Publicado em 27 de setembro de 2026 às 10:58
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana), uma condição rara que pode provocar perda súbita e permanente da visão. Os casos envolvem pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, indicados principalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.>
Entre os medicamentos citados estão Ozempic, Wegovy, Wegovy FlexTouch, Rybelsus e Mounjaro. Do total de notificações, 12 estão relacionadas à semaglutida e uma à tirzepatida.>
A Noiana ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do nervo óptico é reduzido. Com menos oxigênio, as células nervosas podem ser danificadas, provocando uma alteração repentina na visão, geralmente em apenas um dos olhos. Em alguns casos, a perda visual pode ser permanente.>
Apesar dos registros, a Anvisa ressalta que a presença do medicamento e da doença na mesma notificação não comprova que um tenha causado o outro. Os casos são considerados suspeitos e passam por análise de farmacovigilância.>
O que os estudos apontam>
A possibilidade de uma relação entre a semaglutida e a Noiana passou a ser investigada com mais atenção após estudos observacionais identificarem um possível aumento do risco.>
Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Ophthalmology encontrou uma associação entre o uso de semaglutida e a ocorrência da doença. Os pesquisadores, porém, destacaram que os resultados não eram suficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito.>
Estudos posteriores chegaram a resultados diferentes. Uma pesquisa publicada em 2026 com veteranos norte-americanos diagnosticados com diabetes tipo 2 apontou um risco aproximadamente duas vezes maior de Noiana entre novos usuários de semaglutida, quando comparados a pessoas que iniciaram medicamentos da classe dos inibidores de SGLT2. Mesmo nesse estudo, o risco absoluto permaneceu baixo.>
Outras análises não identificaram aumento significativo do risco. Por isso, ainda não existe consenso científico de que a semaglutida seja responsável pela ocorrência da doença.>
Um dos fatores que dificultam essa avaliação é que muitos usuários desses medicamentos já apresentam condições que podem aumentar o risco de problemas nos vasos sanguíneos e nos olhos, como diabetes e hipertensão.>
Doença já consta nas bulas>
Desde junho de 2025, a Noiana aparece como uma reação adversa muito rara nas bulas dos medicamentos à base de semaglutida no Brasil, após uma avaliação de segurança realizada pelas autoridades regulatórias europeias.>
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) também classificou a condição como um efeito colateral muito raro. A estimativa é de até um caso para cada 10 mil pessoas tratadas.>
A orientação é que pacientes que apresentem perda repentina ou piora rápida da visão procurem atendimento médico imediatamente. Quando a Noiana é confirmada, a recomendação é interromper o tratamento com semaglutida.>
Outros problemas de visão também foram registrados>
Além dos casos de Noiana, o sistema de farmacovigilância da Anvisa reúne notificações de outras alterações visuais em pessoas que utilizavam esses medicamentos.>
Entre os relatos estão visão turva, redução da acuidade visual, perda da visão central e alterações no campo visual. Esses registros, porém, não significam necessariamente que os sintomas tenham sido provocados pelos medicamentos, já que podem ter diferentes causas.>
Doenças preexistentes também entram na avaliação. O diabetes, por exemplo, pode comprometer os vasos sanguíneos e aumentar a possibilidade de complicações oculares.>
Quando procurar ajuda médica>
Quem utiliza medicamentos com semaglutida deve procurar atendimento médico diante de perda súbita da visão ou de uma piora rápida da capacidade de enxergar.>
A ocorrência desses sintomas não significa que o paciente deve suspender o medicamento por conta própria. A decisão deve ser tomada com orientação médica. Em casos de Noiana confirmada, porém, as autoridades regulatórias recomendam a interrupção da semaglutida.>
A Anvisa continua acompanhando as notificações para avaliar a segurança dos medicamentos. Até o momento, os registros existentes não são suficientes para afirmar que as canetas emagrecedoras causam a doença.>