Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 20:17
Uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, adquiriu 90% de um projeto de energia eólica no Rio Grande do Norte, pertencente a Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, e marido da apresentadora Patrícia Abravanel.>
O acordo foi firmado em fevereiro de 2024, pouco mais de um ano após Faria deixar o cargo público, e incluiu como parte do pagamento um apartamento avaliado em R$ 50 milhões, localizado em São Paulo. Meses depois, o imóvel foi revendido por R$ 54 milhões.>
Pela legislação brasileira, ex-ministros são classificados como pessoas politicamente expostas (PEP) por até cinco anos após o fim do mandato. Embora a negociação entre Vorcaro e Faria não seja considerada ilegal, ela exige um grau mais elevado de transparência, conforme normas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que determinam “especial atenção” a operações envolvendo PEPs. Em nota, Faria afirmou que “Fabio Faria não conhecia nem teve qualquer interação com a adquirente das cotas do empreendimento durante o exercício de suas atividades políticas. As partes passaram a se conhecer cerca de um ano após o encerramento de sua atuação pública”.>
Dois anos após o acordo, a empresa associada a Vorcaro não figura como sócia de Faria nos registros da Junta Comercial nem da Receita Federal. No mesmo período, o projeto de energia eólica não apresentou avanços. A Sociedade de Propósito Específico (SPE) Fazenda São Pedro Geradora de Energia continua registrada exclusivamente em nome do ex-ministro, com capital social de R$ 1.000, apesar da assinatura de um contrato de cessão de quotas que previa a transferência de 90% das cotas à compradora e a manutenção de 10% com Faria.>
Instalado no Rio Grande do Norte, o empreendimento tinha previsão inicial de geração de 240 megawatts, mas enfrenta restrições na infraestrutura da rede elétrica local. Atualmente, não há capacidade de transmissão para escoar a energia produzida, nem previsão para a solução desse entrave. Antes da venda, Faria tentou atrair outros investidores, sem sucesso, justamente em razão desse gargalo. Mesmo que as torres fossem instaladas, a energia gerada não poderia ser integrada ao sistema elétrico nacional.>
A reportagem do UOL apurou que a negociação teria sido iniciada entre Vorcaro e Faria — versão negada pelo ex-ministro. Em seguida, Vorcaro teria acionado a empresa Super Empreendimentos e Participações para concluir o negócio. Segundo investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR), a Super era utilizada para desviar patrimônio do Banco Master em favor de Vorcaro. À época, a empresa era administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi preso e posteriormente solto em janeiro, durante a segunda fase da Operação Compliance Zero.>
Conforme documentos apresentados por Faria, Zettel participou dos trâmites finais da negociação. O contrato previa que a alteração societária deveria ser registrada na Junta Comercial do Rio Grande do Norte, o que não ocorreu. Faria afirma que a responsabilidade pelo registro cabia à Super. A reportagem procurou a empresa e Zettel, mas não obteve resposta. Em manifestação, Daniel Vorcaro declarou que “a relação de seu cliente com a empresa Super é de natureza comercial, envolvendo operações de compra e venda de ativos e contratos de inquilinato”, acrescentando que um dos sócios da empresa é seu cunhado, fato de conhecimento público.>
Como parte do pagamento pela aquisição, a Super ofereceu a Faria um apartamento avaliado em R$ 50 milhões na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo. O imóvel possui 818 m² de área privativa, cinco suítes, sete banheiros e onze vagas de garagem, em um edifício com 16 unidades, próximo ao Clube Pinheiros e ao Shopping Iguatemi. O apartamento, entretanto, não foi oficialmente transferido para o nome do ex-ministro.>
Em setembro, Faria revendeu o imóvel a uma empresa do Grupo Esfera, pertencente ao empresário João Camargo. Do valor total da venda, de R$ 54 milhões, R$ 24 milhões foram pagos à vista, enquanto os R$ 30 milhões restantes foram quitados em doze parcelas mensais de R$ 2,5 milhões. No total, o negócio envolvendo o projeto alcançou R$ 67,5 milhões.>