Crise do Will Bank acende alerta, mas não indica colapso generalizado, diz especialista

PhD em Finanças, detalha em linguagem simples, como funciona o “colchão de segurança” dos bancos e o que o consumidor deve observar antes de investir.

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 12:27

Crise do Will Bank acende alerta, mas não indica colapso generalizado, diz especialista
Crise do Will Bank acende alerta, mas não indica colapso generalizado, diz especialista Crédito: Reprodução/Will Bank

A recente decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial do Will Bank, instituição digital ligada ao conglomerado do Banco Master, reacendeu um temor recorrente entre consumidores: afinal, bancos podem quebrar de repente? E como identificar se uma instituição financeira é segura ou está em risco?

Para o economista Ademir de Souza Pereira Júnior, PhD em Finanças, não existe banco “imortal”, mas há indicadores claros que ajudam a medir o nível de segurança de cada instituição. O principal deles é o Índice de Basileia, um termo técnico que costuma assustar quem não é do meio financeiro, mas que pode ser entendido de forma simples.

“O Índice de Basileia funciona como um colchão de segurança do banco. Ele mostra quanto dinheiro próprio a instituição tem guardado para absorver prejuízos, como calotes em empréstimos ou crises inesperadas”, explica o especialista.

Na prática, o índice é apresentado em porcentagem. Quanto maior for o número, maior a capacidade do banco de enfrentar perdas sem quebrar. No Brasil, o Banco Central exige que esse índice fique em torno de 11%, um patamar considerado o mínimo para uma instituição ser considerada saudável.

“Bancos grandes e bem estruturados costumam operar com números bem acima disso, geralmente entre 14% e 17%. Quando o índice está nessa faixa, o risco de insolvência é significativamente menor”, afirma Ademir.

Segundo ele, o problema surge quando esse “colchão” começa a encolher, como ocorreu no caso do Will Bank. A instituição não conseguiu recompor seu capital após uma sequência de dificuldades financeiras, o que levou o Banco Central a intervir.

“O modelo de recuperação adotado não foi suficiente. Quando o banco perde capital próprio e não consegue gerar lucro para se fortalecer, a chance de liquidação aumenta muito”, pontua.

Apesar de ser um indicador central, o Índice de Basileia não deve ser analisado isoladamente. Ademir ressalta que a saúde de um banco depende de um conjunto de fatores.

“Ele é excelente para medir risco de crédito e solvência, mas não capta tudo. Liquidez, governança, inadimplência, lucro recorrente e até falhas operacionais também contam. Olhar apenas um número pode levar a conclusões equivocadas”, alerta.

Nesse contexto, o lucro constante ganha peso na análise. Para o especialista, bancos que registram resultados positivos de forma recorrente conseguem reforçar seu capital, melhorar o Índice de Basileia e atravessar períodos turbulentos com mais fôlego.

“Quando uma instituição sai do prejuízo e passa a lucrar bilhões, isso muda muito o jogo. O lucro fortalece o patrimônio, amplia reservas e reduz a vulnerabilidade em momentos de crise. Mas é preciso avaliar se esse lucro é sustentável ou pontual”, explica.

O debate sobre a solidez dos bancos digitais também voltou à tona após o caso do Will Bank. Para Ademir, associar fragilidade automaticamente ao fato de uma instituição ser digital é um erro.

“Não é verdade que banco digital é, por definição, mais arriscado. Alguns dos maiores bancos digitais do país, como Nubank e Inter, têm Índices de Basileia sólidos e lucro consistente. O risco está mais ligado à gestão e ao crescimento desordenado do que ao modelo digital em si”, avalia.

Um sinal prático de alerta, segundo o economista, está nos investimentos com retorno muito acima da média de mercado. “CDBs com juros exageradamente altos costumam indicar que o banco está desesperado por dinheiro. Retorno elevado quase sempre significa risco maior”, resume.

Para o consumidor comum, que não domina termos técnicos, Ademir recomenda cuidados básicos de proteção. O principal deles é respeitar os limites do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

“O FGC protege até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em uma mesma instituição, com um teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Acima disso, o valor não está garantido em caso de quebra”, explica.

Ele também orienta a diversificação. “Nunca coloque todo o dinheiro em um único banco ou investimento. Prefira instituições consolidadas, acompanhe informações no site do Banco Central e desconfie de promessas boas demais.”

Diante de boatos sobre possíveis quebras, o especialista aconselha cautela antes do pânico. “É fundamental verificar se a informação é real, consultar dados oficiais e observar se há intervenção ou comunicados do Banco Central. O caso do Will Bank, por exemplo, foi anunciado oficialmente. Nada aconteceu da noite para o dia.”

Para Ademir, crises pontuais não significam um colapso do sistema financeiro. “Bancos podem quebrar, sim. Mas os grandes, bem capitalizados e fiscalizados, são mais difíceis de cair. Eles não são imunes, mas têm muito mais mecanismos de proteção.”