Brasil registra queda de assassinatos, mas 'apagão' de dados e medo acendem alerta

Nova edição do Atlas da Violência revela o menor índice de homicídios em 26 anos.

Publicado em 26 de maio de 2026 às 10:49

Brasil registra queda de assassinatos, mas 'apagão' de dados e medo acendem alerta
Brasil registra queda de assassinatos, mas 'apagão' de dados e medo acendem alerta Crédito: PAULO PINTO/AGÊNCIA BRASIL

O Brasil alcançou uma marca histórica na segurança pública, mas o brinde vem acompanhado de uma dose amarga de ceticismo. Em 2024, o país registrou a menor taxa de homicídios desde o final da década de 90, consolidando uma tendência de queda que já dura dez anos. O diagnóstico faz parte do Atlas da Violência, estudo divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). No entanto, o que parecia uma vitória absoluta ganhou tons cinzentos: o avanço desenfreado de mortes sem causa explicada e o medo constante que ronda as ruas mostram que o país vive um cenário de forte transição, e de muita desigualdade.

No ano retrasado, o Brasil contabilizou 42.590 assassinatos, o que representa um recuo de 6,9% em números absolutos na comparação com 2023. Quando olhamos para a proporção por habitante, a taxa ficou em 20,1 mortes para cada 100 mil pessoas um tombo de 7,4%. Para se ter uma ideia da importância do dado, o patamar atual não é apenas o mais baixo desde que o Atlas começou a ser rodado, em 2014, mas também o menor registrado no país desde 1998. Na análise de longo prazo (2014-2024), a redução acumulada de homicídios passa de 33%.

Apesar dos ventos favoráveis na média nacional, a sensação de segurança não acompanhou os gráficos. O motivo principal atende pelo nome técnico de "subnotificação". Coordenador do estudo, Daniel Cerqueira explicou que uma piora surpreendente na qualidade dos dados oficiais acabou jogando uma sombra sobre os resultados comemorados.

O grande problema está nas chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) aqueles casos em que o Estado simplesmente não consegue dizer se a pessoa foi vítima de um acidente, tirou a própria vida ou foi assassinada. Só em 2024, mais de 17 mil pessoas morreram dessa forma misteriosa. Para corrigir essa distorção, os pesquisadores criaram uma tecnologia que cruza perfis e cenários para descobrir a real provável causa desses óbitos. O resultado assusta: quase metade (41%) dessas mortes indefinidas eram, na verdade, assassinatos que nunca entraram no balanço oficial das polícias, os chamados "homicídios ocultos".

De um ano para o outro, esse "apagão" de dados explodiu, saltando de 3,7 mil casos ocultos para mais de 7 mil, uma alta assustadora de 88,6%. Esse desencontro de informações, provocado principalmente pela falta de diálogo entre os sistemas de saúde e de segurança pública, faz com que uma fatia considerável da violência urbana fique invisível, dificultando o planejamento de combates ao crime organizado.

A calmaria nos índices também não foi dividida de forma igualitária no mapa. Enquanto estados como Rio de Janeiro e Bahia conseguiram reduzir significativamente o número absoluto de mortes, o Maranhão e o Ceará caminharam na contramão, registrando altas expressivas de violência. No topo da lista da tranquilidade, São Paulo registrou a menor taxa oficial do país (6,6 por 100 mil habitantes), seguido por Santa Catarina (8,1) e Distrito Federal (10,3). No extremo oposto, as maiores taxas oficiais de assassinatos foram identificadas no Amapá (45,7), na Bahia (40,9) e em Pernambuco (37,3).

Quando os pesquisadores aplicam a correção matemática e somam os homicídios ocultos à conta (gerando a chamada "taxa estimada"), o Amapá se consolida como o ponto mais crítico do país, com 47,1 mortes por 100 mil habitantes, além de carregar o pior desempenho na última década. Na outra ponta, Santa Catarina desponta como o estado mais seguro do território nacional, registrando uma taxa estimada de apenas 8,8.

O levantamento aponta que o abismo socioeconômico, o desenvolvimento das instituições locais, as mudanças demográficas e, principalmente, as rotas e a forte presença de facções criminosas ditam o ritmo da violência nas diferentes regiões. Prova disso é que, entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, 17 das 20 mais violentas do Brasil estão no Nordeste. Já o Sudeste e o Sul concentram a totalidade dos 20 municípios mais pacíficos.

O retrato do Brasil que emerge do novo Atlas é o de um país que aprendeu a salvar vidas em larga escala nos últimos dez anos, mas que ainda tropeça na própria burocracia para enxergar a realidade de suas periferias e minorias, mantendo a população desconfiada e em alerta constante ao andar pelas ruas.

Com informações da Agência Brasil.