Instabilidade no Oriente Médio pressiona logística global e pode ameaçar desempenho das exportações paraenses

Impactos diretos sobre rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz acendem alerta sobre a economia paraense

Publicado em 3 de março de 2026 às 17:16

Instabilidade no Oriente Médio pressiona logística global e pode ameaçar desempenho das exportações paraenses.
Instabilidade no Oriente Médio pressiona logística global e pode ameaçar desempenho das exportações paraenses. Crédito: Agência Brasil

A intensificação das tensões no Oriente Médio, com impactos diretos sobre rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, acende um alerta sobre a economia paraense, especialmente pela base produtiva fortemente ancorada na exportação de commodities minerais e agropecuárias. Em um cenário de encarecimento logístico global e aumento da incerteza, indústrias locais podem enfrentar um ambiente mais desafiador para manter competitividade e previsibilidade operacional, avalia o economista e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Clóvis Carneiro.

O levantamento do Centro Internacional de Negócios da FIEPA (FIEPA CIN) mostra que o Oriente Médio mantém relevância como destino das exportações paraenses, ainda que com oscilações recentes. Em 2025, as exportações de minério de ferro para a região somaram US$ 277,7 milhões, tendo Omã como principal comprador.

Já no segmento de carne bovina, o volume exportado alcançou US$ 389,1 milhões, com destaque para mercados como Iraque, Líbano, Israel e Arábia Saudita. Os dados revelam que, embora não seja o principal parceiro comercial do Pará, o Oriente Médio compõe uma frente relevante de diversificação das exportações do estado.

Nesse contexto, o principal canal de impacto imediato é o aumento dos custos logísticos, impulsionado pela alta do petróleo e pelo risco nas rotas marítimas. Segundo análise de Clóvis Carneiro, “a grande preocupação é com o preço do petróleo, que poderá criar instabilidades nos mercados financeiros e na logística mundial, afetando diretamente os custos de fretes, seguros e encargos financeiros das exportações”. Para setores como mineração e pecuária, que são altamente dependentes de transporte marítimo de longa distância, esse encarecimento pode pressionar significativamente os resultados das empresas.

Na avaliação do presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Carvalho, a atual escalada geopolítica expõe fragilidades estruturais do Brasil no campo energético. Segundo ele, em um cenário de conflitos e pressão sobre o preço do petróleo, o país ainda opera com um horizonte limitado de reservas e elevada dependência de importação de derivados, o que amplia a vulnerabilidade da economia a choques externos.

Para o dirigente, o momento reforça a necessidade de decisões estratégicas. “Enquanto grandes potências ampliam suas reservas e buscam segurança energética, o Brasil ainda trata como tabu novas fronteiras exploratórias. Abrir mão desse potencial, em um cenário global instável, é transformar cautela em fragilidade econômica”, afirma Alex Carvalho, em contraponto à postergação da exploração da Margem Equatorial.

Escalada dos conflitos amplia instabilidade

O fator tempo surge como variável crítica. Carneiro alerta que a duração do conflito será determinante para a magnitude dos impactos. Quanto mais prolongada a instabilidade, maiores tendem a ser os efeitos adversos sobre a economia global e, por consequência, sobre o Pará. Um cenário de guerra prolongada pode inclusive desencadear uma recessão internacional, reduzindo a demanda por commodities e afetando diretamente o desempenho das exportações industriais paraenses.

Outro ponto de atenção está na dependência indireta do estado em relação à economia chinesa. Principal destino das exportações do Pará, a China pode ser significativamente impactada pela crise, especialmente devido à sua forte dependência do petróleo do Oriente Médio, já que cerca de 50% das importações chinesas passam pelo Estreito de Ormuz, atualmente sob forte tensão geopolítica. Uma desaceleração da economia chinesa teria efeito imediato sobre a demanda por minério de ferro e outros produtos paraenses, ampliando os riscos para o setor industrial.

“Diante desse cenário, dois fatores se colocam como centrais para o monitoramento econômico: a duração do conflito e seus desdobramentos sobre as principais economias globais, como Estados Unidos, China e União Europeia. Para o Pará, na qual a inserção internacional é fortemente baseada em commodities, o momento exige cautela, planejamento e capacidade de adaptação a um ambiente externo mais volátil”, conclui Clóvis Carneiro.