atrapalhar a missão. Esse é o resumo da primeira edição.

Yara Flor na batalha contra a hidra selvagem

As questões envolvendo a nova Mulher-Maravilha são duas. A primeira é que a cultura nortista é muito diferente da do resto do Brasil, que por sua vez já é muito diversa entre si. Então se propor a representar bem a “cultura brasileira” é algo bastante complicado quando se tem uma única personagem. No caso de Yara Flor, Joelle acertou na ambientação da floresta amazônica e no visual da personagem que, vamos agradecer, não a sexualiza em nenhum momento. Mas errou feio ao colocar uma boleadeira no lugar do Laço da Verdade, visto que é uma arma de caça muito utilizada no sul do Brasil.

Incluir a Caipora, figura da cosmologia indígena que protege a floresta, também foi louvável, pois sua representação trouxe alguns elementos reconhecíveis, como andar montada em um porco-do-mato e a menção ao seu gosto pelo fumo.

Contudo, é preciso entender o grande problema que se cria quando utilizamos essas figuras como parte do “folclore brasileiro”. Essa expressão por si só já é problemática, visto que esses elementos são nada mais que crenças indígenas e, assim como em qualquer religião, merecem respeito e muito, muito cuidado na hora de retratá-los para um público de massa.

Representar a Caipora com uma aparência tão fofa não faz sentido para sua missão de proteger a floresta e afugentar caçadores e outras pessoas que exploram o meio ambiente de maneira indevida. Além do que, muito embora você tenha noção da força da personagem quando é citado que ela fez com que Yara se perdesse na floresta por quase dois meses, claramente ela não é páreo para a protagonista no combate. Com certeza a Caipora não seria tão fácil de se derrotar se fosse uma divindade grega, não é mesmo?

Yara Flor e Caipora

A segunda questão não é algo totalmente fechado ainda. Sabemos que a Mulher-Maravilha se baseia nas crenças da Grécia Antiga, que é altamente difundida pelo mundo ocidental, muito diferente das crenças amazônicas, conhecidas praticamente apenas por amazônidas e sendo tratadas como folclore pelo resto do país que nunca fez questão de enaltecer suas origens.

Entendo perfeitamente que é preciso trazer elementos reconhecíveis para públicos do mundo todo e sem se desvencilhar completamente da Mulher-Maravilha já estabelecida. Porém, a cultura nortista é riquíssima e essa seria uma oportunidade perfeita de explorá-la um pouco mais e de apresentá-la ao mundo sob uma linguagem entendível para muita gente.

Porém, o que se viu na HQ solo de Yara Flor foi apenas uma tentativa fraca de representatividade indígena e brasileira. Na segunda metade da história, já somos reinseridos na mitologia grega, com os personagens e tipos das lendas já conhecidas, em uma ambientação que foge completamente da primeira metade.

É como se os roteiristas quisessem retratar a cultura “brasileira” apenas o suficiente para levantar a bandeira da representatividade, como se isso fosse apenas um agrado e que nós, por termos a honra de sermos notados (contém ironia), devêssemos ficar contentes com muito pouco. Coisa que poderia ter sido evitada se, por exemplo, artistas indígenas estivessem envolvidos na produção.

Como foi dito antes, não podemos bater o martelo em relação a essa segunda questão, já que só tivemos uma edição da personagem e ainda tem muita história para rolar. Esperemos então que as representações dos elementos da cultura local sejam de fato respeitosas e feitas com o mesmo cuidado com que são representadas as culturas europeias e norte-americana. Contudo, se a escolha de Jones for por apenas inserir uma mulher indígena na mitologia grega, torço para que pelo menos seja por bons propósitos narrativos.

 
Esta coluna é escrita pelos integrantes do Anime Geek, evento multicultural pop e geek realizado em Belém desde 2012. Para mais informações, acesse também as nossas redes sociais:
 
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