Publicado em 14 de setembro de 2026 às 16:58
Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (14) aponta um cenário preocupante: as condições e as características do trabalho jornalístico, aliadas ao constante assédio e ao baixo apoio social, expõem os profissionais de imprensa do Brasil a uma série de potenciais problemas de saúde mental.>
Produzido pela Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro) com o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o estudo Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil aponta a urgência de empregadores, entidades de classe e formuladores de políticas públicas reconhecerem a gravidade da situação e atuarem para promover um ambiente de trabalho mais seguro, justo e saudável para os profissionais da categoria.>
Quase metade (48%) dos 257 jornalistas brasileiros recrutados via amostragem para responder a um questionário online afirmaram sofrer com sintomas de insônia.>
O percentual é superior à média nacional registrada no relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel Brasil) 2006-2024, do Ministério da Saúde, que registra média entre 28,7% (em Natal) e 38% (em Maceió).>
Trinta e seis por cento dos entrevistados também relataram episódios típicos de um quadro de ansiedade, enquanto metade dos entrevistados (50%) disse enfrentar quadro de depressão. Desses últimos, 9% elencaram sintomas de depressão severa e 16%, extremamente severa.>
Além disso, 21,5% dos que responderam ao questionário revelaram consumir bebidas alcoólicas em consonância com padrões de frequência e de quantidade que sugerem o uso de risco (18,7%) ou nocivo (1,6%). Além disso, as respostas de 1,2% dos entrevistados indicam uma provável dependência.>
Analisando outros estudos, Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze, as responsáveis pela pesquisa apresentada durante reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional, destacam que o dinamismo e, consequentemente, o estresse, são características intrínsecas ao jornalismo que expõem os profissionais a riscos psicossociais.>
Assédio>
Não bastasse isso, os trabalhadores são alvo constante de diferentes formas de assédio, principalmente moral.>
Ao menos 26% dos profissionais de imprensa reportaram já ter sido alvo de assédio moral no ambiente de trabalho – percentual que pode atingir 37% quando aplicados outros critérios de pesquisa.>
“A prevalência de assédio moral no trabalho, variando de 26% a 37%, e de cyberbullying (30%), representam um dos achados mais críticos deste estudo”, sustentam as autoras do relatório da pesquisa.>
“Esses percentuais elevados indicam que uma parcela substancial dos jornalistas brasileiros está exposta a formas de violência psicossocial, tanto no ambiente físico quanto no digital.”>
Um agravante à situação é que 61% dos entrevistados afirmam receber baixo apoio social – definido como os níveis de interação social no trabalho, tanto com colegas quanto com superiores.>
Segundo Bruna e Elaine, junto com o baixo controle sobre as atividades que os jornalistas têm que executar sob pressão, essa situação pode gerar consequências negativas à saúde ou agravá-las. O que, talvez, ajude a explicar o fato do quesito avaliação da satisfação no trabalho ter ficado levemente abaixo da média.>
Para as pesquisadoras, as consequências das condições de trabalho dos profissionais de imprensa geram reflexos que afetam além da própria categoria, uma vez que esta é considerada essencial para o adequado funcionamento das instituições democráticas. Opinião compartilhada com a presidenta da Fenaj, Samira de Castro Cunha.>
“Os dados evidenciam um cenário preocupante, marcado por altas taxas de estresse, ansiedade, depressão, insônia, assédio moral e violência digital. Além disso, revelam um ambiente de trabalho caracterizado por altas demandas, baixo controle sobre as atividades e insuficiente apoio social", diz Samira.>
"Esses elementos não apenas afetam a saúde dos profissionais, mas também impactam a qualidade da informação produzida [pelos jornalistas] e, consequentemente, o próprio direito da sociedade à informação”, concluiu.>
Fonte: Agência Brasil >