Processo sobre suspeita de insider trading chega ao STF e expõe interesses do Banco Master

Decisão da Justiça Federal aponta conexão entre investigações envolvendo a Gafisa e apurações sobre o banco liquidado pelo BC.

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 11:50

Processo sobre suspeita de insider trading chega ao STF e expõe interesses do Banco Master
Processo sobre suspeita de insider trading chega ao STF e expõe interesses do Banco Master Crédito: Reprodução/Redes sociais

Uma decisão sigilosa da Justiça Federal de São Paulo transferiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) um inquérito que apura suspeitas de uso de informação privilegiada em operações envolvendo a construtora Gafisa. O despacho, assinado na noite do último dia 18 pela juíza Maria Isabel do Prado, reconhece a existência de vínculos entre esse processo e investigações mais amplas que miram o Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro do ano passado.

A remessa do caso ao STF ocorre porque um dos investigados, o empresário Nelson Tanure, também é alvo de apurações relacionadas ao banco e teve bens bloqueados por determinação do ministro Dias Toffoli, relator de procedimentos ligados à chamada Operação Compliance Zero. Para a magistrada, há indícios suficientes de conexão entre os fatos investigados, tanto pelo possível cruzamento de provas quanto pela atuação dos mesmos agentes econômicos e financeiros.

No processo da Gafisa, o Banco Master aparece formalmente como “terceiro interessado”. Essa classificação se aplica a pessoas físicas ou jurídicas que não figuram inicialmente como partes, mas que podem ter seus direitos afetados por eventual decisão judicial. Segundo a decisão, fundos de investimento e gestoras investigados no âmbito do banco também surgem como peças centrais nas operações suspeitas atribuídas a Tanure e a Gilberto Benevides, outro empresário denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF).

A representação do Banco Master no caso está a cargo do escritório Barci de Moraes, cuja sócia-controladora é a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Além dela, dois filhos do magistrado, Alexandre e Giuliana, também atuam como advogados em nome da instituição. Um contrato firmado entre o escritório e o banco previa honorários que poderiam chegar a cerca de R$ 130 milhões, com escopo amplo de atuação jurídica, sem delimitação a um processo específico.

Mesmo após a liquidação do banco, a decisão judicial indica que os serviços advocatícios continuaram a ser prestados. Mensagens obtidas durante as investigações mostram que, internamente, o pagamento ao escritório era tratado como prioridade absoluta pela cúpula do Master. O contrato, no entanto, não foi integralmente cumprido em razão do desmantelamento da instituição por determinação do Banco Central.

O inquérito sobre a Gafisa teve origem em denúncias de movimentações consideradas atípicas no mercado de capitais. De acordo com o MPF, Nelson Tanure teria articulado operações para elevar artificialmente o valor de mercado da incorporadora Upcon, então ligada a Gilberto Benevides, para ampliar seu poder de voto na Gafisa após a incorporação da empresa. As acusações incluem o uso de fundos e estruturas no exterior para ocultar a real dimensão de sua participação acionária.

Ainda segundo a denúncia, esse arranjo teria permitido a Tanure ampliar o controle sobre a companhia e garantir espaço a Benevides no conselho de administração da Gafisa. O ponto de contato com o caso do Banco Master estaria justamente na utilização de determinadas gestoras e fundos de investimento que também aparecem nas apurações sobre a instituição financeira.

Além do Banco Master, figuram como terceiros interessados no processo o investidor Vladimir Joelson Timerman, acionista da Gafisa que denunciou as supostas irregularidades, sua gestora Esh Capital, a própria construtora e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em outro processo, encerrado na Justiça paulista, Timerman foi alvo de uma queixa-crime movida por Daniel Vorcaro, controlador do Master, e pela instituição financeira, ambos derrotados em todas as instâncias.

Na decisão que encaminhou o caso ao Supremo, a juíza destacou que, embora não tenha acesso integral às investigações que correm sob sigilo no STF, os elementos reunidos no processo da Gafisa revelam semelhança no modo de atuação atribuído a Tanure, incluindo a emissão de títulos e operações financeiras suspeitas com potencial de gerar vantagens indevidas.

Em nota, Nelson Tanure nega qualquer vínculo societário com o Banco Master. O empresário afirma que sua relação com a instituição se limitou à condição de cliente e investidor, sem ingerência na gestão, e sustenta que todas as operações seguiram a legislação brasileira. Ele também declarou que vinha reduzindo gradualmente sua exposição ao banco e que eventuais perdas são compatíveis com atividades de risco no mercado financeiro.