PF dribla recusa de senha e acessa dados que podem mudar investigação do Banco Master

Mensagens extraídas de aparelhos apreendidos na Operação Compliance Zero podem influenciar decisão do STF sobre envio do caso à primeira instância.

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 08:18

Daniel Vorcaro -
Daniel Vorcaro - Crédito: Divulgação

A Polícia Federal entrou em uma fase decisiva da investigação que apura suspeitas envolvendo o Banco Master. Mesmo sem a colaboração direta do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário da instituição, os investigadores já conseguiram acessar o conteúdo de celulares apreendidos durante as duas etapas da Operação Compliance Zero, incluindo aparelhos do próprio empresário, de familiares, ex-sócios e do investidor Nelson Tanure.

Em depoimento à PF, Vorcaro afirmou manter “amigos em todos os Poderes” da República, mas se recusou a fornecer a senha do celular, alegando preocupação com a exposição de relações pessoais e privadas. A negativa, no entanto, não impediu o avanço da apuração. A corporação dispõe de softwares especializados, um de origem israelense e outro norte-americano, capazes de romper sistemas de segurança e permitir o acesso a dados armazenados em dispositivos móveis.

Todo o material foi extraído em ambiente controlado do Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, e encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR). O conteúdo está sob análise conjunta da equipe do procurador-geral Paulo Gonet e de peritos indicados pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

O ministro já sinalizou que, com a conclusão das investigações, poderá decidir se o inquérito permanece no STF ou se será remetido à primeira instância. O teor de mensagens, áudios e documentos digitais encontrados nos aparelhos é considerado fundamental para essa definição.

A coordenação da extração dos dados ficou a cargo do perito Luiz Felipe Nassif, chefe do Serviço de Perícias em Informática da PF. Especialista em grandes volumes de dados e inteligência artificial, Nassif tem passagens por operações de grande repercussão e é responsável pelo desenvolvimento do Indexador e Processador de Evidências Digitais (Idep), ferramenta usada há mais de uma década pela corporação para filtrar informações relevantes em meio a extensos bancos de dados.

Antes da análise, os celulares passaram por procedimentos rigorosos de preservação. Os aparelhos foram isolados em compartimentos metálicos que bloqueiam sinais externos, como Wi-Fi e ondas eletromagnéticas, impedindo qualquer tentativa de acesso remoto ou apagamento de arquivos. Para a PF, o conteúdo digital é tratado como uma extensão da cena do crime, obedecendo à chamada cadeia de custódia.

Na etapa seguinte, os dispositivos foram conectados a sistemas como o Cellebrite e o GreyKey, capazes de acessar dados em aparelhos com sistemas iOS e Android. No caso específico de Vorcaro, que utilizava um iPhone de última geração, a extração pode demandar mais tempo devido às camadas adicionais de proteção digital.

O prazo médio para esse tipo de trabalho varia de uma semana a um mês, a depender do volume de informações. Entre os dados já identificados, há grupos de mensagens no WhatsApp que chamaram a atenção dos investigadores, como um criado poucos dias antes da primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Também surgem referências a empresas e gestores que igualmente foram alvo da operação e tiveram liquidação decretada pelo Banco Central.

Parte desse material chegou a ser compartilhada com a CPI do INSS, mas o acesso acabou suspenso por decisão judicial. Agora, a expectativa da PF e da PGR é que a análise técnica permita esclarecer conexões financeiras, fluxos de informação e eventuais irregularidades.

Outro perito designado por Toffoli para atuar no caso é Enelson da Cruz Filho, especialista em análise financeira da PF. Ele deve se concentrar em planilhas, tabelas e registros contábeis eventualmente recuperados dos dispositivos.

Além de acessar dados visíveis, a perícia também utiliza técnicas avançadas para tentar reconstituir arquivos apagados. Uma delas é o chamado datacarving, método que vasculha o armazenamento bruto dos aparelhos em busca de fragmentos digitais capazes de recompor mensagens, áudios e documentos excluídos.

Com a conclusão dessa etapa, o conteúdo dos celulares deve se tornar peça-chave para os próximos desdobramentos do caso e para a definição do rumo judicial da investigação.