Publicado em 21 de agosto de 2026 às 22:03
Estão na comida, na água, nos produtos de limpeza, nos cosméticos, nos remédios e até no estilo de vida moderno, marcado pelo estresse e por noites mal dormidas. Micro e nanoplásticos, PFAS (Substâncias per e polifluoroalquílicas), também chamados de "químicos eternos", aditivos de alimentos ultraprocessados, resíduos de medicamentos e pesticidas: os contaminantes ambientais emergentes já ocupam lugar central no debate sobre saúde intestinal.>
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os alimentos ultraprocessados já representam 18,4% das calorias adquiridas pelos brasileiros para consumo em casa. Entre os adolescentes, a participação é ainda maior, chegando a 26,7% das calorias consumidas.>
Os dados reforçam o que a rotina clínica já vinha sinalizando: o consumo frequente de ultraprocessados deixou de ser exceção e se tornou um hábito consolidado em grande parte do país. Esse cenário, segundo a professora e gastroenterologista da pós-graduação da Afya Educação Médica Belém, Fabrícia Maciel, ajuda a explicar por que o intestino se tornou peça central no debate sobre os efeitos das exposições químicas do dia a dia.>
A mudança mais importante, segundo a médica, foi compreender que a saúde não é afetada apenas por um agente isolado. O que conta é a soma das exposições ao longo da vida. Esse conjunto tem nome: expossoma. Ele reúne tudo aquilo que pode interferir no organismo, da gestação à velhice, como alimentação, poluição, medicamentos, plásticos, produtos químicos, estresse e privação de sono. "O risco não depende apenas de um agente isolado, e sim da soma das exposições ao longo da vida e da suscetibilidade de cada indivíduo", explica a médica.>
O intestino está no centro dessa discussão porque funciona como uma das principais portas de entrada entre o corpo e o ambiente. É ali que essas exposições podem influenciar a microbiota, a barreira intestinal, o sistema imunológico e o metabolismo.>
Estudos experimentais mostram que alguns contaminantes reduzem a diversidade da microbiota, favorecem microrganismos associados a processos inflamatórios e aumentam a permeabilidade da barreira intestinal. Quando essa barreira fica fragilizada, substâncias produzidas por bactérias podem alcançar a circulação e contribuir para inflamações e alterações metabólicas.>
Isso não significa, porém, que todo desconforto abdominal tenha relação com os "novos tóxicos". Ainda não existe exame capaz de apontar, de forma isolada, que uma pessoa está doente em decorrência de determinado contaminante ambiental.>
Sintomas como inchaço, alterações no funcionamento do intestino, náusea, refluxo, cansaço e dor abdominal aparecem em diversas condições, como intolerâncias alimentares, síndrome do intestino irritável, doença celíaca, alterações da tireoide, efeitos de medicamentos e doenças inflamatórias intestinais. "O mais perigoso seria atribuir sintomas inespecíficos a uma suposta intoxicação e deixar de diagnosticar doenças conhecidas e tratáveis", afirma a gastroenterologista.>
Na consulta, o que ajuda a levantar suspeitas é o contexto: mudanças recentes na alimentação, no trabalho ou na residência; qualidade da água; uso de medicamentos; consumo frequente de ultraprocessados, hoje presente, segundo as últimas informações do Ministério da Saúde, em mais de um a cada quatro adultos em boa parte das capitais brasileiras, hábito de aquecer alimentos em recipientes plásticos; contato ocupacional com produtos químicos; exposição a agrotóxicos; tabagismo; e até sintomas semelhantes entre pessoas do mesmo ambiente.>
A relação entre esses contaminantes e o aumento de doenças como a Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD) também exige cautela. Para a professora da Afya Belém, essas condições são multifatoriais: genética, alimentação, obesidade, sedentarismo, fatores ambientais, alterações da microbiota e exposições precoces fazem parte do mesmo quadro. "Os contaminantes emergentes provavelmente fazem parte desse quebra-cabeça, mas não são a única peça", observa.>
O que fazer para proteger a saúde intestinal?>
Na prática, a orientação médica se baseia em três pilares: alimentação composta por alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais, ovos, carnes e peixes, que reduzem a exposição a aditivos e oferecem fibras capazes de favorecer a microbiota; redução do consumo de ultraprocessados, que concentram maior quantidade de aditivos e, quando consumidos com frequência, estão associados a piores desfechos metabólicos e inflamatórios em homens e mulheres no Brasil; e adoção de um estilo de vida saudável.>
A prática regular de atividade física, o sono adequado e o controle do estresse têm impacto direto na saúde intestinal, preservando a barreira intestinal, mantendo o equilíbrio da microbiota e reduzindo a vulnerabilidade do organismo. "Não se trata de buscar perfeição, mas de fazer boas escolhas na maior parte do tempo", explica.>
Para o futuro, a médica espera que a gastroenterologia conte com biomarcadores capazes de integrar exposição ambiental, efeito biológico e risco clínico, além de testes funcionais da barreira intestinal e ferramentas de metabolômica com interpretação padronizada. Até lá, a principal ferramenta continua sendo simples: "A prevenção continua sendo a ferramenta mais poderosa que temos para proteger o intestino e promover saúde ao longo da vida", enfatiza a gastroenterologista.>