Publicado em 23 de outubro de 2026 às 11:27
Uma mulher de 41 anos começou a ter crises epilépticas em fevereiro de 2019. Os episódios, marcados por perda parcial ou total da consciência, olhar fixo e confusão após as crises, aconteciam exclusivamente durante a menstruação. O padrão chamou a atenção dos médicos e levantou uma hipótese rara: endometriose no cérebro.>
Uma ressonância magnética realizada em agosto daquele ano identificou uma lesão no hipocampo direito, região cerebral relacionada à memória e à atividade epiléptica. Inicialmente, os médicos consideraram possibilidades como tumor, infecção e má-formação cerebral. Mesmo após usar medicamentos antiepilépticos por cerca de um ano e meio, a paciente continuou apresentando crises.>
Em 2021, diante da relação entre os episódios e o ciclo menstrual, a equipe iniciou tratamento hormonal com dienogeste e desogestrel, medicamentos utilizados contra a endometriose. As convulsões desapareceram, e os antiepilépticos foram suspensos após três meses. Em março de 2026, uma nova ressonância mostrou que a lesão já não era visível.>
O caso foi descrito por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia, em artigo publicado em 11 de setembro no Journal of Clinical Medicine. Os autores classificaram a condição como possível endometriose cerebral, mas ressaltaram que o diagnóstico não foi confirmado por biópsia. A retirada de tecido do hipocampo foi considerada arriscada.>
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero cresce fora da cavidade uterina. Embora seja mais comum na região pélvica, a doença pode atingir locais incomuns. Os mecanismos que permitiriam a chegada desse tecido ao cérebro ainda não são conhecidos e incluem hipóteses como o transporte de células pelos vasos sanguíneos ou linfáticos.>
Segundo os pesquisadores, apenas oito casos de endometriose cerebral haviam sido publicados na literatura científica consultada, e nenhum apresentava uma lesão claramente localizada no hipocampo. A paciente também não relatava sintomas típicos da doença, como cólicas intensas, dor durante a relação sexual ou dor pélvica cíclica.>
A relação entre as crises e a menstruação é conhecida como epilepsia catamenial, condição em que as convulsões se concentram em determinados períodos do ciclo menstrual. Isso pode ocorrer sem endometriose: a queda da progesterona próximo à menstruação reduz um dos mecanismos naturais de controle da atividade dos neurônios, favorecendo as crises em algumas mulheres.>
Por isso, a melhora com hormônios não comprova, por si só, a presença da doença no cérebro. Os especialistas ouvidos pelos pesquisadores destacam que as alterações observadas nos exames também poderiam ter outras explicações, como efeitos das próprias crises, inflamação ou um tumor de crescimento lento.>
O tratamento hormonal foi interrompido em setembro de 2025, e as convulsões não voltaram até o último acompanhamento relatado. A ressonância de 2026, porém, não permite determinar se a lesão desapareceu completamente ou deixou uma cicatriz.>
O caso reforça a importância de investigar a relação entre crises neurológicas e ciclo menstrual, mas os autores ressaltam que a possível endometriose cerebral é extremamente rara. Sem a análise de uma amostra do tecido, a origem das convulsões da paciente permanece incerta.>
Com informações do G1>