Daniel Vorcaro compara setor bancário à máfia em mensagens íntimas obtidas pela PF

As mensagens fazem parte de um amplo material colhido pela PF e compartilhado com a CPMI após autorização do ministro André Mendonça do STF

Publicado em 5 de março de 2026 às 20:33

Daniel Vorcaro -
Daniel Vorcaro - Crédito: Divulgação

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, descreveu o mercado financeiro e atuação dos bancos como uma "máfia" em troca de mensagens com a namorada, a influenciadora Martha Graeff. A frase, extraída do celular do executivo pela Polícia Federal (PF) após quebra de sigilo telemático, foi encaminhada à CPMI do INSS (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apura fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social) e ganhou destaque na imprensa nesta quarta-feira (5).

Em conversa datada de 7 de abril de 2025, Vorcaro escreveu: "Esse negócio de banco sempre falei é igual máfia. Não dá para sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal."

A data coincide com o período de intensas negociações para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). O acordo, que previa a aquisição de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões, foi aprovado inicialmente pelo conselho do BRB em março de 2025, mas acabou vetado pelo Banco Central em setembro do mesmo ano. O BC justificou a decisão por riscos regulatórios, de governança e de sucessão, apontando preocupação com a possibilidade de o "banco ruim" (ativos ilíquidos e de alto risco do Master) contaminar o "banco bom" adquirido pelo BRB.

Nas mesmas mensagens, Vorcaro expressou frustração com supostas pressões externas contra a operação. Ele acusou o banqueiro André Esteves, sócio do BTG Pactual, de interferir junto ao BC para barrar a venda, inclusive plantando reportagens negativas na imprensa. "André baixou a guarda e ataques diminuíram bem. Criaram um problema que não existia", afirmou o executivo à namorada.

O contexto das conversas revela um momento de tensão para Vorcaro: o Banco Master enfrentava graves problemas de liquidez e suspeitas de irregularidades, culminando na liquidação extrajudicial decretada pelo BC em novembro de 2025. A instituição é alvo da Operação Compliance Zero da PF, que investiga fraudes bilionárias, como venda de títulos sem lastro, lavagem de dinheiro, manipulação de mercado e irregularidades em operações de crédito consignado do INSS, foco principal da CPMI.

Vorcaro também demonstrou proximidade com figuras políticas. Em outras mensagens analisadas pela comissão, ele celebrou uma emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) à PEC da autonomia do Banco Central. A proposta, apelidada informalmente de "emenda Master", visava elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, medida que beneficiaria bancos de médio porte como o Master. Vorcaro chamou Nogueira de "um dos meus grandes amigos de vida" e destacou a iniciativa como "uma bomba atômica" para o setor.

A assessoria do senador rebateu as insinuações, afirmando que Ciro mantém diálogos com centenas de pessoas diariamente e que "não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração". O texto da emenda não avançou no Congresso.

As mensagens fazem parte de um amplo material colhido pela PF e compartilhado com a CPMI após autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. Vorcaro, preso em fases anteriores da operação, responde a acusações graves, incluindo organização criminosa e corrupção de servidores do BC.

O caso expõe os bastidores conflituosos do sistema financeiro brasileiro, com disputas entre grandes players, articulações políticas e rigorosa fiscalização do regulador. A CPMI segue analisando os diálogos para verificar possíveis conexões entre as operações do Banco Master e fraudes em consignados de aposentados e pensionistas.