Especialistas defendem que Brasil aproveite parceria com a China para fortalecer soberania em inteligência artificial

Avaliação é de que participação na nova organização internacional pode ampliar a capacidade tecnológica do país, desde que haja investimentos em infraestrutura e pesquisa

Publicado em 1 de agosto de 2026 às 13:28

Especialistas defendem que Brasil aproveite parceria com a China para fortalecer soberania em inteligência artificial.
Especialistas defendem que Brasil aproveite parceria com a China para fortalecer soberania em inteligência artificial. Crédito: Divulgação

Especialistas em inteligência artificial avaliam que a participação do Brasil na Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), criada neste ano e liderada pela China, pode representar uma oportunidade para o país fortalecer sua soberania digital e ampliar o desenvolvimento de tecnologias próprias.

O Brasil está entre os 29 países que assinaram o documento de criação da organização, que terá sede em Xangai. A proposta da Waico é estimular a cooperação internacional no desenvolvimento de inteligência artificial, com foco em modelos de código aberto, permitindo que empresas, universidades e instituições possam utilizar e aprimorar essas tecnologias.

Para o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Sérgio Amadeu da Silveira, a parceria pode abrir caminhos para um desenvolvimento mais autônomo da inteligência artificial no Brasil. Segundo ele, o país reúne universidades e centros de pesquisa capazes de impulsionar esse avanço, mas precisa investir na própria infraestrutura tecnológica.

Na avaliação do pesquisador, o Brasil não pode depender exclusivamente de plataformas estrangeiras para armazenar e processar dados, sob o risco de limitar sua capacidade de inovação e absorção de conhecimento.

Outro especialista ouvido pela Agência Brasil, Ettore Arpini, fundador da organização Plures, afirmou que o Brasil tem potencial para ocupar uma posição estratégica na geopolítica da inteligência artificial por manter diálogo tanto com iniciativas lideradas pela China quanto com países ocidentais.

Segundo ele, a inteligência artificial deve ser tratada como uma política de Estado, capaz de influenciar diferentes setores da economia e impulsionar o desenvolvimento tecnológico do país.

Disputa global por inteligência artificial

A criação da Waico ocorre em um momento de disputa entre diferentes modelos de governança para a inteligência artificial. Enquanto a iniciativa liderada pela China aposta na cooperação internacional e em tecnologias abertas, os Estados Unidos têm adotado uma estratégia voltada ao fortalecimento de cadeias de suprimentos consideradas estratégicas, como semicondutores, minerais críticos e infraestrutura tecnológica.

O governo brasileiro tem defendido que o país mantenha diálogo com diferentes parceiros internacionais, sem depender exclusivamente de um único modelo de desenvolvimento tecnológico.

Em fóruns internacionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem afirmado que a inteligência artificial deve contar com uma governança internacional ampla e que a tecnologia não pode ficar concentrada nas mãos de poucos países ou grandes empresas.

A posição também foi defendida pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, durante o lançamento da Waico. Segundo ele, a inteligência artificial tem potencial para transformar diversos setores da sociedade, mas sua governança deve envolver a participação de todos os países.