Publicado em 22 de maio de 2026 às 12:34
Entre o cheiro do tucupi, o sabor marcante do cupuaçu e as memórias de infância em Belém, uma trajetória de coragem e perseverança cruzou fronteiras para mostrar ao mundo a riqueza da gastronomia amazônica. Nascida e criada no bairro da Pedreira, em Belém, a chef Lucimar transformou uma história simples em uma carreira internacional, levando a identidade do Pará para cozinhas, eventos e palcos gastronômicos fora do Brasil.>
Sua relação com a gastronomia começou ainda muito cedo, aos 16 anos. Na época, a profissão era conhecida popularmente como “cozinheira de forno e fogão”, e o aprendizado acontecia de forma bem diferente da realidade atual. Sem internet e plataformas digitais, a busca por conhecimento vinha das revistas vendidas em bancas de jornal e dos programas culinários que marcaram gerações.>
“Cozinhar sempre foi mais do que um trabalho. Tornou-se um propósito”, relembra.>
Anos depois, quando já havia construído experiência profissional no Rio de Janeiro, Lucimar percebeu que queria ir além. Aos 30 anos, tomou uma decisão que mudaria sua vida: deixar o Brasil e partir rumo à Argentina com um objetivo muito claro, tornar-se uma chef internacional.>
A mudança trouxe desafios, mas também abriu caminhos inesperados. Apenas dois meses após chegar a Buenos Aires, ela já encontrava uma forma de empreender utilizando algo profundamente ligado às suas raízes: o açaí.>
Mas foi através da gastronomia paraense que sua história ganhou ainda mais força.>
O interesse do público argentino pelos sabores amazônicos começou a crescer após um convite para preparar tacacá ao vivo em um programa de televisão. Lucimar reuniu ingredientes vindos diretamente de Belém, tucupi, jambu e camarão, e apresentou um universo de sabores até então desconhecido para muitos.>
A reação foi imediata.>
O jambu, famoso pela sensação de “tremer a boca”, despertou curiosidade nos apresentadores, enquanto o sabor intenso do camarão amazônico surpreendeu os participantes do programa. O resultado abriu portas para algo ainda maior: a venda de pratos típicos em Buenos Aires.>
Com apoio de um amigo que cedeu espaço em seu restaurante, Lucimar começou a apresentar a culinária do Norte para argentinos e brasileiros. O sucesso fez o cardápio crescer, incorporando pratos e receitas que carregam a identidade do Pará, como maniçoba, vatapá e bolo de cupuaçu.>
Segundo ela, os pratos paraenses despertam curiosidade justamente por serem únicos.>
“O tacacá, a maniçoba, o vatapá e o bolo de cupuaçu carregam histórias, sabores e tradições que criam uma conexão imediata com quem experimenta”, destaca.>
Mesmo morando fora do Brasil, a chef mantém elementos indispensáveis da cultura amazônica em sua rotina. Em sua cozinha, por exemplo, a farinha de mandioca e a polpa de cupuaçu nunca faltam.>
“É um pedacinho de Belém que chega até meus clientes”, afirma.>
Ao longo da carreira, Lucimar também colecionou experiências marcantes. Trabalhou como chef no Maracanã durante grandes eventos internacionais, participou da Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2016 e ainda ganhou projeção internacional ao integrar o reality gastronômico Passa Pratos, em Buenos Aires.>
Mas, apesar do reconhecimento, ela afirma que a essência continua a mesma: carregar o Pará em cada prato.>
Mesmo atuando com diferentes estilos culinários e utilizando técnicas internacionais, ela faz questão de inserir sabores, ingredientes e memórias amazônicas em suas criações.>
Para ela, técnica e conhecimento são importantes, mas existe algo que nunca pode faltar.>
“O amor é o ingrediente que realmente transforma cada prato.”>
Hoje, enquanto a gastronomia amazônica conquista cada vez mais espaço no cenário nacional e internacional, Lucimar acredita que o Pará vive um momento histórico de valorização. Ainda assim, defende que os próprios paraenses precisam reconhecer e apoiar mais os talentos que representam a região no mundo.>