Entenda como troca de bilhetes resultaram na prisão de Deolane Bezerra

Investigação iniciada em 2019 conectou bilhetes do PCC a uma transportadora fantasma e depósitos fracionados na conta da influenciadora; bloqueios de bens chegam a R$ 27 milhões.

Publicado em 21 de maio de 2026 às 13:46

Bilhetes e manuscritos interceptados pela polícia penal na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
Bilhetes e manuscritos interceptados pela polícia penal na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Crédito: Reprodução

A prisão da influenciadora Deolane Bezerra, ocorrida nesta quinta-feira (21) durante a Operação Vérnix, é o desfecho de uma investigação que começou há sete anos de forma inusitada. O ponto de partida foram bilhetes e manuscritos interceptados pela polícia penal na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.

Em julho de 2019, agentes localizaram documentos escondidos em celas e na caixa de esgoto do presídio. O material continha ordens internas da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) e planos de ataques contra servidores públicos. Entre as anotações, os investigadores encontraram menções a uma “mulher da transportadora”, o que deu origem a um inquérito para identificar a ligação entre uma empresa de cargas de fachada e a organização criminosa.

A análise do celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como o operador central do esquema, revelou que a transportadora era usada para lavagem de dinheiro. No aparelho, foram encontradas imagens de comprovantes de depósitos feitos para contas em nome de Deolane e de operadores financeiros da facção.

A investigação sustenta que a influenciadora recebia recursos ilícitos de forma camuflada. Entre 2018 e 2021, Deolane teria recebido R$ 1.067.505 em depósitos fracionados menores que R$ 10 mil. Essa técnica, conhecida no meio policial como “smurfing”, é utilizada propositalmente para evitar que as movimentações chamem a atenção dos órgãos de controle financeiro.

Além disso, empresas ligadas a Deolane receberam cerca de R$ 716 mil de uma companhia que se apresentava como banco de crédito, mas que tinha como responsável uma pessoa que recebe apenas um salário mínimo. A polícia afirma não ter identificado prestação de serviço jurídico ou comercial que justificasse tais valores, sugerindo que a imagem pública da advogada era usada como uma “camada de aparente legalidade” para ocultar o dinheiro do crime.

Ao todo, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 357,5 milhões do grupo investigado, sendo R$ 27 milhões especificamente em bens e valores de Deolane Bezerra. A operação também expediu mandados contra a cúpula da facção, incluindo o líder Marcola, e seus familiares, sob acusações de lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A defesa de Deolane Bezerra informou que ainda está se inteirando dos fatos do processo, enquanto a defesa de Marcola busca detalhes sobre a nova ordem de prisão preventiva contra ele.

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Adrielle Brito.