Patrimônio histórico de Belém vai além dos prédios e ajuda a explicar quem somos; entenda

Com mais de 400 anos de história, cidade reúne patrimônios materiais e imateriais que moldam a identidade do povo belenense, da arquitetura aos saberes do cotidiano

Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 22:59

Igreja da Sé, Porto no Ver-o-Peso, roda de carimbó, fachada do Porto do Sal e tacacá
Igreja da Sé, Porto no Ver-o-Peso, roda de carimbó, fachada do Porto do Sal e tacacá Crédito: Roma News

Celebrar o aniversário de Belém é, antes de tudo, revisitar as camadas de história que formam a cidade e o seu povo. Com mais de quatro séculos de existência, a capital paraense carrega um patrimônio histórico que vai muito além dos casarões antigos e das construções conhecidas do centro histórico. Ele está presente também nos modos de falar, de comer, de circular pela cidade e de se relacionar com o rio.

Para o historiador e professor de história paraense Michel Pinho, muito conhecido por promover passeios gratuitos que reúnem dezenas de pessoas interessadas em conhecer Belém a partir da memória e da ocupação urbana, falar em patrimônio é falar em herança. “A palavra patrimônio está ligada à ideia de herança, daquilo que nos forma cultural, política e socialmente ao longo dos séculos. Belém tem mais de 400 anos de patrimônio edificado, mas também um patrimônio imaterial muito forte”, explica.

Historiador e professor de história Michel Pinho
Historiador e professor de história Michel Pinho Crédito: Reprodução/Facebook

Essa herança é visível na paisagem urbana, e também se manifesta de forma cotidiana. Igrejas como a da Sé, o Teatro da Paz, o Ver-o-Peso e o Mercado de São Brás ajudam a construir uma identidade visual e arquitetônica da cidade. No entanto, segundo Michel, há outros patrimônios igualmente fundamentais, muitas vezes menos percebidos. “Nossa fala, nossa alimentação, a presença indígena e negra na formação da cidade, tudo isso é patrimônio. O comércio, por exemplo, é parte essencial da nossa história e do desenvolvimento econômico de Belém”, destaca.

Quando o assunto é entender a história da cidade, o professor evita eleger um único espaço como mais importante. Para ele, Belém deve ser lida como um conjunto que dialoga tanto com a história do Brasil quanto com a da Amazônia. Ainda assim, Michel chama atenção para lugares frequentemente invisibilizados: os portos. 

Essa dinâmica cria, segundo ele, um contraste marcante com outro tipo de patrimônio: o edificado do centro histórico, representado por igrejas, antigos palácios e estruturas de ferro, como o próprio Ver-o-Peso. Dois universos que coexistem e se complementam na construção da identidade belenense.

Mesmo assim, muitos espaços históricos fazem parte da rotina da população sem que sua importância seja plenamente reconhecida. Michel volta a destacar os portos como exemplo. “Sejam os mais antigos, como o do Ver-o-Peso, ou os da Palha e do Sal, esses lugares ajudam a entender nossa formação étnica e linguística. Eles contam a história do nosso povo”, pontua.

Olhar para o patrimônio no aniversário de Belém também é refletir sobre o presente. Para o professor, a data convida a pensar tanto na falta de cuidado com edificações, ruas e espaços históricos quanto na resistência cultural que mantém viva a memória da cidade. “A manutenção da nossa cultura, do samba, do carimbó, dos bois-bumbás, das pastorinhas, dos pássaros, faz uma diferença enorme na formação de Belém”, ressalta.

Mais do que celebrar uma data, o aniversário da cidade é um convite a reconhecer o patrimônio como parte viva da experiência belenense, não apenas como passado, mas como elemento essencial para entender o presente e projetar o futuro.