Facção cobrava até R$ 60 mil para liberar campanha em bairros de Sobral

Operação Omertá prendeu três vereadores e investiga 14 pessoas por suspeita de interferência nas eleições

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 13:36

Operação Omertá prendeu três vereadores e investiga 14 pessoas por suspeita de interferência nas eleições
Operação Omertá prendeu três vereadores e investiga 14 pessoas por suspeita de interferência nas eleições Crédito: Reprodução

Nesta terça-feira (11), uma operação do Ministério Público e da Polícia Federal prendeu três vereadores de Sobral, no Ceará, e revelou uma investigação sobre um suposto esquema em que uma facção criminosa cobrava até R$ 60 mil de candidatos para permitir a realização de campanhas em determinados bairros da cidade. Batizado de Operação Omertá, o caso também apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão e uso de ameaças para interferir nas eleições de 2024 e de 2026.

Segundo o Ministério Público, candidatos que não ocupavam mandato pagariam R$ 30 mil pelo chamado “pedágio eleitoral”. Para quem já tinha mandato, o valor chegaria a R$ 60 mil. A investigação aponta ainda que o grupo buscava influenciar a escolha dos eleitores por meio de ameaças e coação.

O inquérito começou em 2024 e reuniu depoimentos e outros elementos que, segundo as autoridades, indicam a atuação de integrantes de uma organização criminosa para interferir no processo eleitoral de Sobral.

De acordo com o Ministério Público, a interferência teria continuado durante a preparação para as eleições de 2026. Eventos e reuniões de políticos que seriam realizados em Sobral chegaram a ser cancelados após ameaças de morte e de ataques contra pessoas e estabelecimentos envolvidos na organização.

A investigação é conduzida pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE), pelo Ministério Público Eleitoral, por meio da 3ª Promotoria Eleitoral, e pelo Grupo Auxiliar Eleitoral (GAEL).

A operação cumpriu 14 mandados de prisão preventiva, incluindo os três vereadores de Sobral, além de 25 mandados de busca e apreensão e cinco medidas de afastamento cautelar de cargos públicos.

Segundo apuração da TV Verdes Mares, os vereadores presos são Carlos do Calisto (PSB), Junim do Povo (Pode) e Mario Vicktor (União). Os três foram afastados dos cargos por 180 dias.

As ordens judiciais foram expedidas pela 3ª Zona Eleitoral de Fortaleza. Até a última atualização, os nomes dos demais alvos não haviam sido divulgados. A identidade da organização criminosa investigada também não foi informada pelas autoridades.

Entre os alvos estão vereadores, um assessor jurídico da Câmara Municipal de Sobral, integrantes de uma facção criminosa, uma policial militar e outros agentes públicos. Segundo o Ministério Público, 20 mandados de busca e apreensão já haviam sido cumpridos.

Uma das pessoas presas nesta terça-feira é uma policial militar que atuava no policiamento ostensivo. Segundo as autoridades, ela é casada com um homem apontado como chefe de uma organização criminosa em Sobral e que também está preso.

A Polícia Federal informou ainda que um advogado está entre os alvos da operação. Ele é suspeito de integrar a estrutura da organização criminosa e de atuar nos núcleos responsáveis pela liderança e pela execução de ordens relacionadas à interferência no processo eleitoral.

Durante as buscas, agentes apreenderam celulares, documentos e outros materiais que serão analisados pelos investigadores. A Justiça também determinou medidas cautelares, entre elas a proibição de contato entre investigados e testemunhas.

Outra determinação exige que a Câmara Municipal de Sobral apresente uma relação completa dos ocupantes de cargos comissionados, funções de confiança e contratados temporários ligados à Casa.

De acordo com o Ministério Público, os investigados podem responder, conforme a participação de cada um e caso as acusações sejam confirmadas, por crimes como integração de organização criminosa, domínio social estruturado, extorsão na modalidade de “pedágio eleitoral”, corrupção eleitoral, impedimento ou embaraço à propaganda eleitoral e lavagem de dinheiro.

O nome da operação faz referência à Omertà, código de silêncio associado à máfia italiana. A expressão é usada para representar a regra de não colaborar com autoridades e não revelar informações sobre integrantes ou atividades criminosas.