Publicado em 15 de outubro de 2026 às 19:27
O som dos curimbós, as saias rodadas e os saberes de quem mantém viva uma das mais importantes expressões culturais do Pará vão ocupar Belém nos dias 17 e 18 de outubro. Em sua quarta edição, o Carimbó ACena Fest – Festival de Carimbó de Belém reúne 18 atrações, entre grupos musicais, companhias de dança e mestres da cultura popular, em uma programação gratuita que celebra a diversidade do carimbó e a trajetória de quem constrói essa tradição. Neste ano, os homenageados são a Mestra Jesus e o Mestre Zezinho Viana, ambos naturais de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. As apresentações começam às 15h, nos dois dias.>
Realizado pelo Pontão de Cultura ACena, o festival chega à quarta edição com uma proposta que ultrapassa os palcos. Além da mostra musical, a iniciativa promove encontros entre gerações, atividades formativas e espaços de diálogo sobre os caminhos do carimbó, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2014.>
Para Harles de Oliveira, produtor cultural e presidente do Pontão de Cultura ACena, a homenagem aos mestres é parte fundamental da construção do festival. "Além das mostras musicais, das oficinas de vivência de carimbó e das rodas de conversa, a gente costuma homenagear mestras e mestres do nosso segmento, que muito contribuíram", explica. Sobre a escolha da Mestra Jesus, ele destaca a satisfação de reconhecer uma artista cuja trajetória ultrapassa os limites do território marajoara e alcança diferentes espaços da cultura popular paraense.>
A programação do primeiro dia, sábado (17), começa com uma roda de conversa entre os mestres homenageados, às 15h10. Às 16h, a Mestra Jesus recebe o reconhecimento e apresenta seu repertório ao público. Na sequência, sobem ao palco os grupos Tarubá, Uirapurú, Regional Os Curupiras, Bico de Arara, Regional Frutos do Pará, Coletivo Tamborimbó e Mururé.>
No domingo (18), a homenagem será dedicada ao Mestre Zezinho Viana, que também fará uma apresentação musical, a partir das 15h. A mostra segue com os grupos Paranativo, Caboclas Morenas, Sancari, Cia Amazônica de Danças, Asa Branca, Parananin, Coletivo Tamborimbó, Senta Peia e Cia Trilhas da Amazônia.>
Mestra Jesus: a voz feminina que vem do Marajó>
Natural de Cachoeira do Arari, Maria de Jesus Rodrigues Barbosa cresceu cercada pelas manifestações culturais da ilha. Filha de Raimundo Ferreira Barbosa, mestre de folia, rezador de ladainhas, compositor e violonista, encontrou no pai sua primeira referência artística. Começou a participar das manifestações populares ainda na infância e, aos 12 anos, aproximou-se da percussão, iniciando um caminho que a levaria aos palcos como cantora, compositora e mestra.>
Com mais de 40 composições, sua produção musical atravessa o carimbó, os xotes e o lundum marajoara. Nas letras, estão presentes a vida nos campos, os costumes, a religiosidade e as paisagens de seu território. Mas a caminhada também é marcada pelas dificuldades enfrentadas pelas mulheres para ocupar espaços historicamente dominados pelos homens.>
"Como mulher preta, afro-religiosa, uma mulher da resistência da cultura popular, do território marajoara, como uma mulher também lésbica e mestra, eu me sinto lisonjeada com uma homenagem tão especial", afirma a artista, que compreende o reconhecimento como parte de uma história coletiva de permanência e luta.>
Para ela, o crescimento da presença feminina no carimbó representa uma conquista que precisa ser fortalecida. "O maior recado que eu deixo para nossas manas é que não tenham medo de se libertar, de se empoderar, de se pertencer, porque o carimbó, pela sua história, já foi muito pertencido apenas pelo patriarcado. Hoje, a mulher está adentrando esses espaços da música", destaca.>
A mestra também chama atenção para a dimensão de acolhimento dessa manifestação cultural. "O carimbó, além de ser uma gira de alegria, uma gira de cura, uma gira de magia, traz muitos benefícios para o corpo e para a mente. A mulher precisa desse acolhimento na gira do carimbó", acrescenta.>
Sua produção mais recente, o álbum Respeito aos Orixás, reúne nove faixas autorais e foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo. O trabalho aborda a ancestralidade afro-amazônica e a valorização das religiões de matriz africana e afro-indígena, colocando a música a serviço da memória e do enfrentamento ao apagamento dessas tradições.>
"Respeito aos Orixás foi um grande sonho realizado, com muitas mãos trabalhando nesse álbum, inclusive mãos femininas. Ele vem trazer um recado sobre o apagamento das nossas religiões de matriz africana e afro-indígena dentro do nosso território", explica.>
Mestre Zezinho Viana e a musicalidade dos campos marajoaras>
Outro homenageado desta edição é José Luciano Frade Viana, o Mestre Zezinho Viana, compositor que construiu sua trajetória musical a partir das vivências e dos sons do Marajó. Suas canções retratam o cotidiano dos campos alagados, a lida dos vaqueiros, os rios e os sentimentos de quem vive na região.>
Entre suas obras mais conhecidas está Invernada Marajoara, composição que atravessou gerações e ganhou espaço no repertório de diferentes grupos paraenses. Autor também de Saudade Louca, Zezinho faz parte de uma geração de artistas que ajudou a projetar a musicalidade da ilha para além de suas comunidades de origem.>
Ao homenagear dois artistas marajoaras, o ACena Fest também coloca em evidência a contribuição da ilha para a diversidade do carimbó, expressão que assume diferentes sonoridades, formas de dançar e maneiras de contar histórias conforme o território onde é produzida.>
Formação e continuidade da tradição>
A quarta edição também contempla três oficinas gratuitas, com um total de 90 vagas. A primeira, dedicada às narrativas audiovisuais para projetos culturais, foi realizada em setembro. Já as vivências de percussão e dança estão previstas para ocorrer de 9 a 13 de novembro, na Escola Estadual Tenoné.>
As atividades buscam aproximar novos participantes da história, dos instrumentos e das práticas corporais do carimbó, além de oferecer ferramentas de comunicação para artistas e agentes culturais.>
Realizado pela Associação Cultural e Esportiva de Negros, Negras e Afrodescendentes da Amazônia (ACENA), reconhecida oficialmente como Pontão de Cultura em agosto de 2026, o festival foi selecionado pelo Edital nº 014/2025, de Fomento a Projetos Continuados de Ponto de Cultura, com patrocínio do Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional de Cultura Viva e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).>
Com expectativa de reunir 1.200 pessoas presencialmente, o IV Carimbó ACena Fest aposta na circulação de diferentes gerações de artistas e na valorização daqueles que fazem do carimbó uma prática viva, presente nas comunidades, nos encontros e nos palcos da Amazônia.>
Serviço>
IV Carimbó ACena Fest – Festival de Carimbó de Belém>
Quando: 17 e 18 de outubro de 2026 (sábado e domingo)>
Horário: A partir das 15h>
Local: Alameda 19, nº 14, Conjunto Maguari, bairro do Coqueiro, Belém – PA.>
Entrada: Gratuita>
Homenageados: Mestra Jesus e Mestre Zezinho Viana>
Programação: Mostra musical, rodas de conversa, homenagens e apresentações de grupos de carimbó e dança>
Realização: Pontão de Cultura ACena>
Patrocínio: Ministério da Cultura, Política Nacional de Cultura Viva e Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)>