Publicado em 9 de março de 2026 às 17:18
A investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia no Brás, Centro de São Paulo, teve uma reviravolta. Inicialmente registrado como suicídio com base no relato de seu marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, o caso passou a ser apurado como morte suspeita e possível homicídio devido a uma série de inconsistências encontradas no local e depoimentos de testemunhas.>
Um dos pontos centrais que mudaram o rumo do inquérito foi o depoimento do bombeiro socorrista Rodrigo Almeida Rodrigues, o primeiro a entrar no imóvel. Com 15 anos de experiência, o profissional afirmou ter achado a cena "estranha" e decidiu tirar uma foto do local antes de prestar socorro para preservar as evidências. Segundo ele, a arma estava encaixada na mão de Gisele de uma forma atípica para suicídios, com o dedo fora do gatilho, e o cartucho da bala não foi encontrado no apartamento. Além disso, o bombeiro notou que o sangue na cabeça da vítima já estava coagulado e que ela não apresentava rigidez cadavérica.>
Outro fator determinante é a lacuna temporal no pedido de socorro. Uma vizinha relatou ter ouvido o estampido do disparo às 7h28, mas o primeiro chamado do tenente-coronel para a polícia ocorreu apenas às 7h57, indicando um intervalo de 29 minutos entre o tiro e o acionamento do resgate.>
Conduta do oficial e presença de desembargador O comportamento do tenente-coronel Geraldo Neto também é alvo de análise. Testemunhas afirmaram que ele parecia calmo e "não demonstrava desespero" com a situação. Imagens de câmeras de segurança mostram que, após a saída de Gisele em estado gravíssimo, o oficial tomou banho e trocou de roupa, desobedecendo a orientação direta de policiais que pediram a preservação do local e de sua pessoa para perícia. Relatos apontam que ele retornou ao corredor com um forte cheiro de produtos químicos.>
Além disso, o inquérito revelou que a primeira pessoa acionada pelo oficial após o crime foi o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). O magistrado, identificado como amigo pessoal de Geraldo, compareceu ao prédio e chegou a entrar no apartamento com o oficial antes da conclusão dos trabalhos periciais. Em nota, o desembargador afirmou que foi ao local apenas como amigo e que prestará esclarecimentos se necessário.>
A família de Gisele contesta veementemente a tese de suicídio. A mãe da soldado, Marinalva Santana, revelou que a filha vivia um relacionamento abusivo, marcado por controle excessivo e violência psicológica. Segundo familiares, Gisele era proibida pelo marido de usar batom, perfume e sapatos de salto alto. Uma semana antes de morrer, a policial teria ligado para os pais chorando e pedido para ser "resgatada" porque não suportava mais a situação.>
No dia 6 de março, a Justiça autorizou a exumação do corpo de Gisele para a realização de novas perícias, visando esclarecer a dinâmica do disparo. A defesa do tenente-coronel Geraldo Neto reitera que ele não é considerado investigado ou suspeito formalmente, que tem colaborado com as autoridades e que confia na elucidação dos fatos. O oficial solicitou afastamento de suas funções enquanto o caso é apurado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM.>
Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Cássio Leal.>