Dois feminicídios em menos de 24 horas: Especialista reforça necessidade de rede de proteção a mulher no Pará

Para a advogada Dra. Kelly Garcia, presidente da Comissão de Violência Doméstica e de Gênero do IBDFAM/PA, os dois casos reforçam um cenário que exige atenção permanente do poder público e da sociedade.

Publicado em 23 de setembro de 2026 às 15:36

Samires da Silva e Layane Rodrigues foram vítimas de feminicídios em menos de 24h no interior do Pará.  
Samires da Silva e Layane Rodrigues foram vítimas de feminicídios em menos de 24h no interior do Pará.   Crédito: Reprodução / Redes Sociais

Dois casos de feminicídios chamaram atenção das autoridades por ocorrerem em menos de 24 horas no interior do Pará. Os casos aconteceram nos munícipios de Concórdia, no domingo (20), e em Marabá na segunda-feira (21).

Em Concórdia do Pará, a Polícia Civil investiga a morte de Samires da Silva Araújo, de 32 anos, atingida por um tiro de espingarda de fabricação caseira na cabeça dentro de casa, pelo próprio marido, Sandro Pereira Feitosa, que confessou o crime e foi preso em flagrante.

Em Marabá, Layane Rodrigues Porto, de 37 anos, foi assassinada em frente a uma oficina mecânica, por um homem que chegou com um cúmplice em uma motocicleta vermelha.

O crime foi registrado por câmeras de segurança. O autor atirou duas vezes contra Layane, e depois dos disparos, corre até a motocicleta, sobe na garupa e os dois fogem. No mesmo dia a Polícia Militar chegou até o autor dos disparos e descobriu o que o mandante do crime foi o ex-companheiro da vítima, que também foi preso.

Para a advogada Dra. Kelly Garcia, presidente da Comissão de Violência Doméstica e de Gênero do IBDFAM/PA, os dois casos reforçam um cenário que exige atenção permanente do poder público e da sociedade.

“Esses dois feminicídios, ocorridos em tão curto espaço de tempo, mostram uma realidade que não podemos normalizar. Quando os dados apontam que o Pará passou de 42 para 51 feminicídios e de 139 para 149 tentativas no mesmo período, não estamos falando apenas de estatísticas: estamos falando de mulheres que perderam a vida e de outras que sobreviveram a tentativas de assassinato. A violência doméstica costuma apresentar sinais anteriores de escalada, como ameaças, perseguições, controle e agressões, e esses sinais precisam ser reconhecidos e enfrentados antes que a violência alcance seu estágio mais extremo”, afirma Kelly Garcia.

Os dados aos quais a advogada se refere são os da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup), que registraram um aumento no número de casos de feminicídio e de tentativas de feminicídio no Pará.

De janeiro a agosto deste ano, foram registrados, segundo a Segup, 51 casos de feminicídio, 149 tentativas de feminicídio e 6.468 ocorrências de violência doméstica com lesão corporal.

No ano de 2025, nesse mesmo período, foram registrados 42 feminicídios, 139 tentativas de feminicídio e 6.599 ocorrências de lesão corporal.

Segundo a advogada, o enfrentamento ao feminicídio precisa combinar responsabilização dos agressores com políticas efetivas de prevenção e proteção às mulheres.

“Combater o feminicídio não pode significar apenas prender o agressor depois que uma mulher foi morta. Precisamos fazer a rede de proteção funcionar antes. Isso exige medidas protetivas rápidas e efetivamente fiscalizadas, fortalecimento das Delegacias Especializadas e integração entre as forças de segurança, Ministério Público, Judiciário, Defensoria e rede socioassistencial. E, diante de cada feminicídio, também precisamos ter a coragem de perguntar se aquela morte poderia ter sido evitada e em que momento o Estado poderia ter interrompido o ciclo de violência. Nosso maior desafio não é apenas punir quem mata mulheres; é impedir que elas sejam mortas. ”