Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço: Globo adota tolerância zero com afiliadas

Memorando enviado às emissoras regionais prevê fiscalização rigorosa e risco de não renovação de contratos em caso de cobertura considerada parcial.

Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 11:25

Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço: Globo adota tolerância zero com afiliadas
Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço: Globo adota tolerância zero com afiliadas Crédito: Reprodução

A poucos meses do início do calendário eleitoral, a Globo comunicou suas mais de 120 emissoras afiliadas sobre um novo protocolo de atuação jornalística. Em documento interno encaminhado nesta semana, a direção de jornalismo da rede estabeleceu diretrizes mais rígidas para a cobertura do período pré-eleitoral e deixou claro que não tolerará desvios que possam ser interpretados como favorecimento político.

O texto é assinado por Ricardo Villela, diretor de jornalismo da TV Globo, e reforça a necessidade de uniformidade editorial em todo o país. A intenção, segundo o comunicado, é assegurar que reportagens e abordagens sigam os princípios institucionais da empresa, evitando qualquer sinal de parcialidade. A área responsável pelo relacionamento com as afiliadas deverá acompanhar de perto os conteúdos exibidos nas praças locais.

Além de eventuais sanções contratuais, o documento relembra que infrações à legislação eleitoral podem gerar penalidades financeiras tanto para a emissora regional quanto para a própria rede, conforme entendimento do Tribunal Superior Eleitoral.

Nos bastidores, o memorando foi recebido com preocupação por parte de algumas afiliadas, especialmente aquelas cujos controladores têm histórico de atuação política ou vínculos familiares com agentes públicos. A mensagem interna, segundo apuração, é de que o descumprimento das normas pode resultar na não renovação dos contratos de parceria.

Casos recentes são citados como precedentes. Em 2023, a Globo informou à TV Gazeta de Alagoas que o acordo de afiliação não seria mantido. A decisão ocorreu após controvérsias envolvendo o canal, incluindo investigações que apontaram uso da emissora em esquema de corrupção associado ao ex-presidente Fernando Collor, posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal. A rescisão do vínculo só foi efetivada após decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Outro exemplo mencionado nos bastidores é o da TV Fronteira, de Presidente Prudente (SP). A parceria foi encerrada após a direção da rede avaliar que o presidente do grupo proprietário da emissora teria utilizado espaços jornalísticos para promover a própria imagem com finalidade eleitoral.

Com a adoção da política de “tolerância zero”, a Globo sinaliza que pretende intensificar o controle editorial sobre suas afiliadas durante o processo eleitoral. A iniciativa ocorre em um cenário de maior escrutínio sobre a atuação da imprensa e de atenção redobrada da Justiça Eleitoral quanto ao equilíbrio na cobertura política.