Justiça de SP determina que morte de policial militar seja investigada como feminicídio

Decisão ocorre após novos laudos apontarem lesões no pescoço e ausência de pólvora nas mãos da vítima; contradições no depoimento do marido e indícios de limpeza na cena do crime mudaram o rumo do caso.

Publicado em 11 de março de 2026 às 17:40

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. —
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. — Crédito: Reprodução/Internet

A Justiça de São Paulo determinou, na última terça-feira (10), que a morte da policial militar Gisele Santana, de 32 anos, seja investigada como feminicídio. O caso, que ocorreu em 18 de fevereiro no bairro do Brás, foi inicialmente registrado como suicídio, mas a classificação foi alterada diante de uma série de inconsistências e novas provas periciais.

A juíza Giovanna Christina Colares ordenou que o processo seja redistribuído para uma Vara do Tribunal do Júri, responsável por julgar crimes dolosos contra a vida. A decisão atende a um pedido fundamentado na natureza das evidências colhidas após a exumação do corpo da soldado.

O laudo necroscópico complementar, realizado após a exumação, foi determinante para a nova linha de investigação. Os peritos identificaram lesões contundentes no rosto e no pescoço de Gisele, incluindo marcas compatíveis com pressão digital e unhas. Segundo a perícia, os indícios sugerem que a policial pode ter desmaiado ou sofrido uma compressão no pescoço antes de ser atingida pelo disparo na cabeça, não apresentando sinais de defesa.

Outro fator crucial foi o resultado da pesquisa de resíduos de disparo, que confirmou a ausência de vestígios de pólvora nas mãos da vítima. Além disso, socorristas relataram que a arma estava "bem encaixada" na mão de Gisele, uma posição considerada incomum em casos de suicídio, o que levantou a suspeita de que a cena tenha sido montada.

A investigação também foca em uma "lacuna" de cerca de 30 minutos entre o disparo e o pedido de socorro. Uma vizinha relatou ter ouvido o tiro às 7h28, enquanto o marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, só acionou a emergência por volta das 7h57. Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento do disparo, mas os primeiros bombeiros a chegar ao local declararam que o coronel estava com o corpo e as roupas completamente secos. Além disso, não foram encontradas poças de água no banheiro ou no corredor que sustentassem a versão de que ele teria saído apressadamente do chuveiro.

Novas denúncias indicam que a cena do crime pode ter sido alterada. Imagens de segurança e depoimentos de funcionários do condomínio revelaram que, na tarde do dia da morte, três policiais militares mulheres estiveram no apartamento para realizar uma limpeza. As agentes seriam subordinadas do tenente-coronel Neto na unidade onde ele exercia funções administrativas. Também causou estranhamento o fato de o oficial ter retornado ao imóvel para tomar um segundo banho e trocar de roupa logo após a retirada do corpo, ignorando orientações para preservar o local.

Familiares e amigos de Gisele relataram que o casal vivia um relacionamento conturbado e abusivo. Segundo os depoimentos, o tenente-coronel exercia controle excessivo sobre a esposa, proibindo-a de usar batom, salto alto e de frequentar a academia desacompanhada. Dias antes de morrer, Gisele teria manifestado a intenção de se separar.

Até o momento, o tenente-coronel Neto, que pediu afastamento de suas funções, não é considerado formalmente suspeito pela polícia, embora a investigação siga sob sigilo. A defesa do oficial afirma que ele tem colaborado com as autoridades e critica a divulgação de informações descontextualizadas.

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Cássio Leal.