Publicado em 31 de outubro de 2026 às 13:21
O apresentador e biólogo Richard Rasmussen comentou a tradicional lenda do boto-cor-de-rosa, bastante conhecida na região amazônica, e apresentou uma interpretação sobre a origem da história de que o animal engravidaria mulheres. Em publicação nas redes sociais, ele relacionou a narrativa a situações em que homens teriam atribuído a paternidade ao boto para evitar assumir a responsabilidade por uma gravidez.>
Segundo a interpretação apresentada por Rasmussen, a história teria sido utilizada como uma espécie de justificativa para ocultar a identidade de homens envolvidos em relações com mulheres da região. O apresentador também comentou a inteligência dos botos e a capacidade desses animais de perceber alterações no comportamento humano.>
O que diz a tradição amazônica?>
Uma das versões mais conhecidas da lenda conta que o boto-cor-de-rosa se transforma em um homem durante a noite, geralmente vestido de branco e usando um chapéu para esconder o orifício respiratório no alto da cabeça. Na forma humana, ele frequentaria festas e seduziria mulheres ribeirinhas. Antes do amanhecer, retornaria às águas e assumiria novamente a aparência de animal.>
A história faz parte do imaginário popular amazônico e atravessa gerações, com diferentes versões transmitidas oralmente pelas comunidades. A National Geographic Brasil explica que a narrativa integra o folclore da região, mas não possui comprovação científica.>
Pesquisadores explicam o significado cultural da lenda>
Em publicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), pesquisadores analisaram a tradição dos chamados “filhos do boto” e explicaram que a crença precisa ser compreendida dentro do contexto cultural das comunidades amazônicas.>
O antropólogo Romero Ximenes destaca que a ideia de paternidade não está relacionada apenas à origem biológica, mas também pode envolver aspectos sociais, históricos e culturais. A pesquisadora Socorro Simões, por sua vez, aponta que as narrativas sobre o boto são numerosas e fazem parte da relação histórica entre as populações tradicionais e os rios da região.>
Um estudo publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também analisa como a figura do boto foi associada a histórias de sedução, gravidez e explicações sociais para situações que poderiam gerar conflitos familiares. O trabalho destaca que atribuir a paternidade ao animal aparece em registros históricos como uma das formas de lidar com gravidezes fora das convenções sociais da época.>
Lenda também aparece em discussões sobre violência sexual>
A relação entre a lenda e a violência sexual foi abordada em uma reportagem especial do UOL, que ouviu historiadores, especialistas e ativistas para investigar como a narrativa passou a ser associada a casos de abuso e estupro no Pará.>
A reportagem mostra que, em determinadas situações, a figura do boto foi utilizada como justificativa para esconder a identidade de homens responsáveis por uma gravidez, inclusive em casos de violência contra meninas. O historiador Márcio Couto Henrique, da UFPA, ressalta que não há uma data precisa para determinar quando essa associação começou.>
A discussão reforça que a lenda do boto não deve ser reduzida a uma única explicação. Além de integrar o patrimônio cultural e o imaginário amazônico, a narrativa também foi interpretada de diferentes maneiras ao longo da história, incluindo aspectos sociais relacionados à maternidade, à paternidade e à violência contra mulheres e crianças.>
Texto por Pedro Moraes.>