Médico diz ter sido internado à força após revelar ser gay em clínica, no PI

Profissional de 27 anos afirma ter sido mantido por cerca de 40 dias sem consentimento, acesso a telefone ou contato externo.

Publicado em 6 de maio de 2026 às 15:33

Profissional de 27 anos afirma ter sido mantido por cerca de 40 dias sem consentimento, acesso a telefone ou contato externo. 
Profissional de 27 anos afirma ter sido mantido por cerca de 40 dias sem consentimento, acesso a telefone ou contato externo.  Crédito: Reprodução 

Um médico de 27 anos denuncia ter sido internado de forma involuntária em uma clínica de reabilitação em Teresina, no Piauí, onde teria permanecido por aproximadamente 40 dias sem acesso a celular, advogado ou comunicação com o mundo externo. Segundo ele e sua defesa, a decisão teria ocorrido após ele revelar ser gay aos pais, que não teriam aceitado a informação. Já a família sustenta que o jovem enfrentava problemas com drogas.

De acordo com a advogada Juliana Irineu, que representa o médico, ele foi retirado da própria residência por quatro homens que o abordaram dentro do quarto, após ser chamado pela mãe. O profissional relata que houve luta corporal e que pediu por um advogado e por exames que comprovassem que não havia uso de substâncias ilícitas, mas não foi atendido.

Ainda segundo a defesa, após a contenção, ele foi levado por uma ambulância do Samu até a clínica, onde teve o celular e documentos retidos. O médico afirma que só recebeu avaliação psiquiátrica dias depois da entrada, quando foi apontado como dependente de cocaína, sem a realização de exame toxicológico prévio.

Durante o período em que esteve internado, ele relata ter sido medicado diariamente sem consentimento e sem explicação sobre os remédios utilizados. A defesa afirma que o quadro emocional do paciente se agravou ao longo da permanência na unidade.

Para a advogada, a internação foi motivada pela descoberta da orientação sexual do cliente. Segundo o relato, os pais, descritos como conservadores, teriam tomado a decisão poucos dias após a revelação, temendo exposição social. A família, no entanto, afirma que a medida foi adotada por suspeita de dependência química.

Após conseguir acesso a um celular dentro da clínica, o médico entrou em contato com amigos, que acionaram a advogada. Ela tentou inicialmente reverter a situação por meio de habeas corpus, mas o pedido não foi analisado sob a justificativa de que a internação não era recente.

A defesa também relata que um delegado apontou possibilidade de cárcere privado e orientou a presença da Polícia Militar na clínica. No local, segundo a advogada, houve resistência para liberação de documentos e acesso ao paciente, além de tensão entre família e equipe jurídica.

O caso foi levado à Central de Flagrantes de Teresina, onde houve nova avaliação da autoridade policial sobre a legalidade da internação. Segundo a defesa, o entendimento inicial foi de que poderia haver respaldo legal, mas a advogada contestou, alegando ausência de critérios médicos e legais exigidos para esse tipo de medida.

Após a repercussão do caso, os pais solicitaram o encerramento da internação e a devolução dos pertences do médico. Até o momento, Ministério Público, Conselho Regional de Medicina e Polícia Civil do Piauí não se manifestaram sobre o caso. O espaço segue aberto para posicionamentos.