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Há 24 anos, Sublime lançava um dos maiores discos póstumos da história

30 Jul 2020 - 16h36Atualizado 30 Jul 2020 - 16h36
Há 24 anos, Sublime lançava um dos maiores discos póstumos da história -

Discos póstumos costumam ser lançados meses ou anos após a morte dos artistas que nos deixaram, dependendo muitas vezes da pressa dos envolvidos em capitalizar com faixas inacabadas, demos, versões ao vivo e coisas do gênero, e é aí que mora o problema.

Por motivos óbvios, o que resta de artistas que morreram são versões de estúdio que foram rejeitadas, experiências muitas vezes nem aprovadas pelo próprio músico e/ou banda, gravações ao vivo raramente raras e material que está longe de ser o ápice do tema principal do álbum.

Esse está longe de ser o caso do Sublime.

Em 1996 a banda gravou seu terceiro álbum após o sucesso das estreias com 40 Oz. To Freedom e Robbin’ The Hood e a consolidação de uma sonoridade própria que misturava elementos do punk rock, ska e reggae com o vocal ímpar e espetacular de Bradley Nowell.

Em um período onde o ska vivia sua lua de mel com o mainstream, bem como as bandas que tinham o punk como origem (Green Day, The Offspring, Rancid), não demorou para que a major label MCA contratasse o Sublime e distribuísse seu segundo álbum, citado acima.

Mas eles queriam mais e esse material viria ao mundo na forma de Sublime, terceiro, homônimo e último disco de estúdio da banda que entrou para a história.

Acontece que a criação do álbum veio em um período onde o vocalista e guitarrista Brad Nowell estava passando por problemas sérios com drogas e os três meses em Austin para registrar todas as faixas do trabalho foram marcados por abusos, álcool e heroína.

O disco foi gravado entre fevereiro e maio de 1996 e estava sendo tratado pela gravadora como uma das grandes apostas para o verão do Hemisfério Norte, já que contava com uma sonoridade completamente ligada à estação e hits prontos como “Santeria”, “What I Got” e “Doin’ Time”.

Em maio mesmo, alguns dias após a finalização do álbum, Bradley foi encontrado morto em um hotel em San Francisco, no dia 25 daquele mês, quando o grupo estava se preparando para embarcar em uma turnê.

Ao seu lado estava o cão de estimação de Nowell, “Lou Dog”, que chorava por não ter resposta do dono (caído no chão com espuma na boca) e a certeza do baterista Bud Gaugh, que o encontrou, de que ele havia acabado de perder seu amigo e colega de banda por uma overdose de heroína.

Mesmo sem uma banda para fazer o tradicional circuito de divulgação do álbum com shows, apresentações na TV, rádio, clipes e tudo mais, a gravadora decidiu seguir em frente com o lançamento de Sublime, que veio ao mundo em 30 de Julho de 1996, há exatos 24 anos.

De acordo com o produtor Paul Leary, a banda chegava no estúdio às 9 da manhã com “margaritas em uma mão e o instrumento na outra”, e acabou gravando as 17 faixas que entraram no álbum, que tem quase uma hora de duração.

Mesmo nesse período caótico e entre tantos problemas, o resultado final é impecável: em um disco que beira os 60 minutos, é impressionante como todas as faixas são acima da média não apenas para o que era feito na época, mas também para os padrões de hoje.

A sensibilidade lírica e vocal de Bradley Nowell aliada aos competentes baixos e batidas de bateria do grupo para alternar entre o punk e o reggae com naturalidade formaram uma base sólida para um álbum que entrou para a história tanto pelos hits quanto pelas canções que não foram lançadas como single.

Se “Santeria” explodiu e se tornou um grande hit, músicas como “Pawn Shop”, “Burritos”, “Under My Voodoo” e “Caress Me Down” são clássicos instantâneos sem terem ido para as rádios; mesmo caso acontece com as pedradas punks inseridas cirurgicamente no álbum como “Paddle Out” e “Same In The End”, uma síntese quase perfeita do que era a sonoridade do Sublime.

Em tempos onde mortes geram aumentos de 500, 600, 1000% e mais nas vendas digitais e streamings de artistas, é notável lembrar que Sublime vendeu mais de 5 milhões de cópias impulsionado antes pela arte e pelas canções que começaram a se difundir entre skatistas, surfistas e eventualmente o grande público, e depois pelo fato em si.

Para divulgar o trabalho, a gravadora investiu em ferramentas tradicionais como pôsteres, pré-lançamentos em lojas de discos independentes e trabalho forte com a comovida base de fãs da banda.

Na hora de mostrar os sons, as rádios californianas foram fundamentais para dar o pontapé inicial e clipes foram gravados com os integrantes remanescentes ao lado de imagens de arquivo de Nowell.

Em “Santeria”, inclusive, ele chega a aparecer como um fantasma tocando ao lado dos seus companheiros; já no clipe oficial de “Doin’ Time”, a praia que era o habitat natural do músico é mesclada com cenas do cara em ação nos palcos.

Não apenas entrou para listas de melhores álbuns dos anos 90 em veículos como a Rolling Stone, Sublime também tornou-se fundamental para entender a música da década.

Em já longínquos anos onde o rock and roll predominava (acredite, isso existiu, caro leitor) as grandes gravadoras estavam famintas por novos nomes que poderiam ser comercializados para o grande público.

Com o sucesso de nomes como Nirvana, No Doubt, Green Day, The Offspring, Rancid e tantos outros que vinham do underground, a caça a bandas que estavam ficando quentes nas cenas era selvagem.

Isso permitiu que nomes inovadores e que realmente estavam chamando a atenção por suas músicas e fazendo conexões no “boca a boca” (a Internet era um sonho, basicamente) fossem catapultados aos grandes centros.

Muita coisa ruim foi comercializada, é lógico, mas fomos brindados com uma sequência espetacular de lançamentos que moldaram o rock alternativo na década mais prolífica para o gênero.

O Sublime foi um dos grandes exemplos disso. A mistura de coragem e vontade de vender de uma grande gravadora fez com que o mundo conhecesse o trabalho do saudoso Bradley Nowell, que amava tanto o Descendents quanto Bob Marley, e soube mesclar como ninguém na história dois gêneros tão aparentemente distintos, influenciando grupos até hoje.

Lançado dois meses após a morte do seu criador, Sublime é um daqueles discos para ouvir do começo ao fim com sorriso no rosto. É um verdadeiro abraço na alma e um lembrete de que “a vida é muito curta, então ame quem você tem”, como diz a letra de “What I Got”.

Bradley Nowell nos deixou há 24 anos aos 28 anos de idade e como ele faz falta. Como o Sublime (com Nowell) faz falta.

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