Cinema brasileiro se despede de Luiz Carlos Barreto

Cineasta foi velado hoje no Palácio da Cidade, no Rio

Publicado em 23 de julho de 2026 às 18:49

(Imagens do velório do cineasta Luiz Carlos Barreto) 
(Imagens do velório do cineasta Luiz Carlos Barreto)  Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O cinema brasileiro se reuniu nesta quinta-feira (23) para a despedida do produtor, fotógrafo e cineasta Luiz Carlos Barreto, o Barretão. Nascido em Sobral, no Ceará, e radicado no Rio de Janeiro, Barreto construiu uma das trajetórias mais importantes da história do audiovisual brasileiro.

Foi por meio do olhar apurado de fotógrafo que passou a pensar o Brasil, retratando o povo brasileiro, suas contradições e sua cultura em filmes que marcaram gerações e levaram o país aos principais festivais internacionais, como Cannes, além de indicações ao Oscar.

O Palácio da Cidade, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, recebeu familiares, cineastas, artistas e representantes da cultura brasileira para o velório do produtor, que morreu na quarta-feira (22), aos 98 anos.

Considerado um dos maiores nomes da história do cinema nacional, Barreto foi lembrado por amigos e parceiros como um dos responsáveis pela consolidação da indústria cinematográfica brasileira e por transformar o cinema em um instrumento para pensar o país.

Fez da própria família um dos pilares de sua trajetória e ampliou esse conceito para toda uma geração de artistas que encontraram nele um parceiro, um mestre e um amigo. Sua obra seguirá inspirando novas gerações de realizadores e mantendo viva a convicção de que contar histórias brasileiras é também uma forma de compreender o país.

Em entrevista durante a cerimônia, Bruno Barreto relembrou a capacidade do pai de surpreender até mesmo depois da morte. Ele contou que descobriu recentemente uma curiosidade envolvendo a conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil, em 1958.

"Hoje de manhã acordei e li que o hábito de o capitão campeão da seleção brasileira levantar a taça começou por causa do meu pai. Ele era fotógrafo da revista O Cruzeiro e, como estava atrás de muitos fotógrafos, pediu ao Bellini para levantar mais a taça. A partir daí, todos os capitães passaram a repetir esse gesto", contou.

O diretor também recordou a infância cercada pelo cinema dentro de casa. Lembrou que ele e os irmãos cresceram convivendo com a cachorra Baleia, que participou de Vidas Secas, e com a primeira moviola horizontal Steenbeck instalada no Brasil, onde cineastas como Ruy Guerra e Arnaldo Jabor montaram seus filmes.

"Uma das minhas lembranças de infância é ver a tenda do circo subindo e descendo na moviola, indo para frente e para trás, na casa dos meus pais", disse.

A presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Antonia Pellegrino, afirmou que a despedida representa também uma celebração da vida de um brasileiro comprometido com a cultura e com o país.

"Luiz Carlos foi maior do que o cinema. Foi um grande pensador e articulador de um projeto de Brasil atravessado pela cultura. Era uma pessoa que nunca se desconectou da ideia de construir uma sociedade melhor", afirmou.

Ela lembrou que, aos 95 anos, Barretão a convidou para discutir comunicação pública quando assumiu a Diretoria de Conteúdo e Programação da EBC.

"Era alguém que acompanhava de perto o que estava sendo feito e permanecia interessado em pensar o país. É um brasileiro que precisa estar na prateleira de cima da nossa história", completou Antonia.

O diretor do Canal Brasil, André Saddy, e o produtor Marco Altberg, lembraram que Luiz Carlos Barreto sempre colocou o fortalecimento do cinema brasileiro acima dos projetos pessoais.

Os dois destacaram que um dos sonhos do produtor se concretizou com a criação do Canal Brasil, dedicado exclusivamente ao audiovisual nacional.

"O Canal Brasil nasce de um sonho do Barreto. Imaginar um canal voltado apenas para o cinema brasileiro era algo enorme para a época. Sem esse sonho, dificilmente o canal existiria", lembrou Saddy.

Para Altberg, Barretão foi um dos principais responsáveis pela consolidação do cinema brasileiro contemporâneo e deixou como legado a defesa permanente da produção nacional.

"Ele sempre sonhou grande. Era um líder, um grande amigo e nunca deixou de pensar no futuro do cinema brasileiro", disse.

A cineasta Anne Pinheiro Guimarães, que estreia nesta quinta-feira (23), em cinemas de todo o país, o longa Pequenas Criaturas, lembrou que iniciou sua trajetória profissional pelas mãos de Luiz Carlos Barreto e definiu o produtor como seu "pai no cinema".

"Foi ele quem me deu meu primeiro trabalho no cinema. Eu o considero meu pai no cinema. Era um apaixonado pelo cinema brasileiro e acreditava que o Brasil precisava ser visto nas telas. Esse é um bastão que precisamos continuar carregando", afirmou.

Agência Brasil