Publicado em 24 de abril de 2026 às 17:14
Em Belém, poucos lugares atravessam o tempo com tanta força quanto o Cine Olympia. Aos 114 anos, o cinema mais antigo em funcionamento do Brasil passa por uma restauração que busca preservar sua história e, ao mesmo tempo, prepará-lo para voltar a ocupar um papel central na vida cultural da cidade.>
Inaugurado em 1912, durante a Belle Époque paraense, o espaço se tornou um marco da relação dos moradores com o cinema. Além da exibição de filmes, o Olympia construiu uma memória afetiva ao longo de gerações. “Quando você vai numa sala de cinema como o Olympia, você não lembra só dos filmes. Você lembra com quem você foi, família, pai, mãe, namorada”, destaca o pesquisador e professor de cinema da UFPA, Marco Antônio Moreira.>
Desde que passou a ser administrado pela Prefeitura de Belém, em 2006, o cinema também ganhou um papel importante na valorização da produção local. Segundo Marco Antônio, uma das marcas do espaço é justamente abrir as portas para o audiovisual paraense. “O Olympia sempre teve de portas abertas para exibição de produções paraenses”, afirma. Para ele, a expectativa é que essa característica continue. “Espero que a programação siga diversa e permita que o audiovisual paraense seja mais conhecido, especialmente pelos próprios paraenses.”>
A restauração do prédio revela desafios típicos de um patrimônio centenário. O arquiteto da Secretaria Municipal de Cultura de Belém, Jorge Pina, explica que o cinema já apresentava problemas estruturais antes da obra. “Tinha fissuras, afundamento de piso e, o mais grave, infiltração na cobertura, que compromete a estrutura”, relata.>
Durante as intervenções, um achado mudou o rumo do projeto. A fachada original, que se imaginava perdida, estava apenas encoberta por outras camadas. “Os arcos estavam visíveis, mas camuflados. A gente percebeu que a fachada existia e decidiu restaurar”, conta o arquiteto. A descoberta levou à reformulação do projeto, priorizando o resgate das características originais do cinema.>
Segundo Jorge Pina, esse tipo de trabalho exige cuidado e precisão. “É um processo muito delicado, que exige paciência para não perder os elementos originais”, explica. Outros detalhes históricos também foram identificados ao longo da obra e devem ser incorporados ao espaço, inclusive para visitação.>
A proposta da gestão municipal é que o Olympia volte a ser um espaço vivo, que dialogue com diferentes públicos. A secretária municipal de Cultura de Belém, Raphaela Segadilha, destaca que o cinema terá uma programação voltada tanto para a valorização da produção local quanto para ações educativas. “A gente tem a proposta de dar voz ao cinema paraense, mas também de promover sessões educativas para escolas e universidades”, afirma.>
A secretária aponta ainda que o cinema deve funcionar como um espaço múltiplo, com exposições e ações que ampliem o contato do público com a história do próprio Olympia. “Além das exibições, a gente pensa em sala de memória e na apresentação de artistas paraenses. Isso é extremamente importante”, ressalta.>
Para Raphaela, preservar o passado é essencial para fortalecer a identidade cultural da cidade. “A gente está tentando manter o máximo da história do cinema, principalmente dessa época da Belle Époque paraense, que não pode desaparecer”, diz. Ela reforça que os 114 anos do Olympia representam mais do que o tempo de existência do prédio. “São 114 anos de história que precisam continuar sendo contados.”>
Ao completar mais de um século de existência, o Cine Olympia cumpre seu papel como um dos principais símbolos culturais de Belém. Entre memória, preservação e novos usos, o espaço se prepara para reabrir as portas no segundo semestre de 2026 e reconectar gerações por meio do cinema.>
Por Suellen Godinho.>