Auto do Círio é lançado em clima de emoção com homenagem marcante à professora Zélia Amador de Deus

Evento reuniu comunidade acadêmica, familiares e artistas em um tributo à coidealizadora do projeto, falecida nesta semana.

Publicado em 13 de setembro de 2026 às 19:11

Zélia foi uma das mentes criativas que deram origem ao espetáculo
Zélia foi uma das mentes criativas que deram origem ao espetáculo Crédito: Reprodução/Google

A manhã deste domingo (13) foi marcada por forte comoção no prédio do Instituto de Ciências das Artes (ICA), localizado na Praça da República. O lançamento oficial da 32ª edição do Auto do Círio transformou-se em um grande ato de afeto e memória à pesquisadora, professora e escritora Zélia Amador de Deus. Primeira vice-reitora negra da história da Universidade Federal do Pará (UFPA), Zélia faleceu na última terça-feira (8), aos 76 anos, e foi sepultada na quarta-feira (9). Ela foi uma das mentes criativas que deram origem ao espetáculo que, há mais de três décadas, mobiliza milhares de pessoas nas ruas da Cidade Velha na antevéspera do Círio de Nazaré.

Organizado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA (Etdufpa), sob a coordenação da professora Inês Ribeiro e de uma equipe técnica da instituição, o evento de lançamento reuniu o reitor Gilmar Pereira, o professor João de Paes Loureiro, Miguel Santa Brígida, também criador do projeto, docentes do ICA, estudantes, diretores do espetáculo e familiares da homenageada. A programação contou com apresentações artísticas e culminou em um mini cortejo ao redor da Praça da República.

Fé, ancestralidade e patrimônio

Em 2026, a 32ª edição do Auto do Círio terá como tema "Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé". O tradicional desfile cênico ocorrerá no dia 9 de outubro, na Cidade Velha, na sexta-feira que antecede a grande procissão nazarena.

Durante a cerimônia, a professora Inês Ribeiro destacou a essência agregadora de Zélia Amador, lembrando que ela fundou o espetáculo ao lado de Margareth Revescalevisk e Miguel Santa Brígida.

"Zélia conseguiu integrar o verdadeiro sentido da palavra religião, que é 'religare'. Ela conectou a música, a dança e o teatro, unindo o programa de extensão da universidade à comunidade, aos grupos culturais e aos mestres da cultura popular, como os artesãos de miriti. O Auto do Círio é a própria Zélia! Aquela que abraça com afeto e conecta tudo a Nossa Senhora de Nazaré." destacou a professora.

A abertura das manifestações no ICA foi conduzida por Mametu Nangetu em uma roda de batuque que reverenciou a memória da professora e a tradição de matriz africana. "A gente não morre, a gente vira ancestral. É um momento para homenagear Zélia, Nanã e mostrar a força e a felicidade da cultura de rua. Que no ano que vem estejamos todos aqui reunidos novamente. Salve Zélia!", declarou.

O lançamento oficial da 32ª edição do Auto do Círio 
O lançamento oficial da 32ª edição do Auto do Círio  Crédito: Reprodução/Wagner Santana

Reconhecimento institucional e familiar

O lançamento relembrou marcos da trajetória de Zélia Amador e frases marcantes de sua militância e obra, como "Eu não sou escrava, eu sou descendente de reis e rainhas". O reitor da UFPA, Gilmar Pereira, enfatizou o impacto do projeto para a instituição e para a sociedade paraense.

"O Auto do Círio é o maior serviço cultural que a universidade oferece à população. Falar dessa festa é falar de Zélia e de Paes Loureiro. Considero a professora Zélia a figura mais importante da história da UFPA. Ela representa nossa instituição como ninguém, pois estabeleceu uma síntese perfeita entre a academia, a pesquisa científica e a cultura popular." comentou o reitor Gilmar Pereira.

Em nome dos parentes, o filho da pesquisadora, o arquiteto e urbanista Petia Oliveira, de 53 anos, expressou a gratidão da família pelo tributo no local onde sua mãe trabalhou por anos.

"Ficamos muito felizes com essa homenagem em um espaço tão significativo. Ela idealizou essa festa ao lado de Miguel, Margareth e de tantas outras pessoas. Como grande devota de 'Nazinha', minha mãe ficaria radiante de ver o início das festividades do Círio começar com o Auto que ela ajudou a criar."

Com a bênção à memória de sua coidealizadora, o Auto do Círio 2026 inicia seus preparativos para transformar novamente a Cidade Velha em um grande palco de fé, arte e resistência cultural no próximo mês de outubro.