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VIOLÊNCIA

Uma favela do Rio apavorada após a morte de seis pessoas por tiros certeiros que vêm do céu

Relatos coincidem que disparos partem desde 2018 de uma torre policial a 250 metros da comunidade Manguinhos

13 Fev 2019 - 20h03Atualizado 13 Fev 2019 - 20h05
Uma favela do Rio apavorada após a morte de seis pessoas por tiros certeiros que vêm do céu -

Já havia passado das cinco horas da tarde do dia 29 de janeiro quando C. deixou sua casa, na favela de Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro, para comprar água de coco para seu filho recém nascido. As ruas estavam cheias e não havia sinal de tiroteio. Enquanto esperava pela bebida, o ajudante de pedreiro de 22 anos se encostou num poste e começou a conversar com um amigo. Quando se virava para pegar a água, recebeu um tiro próximo à sua costela direita. Por sorte, a bala entrou pelas costas e saiu pela barriga, sem afetar nenhum órgão vital. É o único sobrevivente de disparos que vêm sendo feitos desde 2018 por snipers de uma torre da Cidade da Polícia, unidade administrativa da Polícia Civil, localizada a cerca de 250 metros do largo em que estava quando foi alvejado, segundo um relatório da Defensoria Pública do Rio que apresenta as denúncias feitas por moradores. Os tiros vindos da torre já acabaram com a vida de seis pessoas que moram em Manguinhos, afirma o documento obtido pelo jornal El País.

O depoimento do ajudante de pedreiro, também presente no relatório, foi publicado pelo jornal Extra, que também informou sobre a execução de Rômulo Oliveira da Silva, um porteiro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) atingido no peito horas depois, naquele mesmo dia 29. O rapaz de 37 anos transitava de moto pelo mesmo local quando foi baleado. Dias antes, em 25 de janeiro, Carlos Eduardo dos Santos Lontra, de 27 anos, estava na mesma localidade quando levou um tiro nas costas, na altura da lombar, e morreu. Com base no depoimento do único sobrevivente e de familiares das outras vítimas, o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), do Ministério Público do Rio, abriu um procedimento investigativo. No dia 4 de fevereiro, defensores públicos do Núcleo de Direitos Humanos acompanhados por membros de outras entidades estiveram em Manguinhos para colher mais informações. Os moradores denunciaram então outras quatro mortes ocorridas no ano passado, mas as vítimas não foram identificadas. Também não está claro se ocorreram durante a intervenção federal, decretada no dia 16 de fevereiro do ano passado e em vigor até o dia 31 de dezembro.

Ao longo da última campanha eleitoral —e também depois—, o Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), prometeu reiteradas vezes que policiais fariam um curso de sniper e atirariam em bandidos armados, inclusive a longa distância e, se preciso, de helicópteros. Mas, a julgar pelos depoimentos dos moradores de Manguinhos, essa doutrina de Witzel não é novidade e já estava em vigor bem antes de sua posse —e não vitima apenas traficantes portando fuzis. "Acho difícil fazer essa vinculação imediata [com o Governo Witzel] porque, aparentemente, já houve pelo menos outros quatro casos de pessoas mortas naquele mesmo perímetro em 2018. Mas as sinalizações dos Governos estadual e federal tornam o ambiente mais permissivo. Ampliam a possibilidade de uma atuação ilegítima e excessiva da polícia e abrem caminho para a impunidade", opina a advogada Maria Laura Canineu, diretora da ONG Human Rights Watch no Brasil.

Canineu era uma das presentes na comitiva da Defensoria Pública que visitou Manguinhos no último dia 4. Ela relata um ambiente de "medo muito forte" e conta ter visto marcas de bala e manchas de sangue no largo, ponto de venda de bebidas e lanches, onde as seis pessoas morreram e outra ficou ferida. De lá é possível ver a torre branca da Cidade da Polícia. "É preciso uma perícia, mas todos os depoimentos coincidem. A comunidade fala em snipers porque são tiros certeiros, então tem a convicção de que vem da torre da polícia com orientação certa. É muito grave que o Ministério Público não tenha nem conhecimento das mortes ocorridas no ano passado", argumenta. No último dia 30, moradores convocaram um ato em protesto pelas execuções em frente a Cidade da Polícia, segundo o relatório da Defensoria.

O jornal Extra informou na terça-feira que uma perícia da Divisão de Homicídios e do Ministério Público identificou buracos abertos na parede da torre da Cidade da Polícia capazes de sustentar os canos de armas. As seteiras, como são chamados, estão virados para a favela de Manguinhos e os peritos concluíram que é possível fazer um tiro de precisão de lá. O EL PAÍS questionou a Polícia Civil sobre essa perícia e outros detalhes sobre os sete casos de disparos contra moradores da comunidade. Em nota, o órgão reconheceu apenas duas mortes e afirmou: "A Delegacia de Homicídios da Capital realizará perícia de local em Manguinhos, na tarde de segunda-feira (18/02), com acompanhamento do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. O objetivo é dar continuidade às perícias técnicas referentes ao inquérito que investiga as mortes de Rômulo Oliveira da Silva e Carlos Eduardo dos Santos Lontra, ocorridas em janeiro. A Defensoria Pública foi convidada a acompanhar os trabalhos".

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