Quando o Pará disse 'não' ao lixo radioativo: decisão histórica volta à memória com série da Netflix

'Emergência Radioativa' reacende lembrança de 1987, quando Hélio Gueiros barrou envio de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos do acidente com césio-137 ao estado

Publicado em 23 de março de 2026 às 09:18

Hélio Gueiros entrou para a história por barrar entrada de 6 mil toneladas de lixo radioativo de césio-137 vindo de Goiânia para o Pará - 
Hélio Gueiros entrou para a história por barrar entrada de 6 mil toneladas de lixo radioativo de césio-137 vindo de Goiânia para o Pará -  Crédito: Reprodução Instagram/Imagem gerada por IA

A nova série da Netflix, "Emergência Radioativa", tem provocado um resgate importante na memória do país ao revisitar o maior acidente radiológico do Brasil, ocorrido em Goiânia, no ano de 1987. Mas, para além da tragédia, a produção também joga luz sobre um capítulo decisivo envolvendo o Pará e que muita gente ainda desconhece.

Na época, após a contaminação causada pelo césio-137, o governo federal chegou a considerar o envio dos rejeitos radioativos para a Serra do Cachimbo, localizada no sul do Pará. A área era isolada, vivia sob controle militar e foi apontada como possível destino do material perigoso, um total de 6 mil toneladas de lixo radioativo.

A reação do Governo do Pará à época, no entanto, foi imediata e firme.

À frente do governo estadual, Hélio Gueiros comprou uma briga direta com Brasília e se posicionou contra a decisão. O episódio ficou marcado pela frase que ecoou nacionalmente: "o Pará não seria 'depósito de lixo nuclear'".

Mais do que um discurso, a resistência virou ação. Hélio Gueiros imediatamente aprovou medidas para impedir a entrada do material extremamente perigoso e mobilizou apoio político e popular. A pressão cresceu, ganhou força e foi às ruas, transformando o caso em uma crise institucional.

Diante da forte repercussão negativa e do risco de confronto, o governo federal recuou antes que o transporte fosse concluído.

Decisão que evitou um risco ambiental

Especialistas apontam que a transferência dos rejeitos, que somavam 6 mil toneladas, poderia trazer impactos ambientais e sociais de longo prazo, sobretudo em uma região sensível como a Amazônia.

Ao barrar a operação, o Estado do Pará evitou entrar para a história como destino de resíduos nucleares e consolidou um episódio visto até hoje como um marco de defesa do território.

Quando a ficção resgata a realidade

Com Emergência Radioativa", série da Netflix reacende não apenas a memória da tragédia em Goiânia, envolvendo césio-137, mas também debates sobre segurança nuclear, responsabilidade ambiental e decisões políticas em momentos de crise.

No Pará, a série tem um efeito adicional: lembrar que, em um dos momentos mais críticos do país, houve resistência e ela mudou o rumo da história.

O que é o césio-137?

O césio-137 é um isótopo radioativo (ou seja, uma versão instável de um elemento químico) produzido principalmente pela fissão nuclear, processo usado em reatores nucleares e bombas atômicas.

Ele emite radiação ionizante, que pode penetrar no corpo humano e danificar células.

Onde ele é encontrado?

O césio-137 não existe naturalmente em grande quantidade. Ele aparece principalmente em:

- Usinas nucleares (como subproduto da fissão)

- Equipamentos médicos antigos, especialmente de radioterapia

- Indústrias, em medidores de densidade e controle de processos

- Locais de acidentes nucleares, como:

- Desastre de Chernobyl

- Acidente radiológico de Goiânia

No caso de Goiânia, o material estava dentro de um aparelho de radioterapia abandonado, o que causou um dos maiores acidentes radiológicos do mundo.

Como ele prejudica as pessoas?

O perigo do césio-137 está na radiação que ele libera. Os efeitos dependem do nível de exposição.

Exposição externa

- Queimaduras na pele

- Náuseas, vômitos

- Síndrome aguda da radiação (em casos graves)

Contaminação interna (mais perigosa)

Se ingerido ou inalado:

- O material se espalha pelo corpo

- Pode atingir músculos e órgãos

- Aumenta o risco de câncer

- Pode causar falência de órgãos e morte em altas doses

Por que ele é tão perigoso?

- Tem meia-vida de cerca de 30 anos (fica ativo por muito tempo)

- Se dispersa facilmente (parece pó ou sal, como no caso de Goiânia)

- Emite radiação gama, que penetra profundamente no corpo