Publicado em 13 de agosto de 2026 às 11:18
O Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) denunciou, nesta quarta-feira (12), 20 pessoas investigadas por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Entre os denunciados estão integrantes e ex-integrantes do próprio Ministério Público, delegados e policiais civis, advogados e outras pessoas apontadas como participantes do grupo.>
A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que investiga o caso. Segundo o Ministério Público, o grupo teria atuado entre 2021 e 2026 para obter vantagens financeiras por meio da manipulação de investigações e outros procedimentos criminais.>
Entre os principais nomes citados estão o procurador de Justiça Isaías Medeiros de Oliveira, os promotores Luiz Márcio Teixeira Cypriano e Juliana Dias Ferreira de Pinho Nobre, além dos delegados Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho e Carlos Daniel Fernandes de Castro.>
A investigação aponta que parte dos envolvidos teria utilizado as funções que ocupava para favorecer integrantes do grupo e interferir no andamento de procedimentos. O esquema também teria envolvido solicitação e recebimento de propina e mecanismos para esconder a origem e o destino dos valores.>
Como o esquema teria funcionado>
De acordo com a denúncia, promotores e delegados teriam formado uma associação estável para a prática de crimes. Outros investigados teriam entrado no esquema em diferentes funções.>
Segundo o Gaeco, dois policiais civis que trabalhavam próximos ao delegado Arthur Nobre, Higor Almeida Damasceno e Daniel Ribeiro do Nascimento, teriam participado de atos relacionados à suposta corrupção.>
Também são citados como integrantes ou colaboradores do esquema uma contadora, servidores do MPPA, uma ex-assessora, advogados e outras pessoas. A investigação afirma que pelo menos nove advogados teriam atuado na intermediação de pedidos de vantagens indevidas e na suposta manipulação de investigações.>
Conversas interceptadas>
Parte das provas reunidas pelo Gaeco envolve conversas interceptadas durante a investigação. Em uma delas, datada de 12 de maio de 2023, o procurador Isaías Medeiros conversa com o delegado Arthur Nobre e faz um pedido de dinheiro.>
Na gravação, segundo o Ministério Público, Isaías diz:>
“Boa tarde, meu afilhadinho! Não vai esquecer de mim, o negócio que eu falei. Afoga alguém aí, engasga alguém aí, põe o saco na cabeça e traz. (risos) Não vai esquecer do que eu te pedi. Vê se tu consegue emprestar. Tem que pagar um negócio urgente. Não é brincadeira, não. Tá pegando aqui. Vê o que tu faz, alguma coisa aí. Ao menos a metade, sei lá.”>
Em outro diálogo, a promotora de Justiça Ana Carolina Vilhena Gonçalves, então ex-namorada do advogado Carlos Reuteman, teria alertado Arthur Nobre sobre comentários feitos pelo advogado.>
“Cuidado, ele fala que compra todo mundo, ele fala demais, pode te queimar ainda”, afirmou Ana Carolina.>
Na sequência, segundo o MPPA, ela teria relatado que Carlos Reuteman falava sobre supostos pagamentos envolvendo Arthur Nobre e os promotores Luiz Márcio Cypriano e Isaías Medeiros.>
“Ele fala tudo que dá dinheiro, que tu pegava dinheiro, Luís Márcio, Isaías”, teria dito.>
Ainda segundo a investigação, o advogado Carlos Reuteman confirmou, durante depoimento, o repasse de vantagens indevidas a Luiz Márcio Cypriano, Arthur Nobre e Carlos Daniel Castro.>
O pagamento estaria relacionado à tentativa de retirar um inquérito policial da unidade onde tramitava e transferi-lo para outra delegacia. Conforme o depoimento citado pelo Ministério Público, o valor inicialmente cobrado teria sido de R$50 mil, mas, como a transferência não ocorreu da forma pretendida, o pagamento teria ficado em aproximadamente R$30 mil.>
Conversas também envolvem promotora>
A investigação também aponta suspeitas sobre a promotora Juliana Pinho, esposa do delegado Arthur Nobre.>
Em uma das conversas analisadas pelo Gaeco, Juliana pergunta ao marido sobre a possibilidade de um processo ser encaminhado para a promotoria onde ela atuava.>
“É para jogar hoje para mim ou não???”, pergunta a promotora.>
Arthur responde:>
“Sim, se não der problema.”>
Na sequência, ele orienta que, caso houvesse algum impedimento, o processo deveria ser encaminhado ao promotor responsável.>
Parte dos investigados negou as acusações>
Durante a apuração, alguns investigados optaram por permanecer em silêncio. Outros prestaram depoimento e negaram as acusações.>
Também houve investigados que firmaram Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público. Segundo o MPPA, essas pessoas confessaram detalhadamente a participação nos crimes investigados.>
Uma das investigadas, Renata Gomes de Araújo Cypriano, foi chamada para prestar depoimento, mas não compareceu.>
Apesar da apresentação das denúncias, o Ministério Público informou à Justiça que a investigação ainda não terminou completamente.>
Os promotores Lauro Francisco da Silva Freitas Júnior e Danyllo Maués Pompeu Colares solicitaram mais 90 dias para concluir diligências.>
Entre os pontos que ainda serão apurados está a possível participação do juiz Jackson José Sodré Ferraz. O nome dele aparece no relatório encaminhado à Justiça, que aponta a necessidade de aprofundar as investigações sobre possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.>
O documento afirma que ainda existem “hipóteses criminais que ainda demandam diligências para esclarecimentos”, incluindo as condutas atribuídas ao magistrado e outros possíveis atos relacionados ao grupo investigado.>
O Ministério Público considera o caso uma das maiores e mais complexas investigações em andamento no Pará e afirma que a prorrogação do prazo é necessária para analisar todo o material reunido e esclarecer os fatos.>