Publicado em 17 de junho de 2026 às 07:59
O cotidiano de um grupo investigado pela Polícia Federal parecia seguir à risca o roteiro de um suspense de espionagem. Um relatório da corporação detalha que pessoas ligadas a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, criaram uma rede de comunicação paralela para fugir do radar das autoridades. A estratégia envolvia desde encontros rápidos em áreas comuns de prédios até o uso de tecnologia estrangeira e reuniões a portas fechadas dentro de SUVs de luxo.>
A estrutura era dividida em funções bem claras para garantir a segurança das operações. Havia a chamada Turma, um braço composto em grande parte por policiais aposentados que usavam a experiência de farda e contatos para conseguir dados sigilosos e intimidar opositores. O comando dessa ala ficava com o ex-policial federal Marilson Roseno da Silva, apoiado por outros agentes veteranos.>
Do outro lado, atuavam os Meninos, uma ala focada em tecnologia e liderada por David Henrique Alves, que comandava invasões digitais e a derrubada de perfis na internet. No centro de tudo, Felipe Mourão, que operava sob o codinome de Sicário, fazia a ponte das ordens e intimidações.>
Para evitar escutas ambientais e monitoramentos de rotina, os suspeitos evitavam locais óbvios e preferiam o olho no olho. No início de março de 2026, por exemplo, Marilson Roseno mudou os planos do colega Sebastião Monteiro Júnior, que pretendia assistir a um jogo do Atlético. Em vez do estádio, o convite foi para uma conversa reservada no pilotis de um prédio no bairro Floresta, em Belo Horizonte.>
Câmeras de segurança registraram o momento em que Marilson deixou os amigos na área de lazer para se isolar com o aliado na portaria. Eles ficaram mais de uma hora sozinhos no espaço para garantir que ninguém ouviria a conversa.>
No dia seguinte, a tática mudou de cenário, mas manteve a mesma essência de isolamento. Agentes federais identificaram uma Range Rover preta estacionada na mesma região. Dentro do veículo de luxo, Marilson e o Sicário passaram quase uma hora e meia alinhando os próximos passos, usando os vidros fechados do carro como uma espécie de escritório seguro à prova de curiosos.>
O uso desses veículos também servia para o transporte de ferramentas de trabalho da organização. Em uma abordagem diferente, desta vez conduzida pela Polícia Rodoviária Federal na BR-381, outra Range Rover ligada a Felipe Mourão foi parada pelas autoridades. No interior do automóvel estavam o líder da ala hacker, David Henrique, e uma mulher chamada Katherine Venâncio, que transportavam uma quantidade expressiva de computadores e notebooks.>
Além dos encontros em locais discretos, a blindagem do grupo passava diretamente pelos smartphones. A Polícia Federal descobriu que os principais envolvidos abandonaram as operadoras nacionais e passaram a adotar chips com números estrangeiros para rodar aplicativos de mensagens, dificultando interceptações e quebras de sigilo. Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, utilizava uma linha registrada na Colômbia. Já Sebastião Monteiro operava com um código de área dos Estados Unidos para falar com Marilson, que por sua vez também recorria a um número internacional no WhatsApp Business.>
Quando os celulares eram usados, a ordem principal das lideranças era não deixar nenhuma pegada digital. O uso de mensagens temporárias e ligações estritamente por voz de dados, evitando a telefonia comum, era a regra básica do grupo. Em um dos áudios recuperados pela investigação, o próprio Daniel Vorcaro orienta Felipe Mourão de forma direta ao enviar um arquivo sigiloso, pedindo para que ele apagasse o conteúdo logo em seguida e não repassasse a ninguém. A resposta do aliado foi imediata, confirmando que apenas ouviria e deletaria o arquivo.>
Apesar de toda a rotina de limpeza do histórico e da destruição proposital de conversas antigas, os fragmentos que restaram nos aparelhos foram suficientes para os investigadores. A Polícia Federal conseguiu cruzar os dados, mapear a rotina da organização e revelar os bastidores de um esquema que operava nas sombras do mundo corporativo.>