Mais de 20 vírus foram furtados por professora na Unicamp; entenda a investigação

Universidade afirma que caso é isolado e que não houve risco de contaminação externa.

Publicado em 30 de março de 2026 às 09:18

Mais de 20 vírus foram furtados por professora na Unicamp; entenda a investigação
Mais de 20 vírus foram furtados por professora na Unicamp; entenda a investigação Crédito: Reprodução/Unicamp

A retirada irregular de amostras biológicas de um laboratório de alta contenção da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) colocou a instituição no centro de uma investigação conduzida pela Polícia Federal e reacendeu o debate sobre segurança em ambientes de pesquisa científica. O caso envolve o desaparecimento e posterior recuperação de pelo menos 24 cepas de vírus, entre elas amostras de dengue, zika, chikungunya, herpes, coronavírus humano e vírus da gripe tipo A, como H1N1 e H3N2.

Segundo as apurações, o material foi retirado sem autorização do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia, uma área classificada como nível 3 de biossegurança, conhecida como NB-3, destinada ao manuseio de agentes infecciosos sob protocolos rígidos de contenção. Esse é o mais alto nível de segurança laboratorial utilizado no país para esse tipo de pesquisa.

A investigação aponta como principais suspeitos uma professora ligada à Faculdade de Engenharia de Alimentos e o marido dela, veterinário e doutorando. De acordo com o inquérito, imagens de câmeras de segurança registraram a movimentação de caixas em horários considerados incomuns, o que reforçou as suspeitas dos investigadores.

O desaparecimento das amostras foi percebido ainda em fevereiro, mas a comunicação oficial às autoridades ocorreu em março, quando a universidade acionou a Polícia Federal e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A partir disso, foi instaurado o inquérito que resultou em buscas, apreensões e na prisão em flagrante da docente, que posteriormente obteve liberdade provisória e responde ao processo fora da prisão.

As amostras foram localizadas em diferentes prédios dentro da própria universidade, incluindo laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos e do Instituto de Biologia. Conforme as autoridades, não foram encontrados vestígios do material na residência do casal. A perícia também descartou, até o momento, qualquer hipótese de contaminação externa ou ato de terrorismo biológico.

A linha principal da investigação trabalha com a possibilidade de que a motivação esteja relacionada a interesses em pesquisas internas e ao uso do material em atividades científicas não autorizadas. A Polícia Federal ainda apura se houve participação de outras pessoas e qual era o objetivo final da movimentação das amostras.

Em nota oficial, a Unicamp classificou o episódio como um caso isolado e afirmou que os laboratórios NB-3 seguem protocolos rigorosos de segurança. A universidade também informou que instaurou uma sindicância interna para apurar eventuais responsabilidades administrativas, além de colaborar integralmente com os órgãos federais.

A instituição ressaltou ainda que os materiais recuperados não incluem organismos geneticamente modificados e reforçou que a rápida atuação dos órgãos competentes foi fundamental para a apreensão das amostras.

O caso chama atenção pelo potencial risco envolvido, já que os vírus manipulados em laboratórios desse porte exigem controle absoluto de acesso, armazenamento e transporte. Embora as autoridades tenham afastado risco imediato à população, a ocorrência levanta questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização interna em ambientes científicos de alta sensibilidade.