Em carta de renúncia, conselheiro da Vale cita eventos secretos para tomada de decisões na empresa

A carta foi apresentada dias após a empresa abrir contra ele uma investigação para apurar um suposto vazamento de informações.

Publicado em 29 de julho de 2026 às 15:52

Mineradora Vale sai na frente do governo já adota nova jornada de trabalho reduzida
Mineradora Vale sai na frente do governo já adota nova jornada de trabalho reduzida Crédito: Divulgação

Em carta de renúncia ao cargo de conselheiro da Vale, o advogado Marcelo Gasparino fez declarações alegando que a empresa se afasta de princípios de governança, transparência e independência.

Segundo informações da CNN, que obteve o documento, Gasparino menciona, por exemplo, a existência de fóruns paralelos de deliberação e eventos secretos.

“Minha decisão foi amadurecida ao longo dos últimos meses. Ela não decorre apenas dos fatos ocorridos na Reunião Extraordinária do Conselho de Administração de 22 de julho de 2026. Esses acontecimentos apenas tornaram inequívoca uma realidade que, em minha percepção, vinha se consolidando: o progressivo afastamento da Companhia de princípios de governança, transparência e independência que orientaram sua reconstrução institucional nos últimos anos”, afirma o texto.

De acordo com ele, “a decisão de renunciar, portanto, não representa um afastamento dos compromissos que sempre defendi”. “Ao contrário, decorre da necessidade de permanecer fiel aos princípios de governança, independência e responsabilidade que devem orientar a atuação de qualquer administrador de uma companhia aberta”, afirmou.

O advogado ainda afirma ter notado, nos últimos meses, afastamento desses princípios pela empresa e menciona fóruns paralelos de deliberação e eventos “secretos” para tomada de decisões e sugere também haver investigações internas seletivas.

A carta foi apresentada dias após a empresa abrir contra ele uma investigação para apurar um suposto vazamento de informações, no entanto no texto, ele nega que tenha atuado em vazamentos. Procurada, a Vale que disse não ter nenhuma manifestação além do fato relevante.

Veja a íntegra da carta:

CARTA AOS ACIONISTAS, AO MERCADO E À VALE

Florianópolis, 27 de junho de 2026

Dirijo-me aos acionistas, investidores, colaboradores e ao mercado em geral para comunicar as razões da minha decisão de renunciar aos cargos de Vice-Presidente e membro do Conselho de Administração da Vale S/A, com efeitos a partir de 1º de agosto de 2026.

Faço-o por entender que um conselheiro independente possui deveres que transcendem sua atuação no Conselho. Tais deveres são direcionados não somente a Empresa e seus acionistas, mas também ao mercado de capitais e aos stakeholders relevantes. Especialmente em uma companhia aberta da relevância e com um conturbado histórico recente como a Vale, que deveria manter compromisso permanente com a transparência e as melhores práticas de governança.

Esclareço, desde logo, que minha renúncia não decorre de qualquer acordo com algum acionista, não envolve vantagem financeira e tampouco resulta de compromisso assumido com terceiros.

Ela decorre de minhas convicções e da conclusão de que, nas circunstâncias atuais, minha permanência no Conselho não me permitiria continuar exercendo meu mandato com a independência, a coerência e a responsabilidade que sempre nortearam minha atuação.

Minha decisão foi amadurecida ao longo dos últimos meses. Ela não decorre apenas dos fatos ocorridos na Reunião Extraordinária do Conselho de Administração de 22 de julho de 2026.

Esses acontecimentos apenas tornaram inequívoca uma realidade que, em minha percepção, vinha se consolidando: o progressivo afastamento da Companhia de princípios de governança, transparência e independência que orientaram sua reconstrução institucional nos últimos anos.

Ao longo desse período, procurei contribuir, dentro das atribuições de um conselheiro independente, para o fortalecimento da Companhia e para a preservação de uma cultura institucional baseada no diálogo, no contraditório, na prestação de contas aos acionistas e na tomada de decisões orientadas pelo melhor interesse social.

Minha última tentativa de contribuir para a reversão desse movimento foi apresentar meu nome à Presidência do Conselho de Administração.

A decisão de renunciar, portanto, não representa um afastamento dos compromissos que sempre defendi. Ao contrário, decorre da necessidade de permanecer fiel aos princípios de governança, independência e responsabilidade que devem orientar a atuação de qualquer administrador de uma companhia aberta.

Na Reunião Extraordinária do Conselho de Administração de 22 de julho de 2026, convocada com pouco mais de 24 horas de antecedência, foi deliberada a aplicação da sanção de destituição do meu cargo de conselheiro, a ser submetida à Assembleia Geral, sob a alegação de que eu teria promovido o vazamento de informações confidenciais relativas à reunião do Conselho de Administração de 19 de junho de 2026.

Os fatos, contudo, são substancialmente diferentes da acusação.

Após a publicação do edital de convocação da Assembleia Geral Extraordinária de 22 de julho de 2026, encaminhei, em caráter reservado, por WhatsApp, minuta de manifestação e voto deminha exclusiva autoria a um analista de mercado (“sell-side”) de reconhecida instituição financeira do Brasil, com quem havia mantido conversa profissional naquela mesma semana.

O documento já havia sido formalmente encaminhado à Companhia e continha, essencialmente, minha avaliação pessoal sobre fatos e temas que, em seus aspectos centrais, já eram objeto de informações públicas e de amplo debate no mercado.

Essa circunstância foi posteriormente reforçada pela própria Empresa, que, em comunicado ao mercado divulgado em 24 de junho de 2026, afirmou que os principais temas tratados — entre eles as avaliações relativas à Bahia Mineração S.A., às negociações para renovação das concessões ferroviárias e ao Programa Mini-MInas — já haviam sido previamente esclarecidos ao mercado.

Há, ainda, um aspecto relevante para o entendimento correto da minha conduta.

Desde minha eleição para o Conselho de Administração, em 2019, testemunhei a prática reiterada da Companhia de disponibilizar, simultaneamente ao edital de convocação de suas Assembleias Gerais Ordinárias, Extraordinárias ou conjuntas, os documentos necessários à adequada compreensão das matérias submetidas aos acionistas: a Proposta da Administração, o extrato da ata da reunião do Conselho que deliberou pela convocação e seus respectivos anexos.

Nesse contexto, o que fiz foi encaminhar, de forma reservada, a um analista de mercado, parte do material que era de minha exclusiva autoria e que refletia minhas próprias opiniões e avaliações. Não houve divulgação de informação relevante não pública. E não houve intenção de obter qualquer vantagem, interferir na negociação de valores mobiliários ou expor manifestações confidenciais de outros administradores. Tampouco foi demonstrado qualquer prejuízo à Companhia ou aos seus acionistas em decorrência desse encaminhamento.

Registro também que fui procurado pelo escritório de advocacia externo responsável pela investigação em 14 de julho de 2026, às 20h57, por e-mail. Respondi às 21h14, solicitando que minha entrevista fosse realizada após a Assembleia Geral Extraordinária de 22 de julho, em razão do sensível contexto eleitoral então existente. Na ocasião, esclareci que me encontrava em viagens e em reuniões com acionistas, cuja agenda havia sido organizada pela própria Companhia.

Minha defesa jurídica será apresentada nas instâncias competentes.

Entretanto, considero importante registrar perante o mercado que o compartilhamento, em caráter reservado, de um documento de minha exclusiva autoria não poderia ser confundido com vazamento de informação confidencial da Companhia.

O voto individual de um conselheiro é produzido sob sua responsabilidade e deve, no momento adequado, integrar o conjunto de informações disponibilizadas aos acionistas, especialmente quando relacionado a matéria submetida à deliberação assemblear.

A Resolução CVM nº 81/2022 estabelece que todas as informações e documentos relevantes para o exercício do direito de voto devem ser disponibilizados até a publicação do primeiro anúncio de convocação da assembleia.

Se houve posterior circulação do documento para além do destinatário a quem o encaminhei, essa divulgação não foi realizada nem autorizada por mim. Esse, contudo, nunca foi o ponto central.

O episódio do “suposto vazamento” acabou assumindo uma dimensão incompatível com sua natureza, justamente porque ocorreu em um ambiente que, ao longo dos últimos meses, passou a tratar transparência como sinônimo de ameaça.

Mais do que discutir um documento de minha autoria, passou-se a discutir quem teria rompido uma expectativa de confidencialidade que, em determinados momentos, pareceu ultrapassar aquilo que legitimamente deve permanecer reservado em benefício da Companhia.

A confidencialidade é elemento indispensável ao adequado funcionamento de um Conselho de Administração. Ela permite o debate franco, a exposição de opiniões divergentes e a tomada de decisões responsáveis. Entretanto, esse dever não pode ser interpretado de forma a restringir o contraditório, o debate interno ou a adequada prestação de contas aos acionistas.

A boa governança corporativa exige equilíbrio. Preserva-se aquilo que deve permanecer protegido em prol da Companhia, mas também se assegura que os acionistas tenham acesso às informações necessárias para exercer plenamente seus direitos e avaliar as decisões tomadas pelos administradores.

A deliberação do Conselho de Administração foi tomada no próprio dia da Assembleia Geral, antes que eu pudesse prestar meus esclarecimentos, conhecer integralmente as conclusões da apuração ou me manifestar sobre elas. Em razão de estar em voo previamente agendado durante a referida reunião, não pude participar da deliberação.

Aproveito a oportunidade para requerer novamente a Administração o acesso imediato e integral ao relatório final do processo de investigação que fundamentou a deliberação tomada pelo Conselho de Administração na reunião de 22 de julho de 2026, documento essencial para que eu possa exercer plenamente meu direito de defesa nas instâncias competentes.

Há dois meses visitei o Tribunal de Nuremberg. Saí de lá convencido de que uma das maiores conquistas da civilização moderna foi compreender que ninguém deve ser julgado antes de ser ouvido.

Esse princípio transcende os tribunais. Ele inspira toda instituição que pretende decidir com justiça, preservar sua legitimidade e fortalecer a confiança daqueles a quem serve.

O respeito ao contraditório e ao devido processo não representa apenas uma garantia individual. Trata-se de elemento fundamental para a legitimidade das decisões institucionais, sobretudo em organizações que têm o dever de prestar contas aos seus acionistas e ao mercado.

Minha preocupação, portanto, não se limita ao episódio específico da infundada acusação a mim feita. Ela está relacionada ao ambiente institucional mais amplo em que decisões relevantes passaram a ser tomadas e avaliadas.

Ao longo dos últimos sete anos, dediquei grande parte da minha energia profissional ao fortalecimento da governança da Empresa.

Cheguei à Vale em 2019, logo após a tragédia de Brumadinho, a segunda que marcou sua história em um curto espaço de tempo. Desde então, participei ativamente de seu processo de reconstrução institucional, sempre acreditando que uma companhia dessa relevância somente poderia recuperar e fortalecer sua credibilidade por meio da independência do Conselho deAdministração, da transparência, da disciplina na alocação de capital e da observância rigorosa de seus mecanismos de governança.

Tenho orgulho da contribuição que pude oferecer nesse processo e sou profundamente grato aos colaboradores, administradores e membros do Conselho Fiscal com quem tive a oportunidade de trabalhar ao longo dessa trajetória.

Assim como ocorreu em outras companhias nas quais tive a honra de atuar como conselheiro de administração, acredito deixar como legado uma atuação pautada pela independência, diligência e pelo compromisso permanente com o fortalecimento institucional, sempre sujeita ao legítimo escrutínio dos investidores e dos demais stakeholders.

Entretanto, nos últimos meses, observei, com crescente preocupação, decisões e práticas que, em minha avaliação, representam um enfraquecimento de parte da governança corporativa construída ao longo dos últimos anos.

Refiro-me, entre outros aspectos, à condução de discussões relevantes fora dos fóruns formais de deliberação, à realização de articulações e eventos “secretos”, que posteriormente se tornaram públicos, e à crescente assimetria na forma como determinadas condutas passaram a ser avaliadas.

A governança corporativa somente preserva sua legitimidade quando seus princípios e regras são aplicados de maneira uniforme, independentemente das pessoas envolvidas ou das posições que ocupem na estrutura da Companhia.

Também acompanhei a instauração de investigações internas relacionadas a fatos e condutas atribuídas a administradores. Espero sinceramente que todas essas apurações prossigam com independência, profundidade, transparência e isonomia, sempre com o mesmo rigor e os mesmos critérios, qualquer que seja a identidade daqueles que estejam envolvidos.

A aplicação seletiva de regras compromete a confiança na própria governança que essas regras pretendem proteger.

Uma companhia aberta precisa ser capaz de conviver com opiniões divergentes, questionamentos e visões distintas sobre seu futuro. O contraditório não representa um obstáculo à boa administração; ao contrário, é uma das condições para decisões mais robustas e sustentáveis.

Minha renúncia tampouco decorre apenas do resultado da eleição para a Presidência do Conselho de Administração.

Recebi mais de 1 bilhão de votos de acionistas, correspondentes a mais de 35% dos votos válidos, e de mais de 50% dos votos excluindo-se os acionistas de referência (que indicaram o outro candidato). Uma manifestação expressiva de confiança que muito me honra e pela qual sou profundamente grato.

Esse resultado representa uma relevante demonstração de reconhecimento à minha trajetória, à minha visão sobre governança, independência e criação sustentável de valor.

Aos acionistas que depositaram essa confiança em mim, manifesto minha mais profunda gratidão. Lamento não poder corresponder à expectativa de continuidade do mandato, mas entendo que a coerência entre princípios e decisões é parte essencial da responsabilidade de um conselheiro independente.Continuo acreditando que o melhor interesse da Companhia coincide, no longo prazo, com o interesse não de um ou alguns acionistas em particular, mas daqueles que investem seu capital esperando retorno econômico dentro dos limites da lei, das melhores práticas de governança e dos mais elevados padrões éticos.

Parafraseando a feliz imagem lembrada pelo ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Carlos Ayres Britto, procuro seguir como uma garça, com a habilidade de caminhar sobre águas pantanosas sem jamais comprometer a alvura de suas penas.

Continuarei acompanhando a trajetória da Vale como alguém que genuinamente deseja que ela seja reconhecida não apenas pela qualidade excepcional de seus depósitos minerais, obra da natureza, mas também pela excelência de sua governança, pela qualidade de suas decisões e pela capacidade de criar valor de forma sustentável.

Espero que os investidores continuem acompanhando com atenção os próximos passos da Companhia, observando não apenas seus resultados financeiros de curto prazo, mas também a qualidade de sua governança, a disciplina na alocação de capital, a efetiva independência de seus órgãos de administração, a transparência de seus processos decisórios e a aderência às regras que a própria Companhia estabeleceu para si.

A confiança do mercado não é um ativo permanente. Ela precisa ser continuamente construída e renovada por meio de condutas compatíveis com os princípios que uma companhia aberta afirma defender.

Encerro esta etapa com respeito e gratidão a todos aqueles que fizeram parte dessa trajetória, aos colaboradores que constroem diariamente a Companhia, aos administradores com quem compartilhei responsabilidades e aos acionistas que confiaram em meu trabalho.

Tenho convicção de que investidores atentos, informados e atuantes continuarão desempenhando papel fundamental na proteção da Companhia, de seu patrimônio institucional e na criação sustentável de valor para todos os seus acionistas.

Minha esperança é que a Vale retome o caminho de fortalecimento de sua governança, e reafirme, por meio de suas práticas, o compromisso com transparência e a criação de valor de longo prazo.