Publicado em 26 de junho de 2026 às 14:22
Órgãos de meteorologia indicam alta probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño no segundo semestre de 2026. Segundo previsões recentes do INPE e do INMET, além de centros internacionais de monitoramento climático, o fenômeno pode atingir intensidade forte entre julho e setembro, período que coincide com o início da safra do açaí no Pará.>
O principal efeito do El Niño na região amazônica é a redução das chuvas no leste da Amazônia. No caso do Pará, isso preocupa porque o estado concentra mais de 90% da produção nacional de açaí, segundo dados da Embrapa. A diminuição das chuvas pode afetar diretamente o nível dos rios e a dinâmica dos açaizais de várzea, que dependem do ciclo natural de cheia e vazante.>
Especialistas alertam, no entanto, que nem toda redução de chuva significa automaticamente seca com impacto produtivo. O período de julho a novembro já faz parte da estação naturalmente menos chuvosa no Pará, o que exige uma leitura técnica mais precisa do cenário. Um dos parâmetros utilizados por meteorologistas é o volume mensal de chuva. Quando os índices ficam abaixo de 60 milímetros por mês entre setembro e novembro, há maior risco de configuração de um quadro de seca com efeitos mais significativos sobre a produção.>
A cadeia do açaí no estado não responde de forma uniforme a esse tipo de evento climático. O sistema de várzea, responsável pela maior parte da produção e baseado no extrativismo tradicional, é o mais vulnerável a períodos prolongados de estiagem. Já o cultivo em terra firme com irrigação, em expansão no Pará com variedades desenvolvidas pela Embrapa, tende a reduzir parte da dependência direta da chuva, embora ainda não elimine completamente os riscos em cenários extremos.>
A experiência recente também pesa na avaliação do setor. Durante a seca de 2023 e 2024, estudos regionais apontaram queda aproximada de 30% na produção em áreas mais afetadas, o que reforça a preocupação com a possibilidade de repetição de condições semelhantes. Outro fator relevante é que o açaizeiro pode levar de um a dois anos para se recuperar plenamente após estresse hídrico severo, o que significa que áreas atingidas em eventos anteriores ainda podem não ter retomado totalmente sua capacidade produtiva.>
Além dos impactos de curto prazo, pesquisas acadêmicas apontam um risco estrutural mais amplo. Estudos publicados na revista Biological Conservation indicam que mudanças climáticas podem reduzir significativamente as áreas adequadas ao extrativismo na Amazônia ao longo das próximas décadas, incluindo o açaí entre as espécies mais sensíveis a essas transformações.>
Na prática, os dados atuais ainda não permitem estimar com precisão o impacto do El Niño de 2026 sobre a safra. O efeito real dependerá do comportamento das chuvas ao longo do segundo semestre e da intensidade da estiagem no período crítico da produção. O que os especialistas destacam é a necessidade de monitoramento contínuo, já que o cenário climático tende a aumentar a instabilidade produtiva em cadeias dependentes do regime de chuvas, como a do açaí no Pará.>