Morre, aos 91 anos Lucidéa Batista Maiorana, matriarca da família Maiorana

Lucidéa Maiorana sem dúvida, deixará saudades e, acima de tudo, um legado de exemplo para as novas gerações.

Publicado em 30 de abril de 2026 às 22:54

Morre, aos 91 anos Lucidéa Batista Maiorana, matriarca da família Maiorana
Morre, aos 91 anos Lucidéa Batista Maiorana, matriarca da família Maiorana Crédito: Arte Roma News

Se há uma palavra que define Lucidéa Batista Maiorana é “matriarca”, mulher que governa uma família. Lucidéa, carinhosamente chamada de Déa, foi a figura feminina mais importante e presente na trajetória do jornalista e empresário Romulo Maiorana (1922-1986) e, naturalmente, do grupo de comunicação criado pelo casal.

O matrimônio gerou sete filhos, que nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, ficaram órfãos da presença e do alicerce que foi Lucidéa Maiorana, além dos netos e bisnetos. Nonagenária, Lucidéa viveu os últimos anos reclusa por escolha, mantendo uma postura discreta, mas determinada, característica sempre presente em sua personalidade.

A parceria inquebrantável e empreendedora entre o casal, deixou um legado superavitário, mas sofreu um duro golpe com a morte de Romulo, vítima de câncer, em 1986.

Nascida em maio, mês de Maria, de quem era devota, no município de Monte Alegre, oeste paraense, Lucidéa estudou no Internato Antônio Lemos, em Santa Izabel do Pará, Região Metropolitana de Belém. Nos anos 50 casou-se com Romulo Maiorana. Embora de origem humilde, Lucidéa Batista Maiorana era sobrinha de Magalhães Barata (1888-1959), interventor federal e também governador do Pará, e a proximidade do tio com o jovem jornalista uniu Romulo e Déa, em uma parceria que durou mais de três décadas.

Lucidéa empreendeu junto com o marido, Romulo, desde antes da fundação do jornal “O Liberal”, na versão impressa, em 1966, até a morte dele em 1986, quando a administração do grupo ficou oficialmente a cargo dela e do filho Romulo Maiorana Júnior, que deu continuidade ao trabalho desenvolvido pelo pai. A matriarca do grupo sempre dividiu o cuidado dos filhos com a administração das empresas. O primeiro negócio do casal foi a Duplex Publicidade, com placas indicativas para as paradas de ônibus. Logo, enveredaram seus empreendimentos para o jornalismo com a compra da Folha de Norte e, em apenas dez anos, transformaram o Jornal O Liberal no impresso de maior circulação da Amazônia. Em 1971, O Liberal introduziu no mercado paraense o off-set, recebendo ainda a concessão da Rádio Liberal AM.

Trajetória de sucesso

O caminho de sucesso levou à aquisição da TV Liberal, em 1976 (canal 7), a primeira em todo o Norte e Nordeste a transmitir a programação da TV Globo em cores. Este caminho de sucesso não seria possível sem o apoio fundamental de uma mulher que sempre esteve ao lado do marido, participando ativamente e apoiando iniciativas inovadoras, como a criação da Fundação Romulo Maiorana, que lançou o Arte Pará, um dos maiores salões de arte do País.

O exemplo de Romulo e Lucidéa Maiorana não passaria despercebido, sendo imediatamente seguido pelos filhos, que ampliaram e expandiram o conglomerado de comunicação, um dos maiores da Região Norte.

Um novo tempo

Em 10 de outubro de 2017, Romulo Maiorana Jr. deixou a presidência do grupo Liberal. Mas a presença de espírito, o trabalho e a atuação conjunta fez de Lucidéa Maiorana também uma mulher que guiou o caminho dos filhos rumo a um jornalismo inovador, hoje seguido pelas novas gerações, tanto que os netos Romulo Maiorana Netto e Giovanni Maiorana, filhos do seu primogênito, ocupam a vice-presidência do Grupo Roma de Comunicação, que também atua nas áreas da construção e comercialização de empreendimentos e entretenimento.

É a nova geração hoje enveredando pelo jornalismo digital, dando continuidade a um trabalho visionário que começou lá atrás, com o espírito e a coragem de sempre inovar e manter o foco no regional, voltando-se sempre para a população paraense, produzindo jornalismo de qualidade e credibilidade, marcas indeléveis da trajetória de Lucidéa Maiorana ao longo de sua vida.

Alegria e tristeza

Esta foi a preocupação central de Lucidéa Maiorana, expressa numa das raras entrevistas que concedeu ao seu próprio jornal, por ocasião da edição dos 50 anos de fundação do jornal O Liberal, transcorridos em 15 de novembro de 1996. Na ocasião, Lucidéa Maiorana expressou um misto de alegria e tristeza. Alegria pela passagem dos 50 anos do jornal, mas tristeza porque Romulo Maiorana, seu fundador, não estava lá para comemorar o sonho que havia se realizado, na nova sede do jornal, que hoje leva o seu nome em uma justa homenagem. “Alegria por estar vivendo este momento que o Romulo tanto queria viver, e a tristeza vem do fato de ele não poder viver o momento. O Romulo dizia que amava duas coisas mais do que quaisquer outras: a família e o jornal. Ele falava sempre nesta comemoração, que deveria ser muito festiva, muito alegre”, declarou, na época.

Luta

Naquela entrevista, Lucidéa Maiorana relembrou quando o jornalista Romulo Maiorana decidiu comprar O Liberal, em 1966, um estabelecimento falido, inteiramente desestruturado. “Era completamente contra a compra do jornal. Sempre quis manter minha família tranquila, compreendia o que era ser proprietária de um jornal, mas o Romulo era um obstinado e ele queria muito. Então, eu fiquei do lado dele, é claro. Lutamos juntos para reestruturar tudo, para poder deixar em condições de funcionar. Nunca esqueço quantas noites fomos atrás de linotipista altas madrugadas, lá na Pedreira. Era uma luta grande, mas ele conseguiu reerguer o jornal e sinto orgulho por isso, principalmente porque foi fruto do nosso trabalho, da nossa união familiar”, lembrou.

Lucidéa Maiorana também revelou características do marido, que “sempre deixava os problemas lá fora; era alegria que ele levava para casa, por isso meus filhos tiveram uma educação e aprenderam o ofício do pai, porque o Romulo sabia que seriam eles que continuariam a obra que ele começava. Eu sinto orgulho do trabalho deles, como senti e sinto do trabalho que Romulo desenvolveu”, completou. A matriarca da família também reforçou o compromisso assumido com o povo paraense, pois o objetivo era “levar a notícia, informar ao povo tudo que este País passa e enfrenta. Eu queria muito que o Romulo pudesse ver esta festa nos 50 anos. Ele não parava de falar quando estava no hospital. O que ele falava era nisso e na família”, recordou. As declarações foram dadas durante uma Missa de Ação de Graças pelas comemorações, à época, dos 50 anos de O Liberal, ocasião em que foi homenageada por 15 crianças atendidas pela Legião da Boa Vontade, que lhe entregaram um buquê de flores e cantaram a música Amigos para Sempre.

Mais do que compromisso com a notícia e credibilidade, Lucidéa Maiorana é sinônimo de luta, pois tudo o que ajudou a construir junto com sua família tornou-se um legado que fica para o povo paraense, registro histórico da vida cotidiana e dos fatos que marcaram e levaram o Estado do Pará a ser o que hoje é. Seu exemplar trabalho, sem dúvida, deixará saudades e, acima de tudo, servirá de exemplo para as novas gerações.