Ex-funcionária de hortifruti em Itu é usada como ‘laranja’ em esquema bilionário do Banco Master

Com salário de R$ 1.988, Fábia França virou dona de empresas de fachada que movimentaram R$ 252 milhões pagos pelo banco de Daniel Vorcaro.

Publicado em 20 de junho de 2026 às 17:32

Ex-funcionária de hortifruti em Itu é usada como ‘laranja’ em esquema bilionário do Banco Master
Ex-funcionária de hortifruti em Itu é usada como ‘laranja’ em esquema bilionário do Banco Master Crédito: Reprodução

Uma investigação conjunta do Ministério Público Federal e da Polícia Federal revelou o elo mais surpreendente e vulnerável daquela que o Ministério da Fazenda já classifica como uma das maiores fraudes bancárias do país. No centro de uma complexa teia de lavagem de dinheiro, desvios de fundos de pensão municipais e ocultação de patrimônio envolvendo o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, aparece o nome de Fábia França, de 61 anos. Moradora de Itu, no interior de São Paulo, ela trabalhava no setor de hortifruti de um supermercado local com um salário de R$ 1.988 quando foi registrada como chefe de corporações que receberam R$ 252 milhões do banco e operaram transações de R$ 1,7 bilhão na praça financeira.

A ponta do novelo começou a ser desfeita a partir de relatórios de inteligência financeira e de dados obtidos pelo portal UOL na declaração de Imposto de Renda do próprio Banco Master. As autoridades constataram que Fábia foi nomeada diretora de cinco sociedades anônimas (Nanook, Telure, Utter, Bearer e Pardallis) e assumiu o comando de uma empresa de tecnologia financeira, a The Pay Soluções de Pagamentos. Questionada em sua casa sobre os negócios milionários, a trabalhadora, que se declarou "pobre" em uma ação trabalhista contra o antigo supermercado, demonstrou total desconhecimento e assombro, afirmando tratar-se de um "negócio de família" conduzido por seu sobrinho, Gustavo França. Gustavo é fundador da X3 Brazil, um escritório suspeito de abrir mais de 150 empresas de fachada em massa utilizando CPFs de parentes, incluindo uma firma aberta recentemente em nome da avó do rapaz, uma idosa de 85 anos.

A engrenagem criminosa funcionava de forma estratégica para pulverizar o rastro do dinheiro e enganar os sistemas de fiscalização e compliance do Banco Central. O esquema atraía bilhões de reais de Regimes Próprios de Previdência Social de diversos municípios, como Cajamar e São Roque, deixando um rastro de prejuízos nos fundos de aposentadoria de servidores públicos. Esses recursos bilionários eram direcionados para fundos de crédito fraudulentos ou investimentos de alto risco controlados pelo Banco Master. Para mascarar a movimentação, o dinheiro era repassado para as empresas ligadas à funcionária de Itu. Oficialmente baseadas em endereços que se revelaram escritórios virtuais em Goiânia, Rio de Janeiro, Olinda e Lauro de Freitas, essas firmas tinham cadastros falsos na Receita Federal, com e-mails genéricos como "[email protected]" e telefones inexistentes.

O desdobramento mais pesado da fraude envolve a empresa The Pay, classificada pelo Ministério Público Federal como uma companhia fantasma, sem um único funcionário registrado. A firma foi peça central na Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de 13 pessoas, incluindo Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco público de Brasília, o BRB. O Banco Master declarou ao Banco Central que realizou operações de recompra de carteiras de crédito com a The Pay que somaram R$ 1,7 bilhão. Além disso, a empresa emitiu R$ 80 milhões em notas de crédito compradas por fundos da gestora Reag, alvo da Operação Carbono Oculto e liquidada pelo Banco Central.

Enquanto a CPI do INSS e as autoridades federais aprofundam o cerco à estrutura societária oculta que financiava políticos, influenciadores e veículos de mídia, o Supremo Tribunal Federal determinou a quebra de sigilo imobiliário de uma vasta lista de chácaras e imóveis de alto padrão na região de Itu, usados de forma cruzada por familiares e operadores para lavar os recursos e ocultar o patrimônio da quadrilha. Recentemente, ações conjuntas das polícias Civil e Federal prenderam em São Paulo operadores que tentavam dar aparência de legalidade aos recursos desviados. Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro informou que se manifestará apenas em momento oportuno, enquanto os sócios da X3 Brazil evitaram dar esclarecimentos à imprensa.