Família de terapeuta morta após coleta de óvulos em SP exige respostas

Jovem saudável de 31 anos sofreu paradas cardiorrespiratórias durante procedimento de fertilização in vitro.

Publicado em 21 de maio de 2026 às 11:39

Família de terapeuta morta após coleta de óvulos em SP exige respostas
Família de terapeuta morta após coleta de óvulos em SP exige respostas Crédito: Reprodução/Redes sociais

O desejo de gerar uma nova vida transformou-se em uma tragédia sem respostas definitivas para a família da terapeuta Gabriela Martins Santos Moura, de 31 anos. Plenamente saudável e sem comorbidades, ela faleceu no Hospital Sírio-Libanês em 24 de fevereiro, dias após sofrer graves complicações logo após iniciar um procedimento de coleta de óvulos para fertilização in vitro. O caso ocorreu na Genics Clínica Reprodutiva e Genômica Ltda., localizada em Indianópolis, bairro nobre da zona sul paulistana, e agora está sob investigação policial.

A fatalidade guarda semelhanças com outro caso recente que chocou o estado: cerca de dois meses depois, a juíza Mariana Francisco Ferreira também faleceu em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, após se submeter ao mesmo tipo de intervenção.

Casada há quase oito anos com o médico-cirurgião Samuel Ricardo Batista Moura com quem mantinha um relacionamento desde a adolescência, Gabriela encarava a maternidade como um plano de vida antigo e compartilhado. Formada inicialmente em direito, ela havia mudado de carreira para atuar com terapias integrativas e saúde, compartilhando em suas redes sociais rotinas de bem-estar, espiritualidade e autocuidado. Meses antes do ocorrido, ela chegou a completar os 15 km da Corrida Internacional de São Silvestre.

Segundo os registros médicos, no dia 17 de fevereiro, Gabriela entrou na clínica para a retirada dos óvulos. No entanto, logo após receber a sedação, a paciente apresentou uma queda acentuada na saturação de oxigênio e um broncoespasmo severo (contração dos brônquios que impede a passagem do ar). O quadro evoluiu rapidamente para uma parada cardiorrespiratória. O anestesista Néstor Daniel Turner, de 70 anos, relatou ter administrado adrenalina, mas a paciente sofreu uma falta grave de oxigenação no organismo (hipóxia) e uma segunda parada cardíaca, necessitando de intubação e transferência urgente para o hospital.

Para o viúvo, a tragédia poderia ter sido evitada. Samuel aponta suposta imperícia no atendimento, questionando o tempo de resposta da equipe médica, a condução do processo anestésico e a falta de explicações claras sobre o que se passou dentro da sala cirúrgica.

Representados pelo advogado Yuri Felix, os familiares buscam uma apuração rigorosa tanto na esfera cível quanto na criminal. A principal queixa atual é a lentidão do Instituto Médico-Legal (IML) em emitir o laudo necroscópico oficial que determinará a causa exata do óbito.

"É um fato envolver uma jovem de 31 anos, sem nenhum histórico anterior de comorbidade, plenamente saudável", declarou o advogado Yuri Felix. "Essa jovem entra em uma clínica na cidade de São Paulo para um procedimento simples. Minutos depois, está morta. A família não tem uma resposta."

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o 4º Distrito Policial (Consolação) conduz as investigações e aguarda a conclusão dos exames periciais solicitados ao IML, sem detalhar os motivos do atraso.

Em nota, a clínica Genics ressaltou que possui 16 anos de experiência e detém todas as licenças, certificações e exigências regulatórias necessárias para funcionar. A instituição afirmou que a ginecologista responsável acompanhou todo o processo e não detectou anormalidades na coleta, e que as intercorrências foram identificadas e prontamente assistidas pelo anestesista com todos os recursos de reversão disponíveis. A empresa enfatizou que complicações graves e óbitos nesse tipo de procedimento são eventos "excepcionalmente incomuns" e informou que está colaborando com as autoridades.

Nas investigações, o anestesista Néstor Daniel Turner também negou irregularidades, assegurando que a paciente iniciou o procedimento estável e que todas as manobras padrão de ressuscitação e suporte à vida foram adotadas imediatamente após a piora do quadro clínico.