Teatro da Paz completa 148 anos como símbolo histórico e cultural da Amazônia

Inaugurado no auge do Ciclo da Borracha, espaço é o maior teatro da Região Norte e candidato a Patrimônio Mundial da Unesco

Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 11:52

Theatro da Paz -
Theatro da Paz - Crédito: Bruno Cecim/Agência Pará

O Theatro da Paz completa 148 anos de existência neste 15 de fevereiro como um dos principais marcos históricos e arquitetônicos da Amazônia. Inaugurado em 1878, durante o auge do Ciclo da Borracha, o teatro surgiu em um momento em que Belém era conhecida como “Capital da Borracha” e vivia um período de forte crescimento econômico.

Apesar da prosperidade da época, a cidade ainda não possuía uma casa de espetáculos de grande porte voltada ao gênero lírico. Para atender à demanda da elite local, o governo provincial contratou o engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, que desenvolveu um projeto inspirado no Teatro Scala de Milão, na Itália. Foi a primeira grande casa de espetáculos construída na Amazônia.

Arquitetura grandiosa e detalhes importados da Europa

Desde a entrada, o teatro revela o requinte da Belle Époque paraense. O hall possui ferro fundido inglês nos arcos das portas, escadaria em mármore italiano, lustre francês e bustos em mármore de Carrara dos escritores José de Alencar e Gonçalves Dias. O piso é formado por pedras portuguesas em mosaico, coladas com grude de gurijuba, peixe típico da região. As paredes e o teto trazem pinturas que remetem às artes gregas.

No corredor de frisas, um detalhe chama atenção: em 1905, a porta principal que dava acesso à sala foi fechada para melhorar a acústica e substituída por um espelho de cristal francês. No espaço também foram instaladas estátuas em pedra francesa e placas esmaltadas com o antigo regulamento que proibia fumar.

A sala de espetáculos, que originalmente comportava 1.100 pessoas e hoje recebe cerca de 900, mantém as cadeiras em madeira e palhinha adaptadas ao clima amazônico. A balaustrada em ferro inglês é folheada a ouro. No teto, um afresco com referências à mitologia greco-romana mostra o deus Apolo conduzindo Afrodite e as musas à Amazônia. O lustre central em bronze americano substituiu um antigo ventilador utilizado para amenizar o calor.

Hierarquia social refletida na estrutura

Os camarotes e galerias foram organizados seguindo a divisão social do século XIX. A primeira classe ocupava varanda, plateia, frisas e camarotes de primeira ordem. A segunda classe ficava nas galerias e camarotes de segunda ordem, enquanto o chamado “paraíso” era destinado à terceira classe.

O Camarote Imperial, hoje utilizado pelo governador do Estado, mantém mobiliário em madeira regional. Já o pano de boca, pintado na França no ateliê de Carpezat e intitulado “Alegoria à República”, foi inaugurado em 1890 para celebrar o novo regime brasileiro.

Salão Nobre e vida cultural

O foyer, conhecido como Salão Nobre, era o espaço onde a elite da Belém da Belle Époque se reunia para bailes e recitais. O ambiente é marcado por espelhos, lustres de cristal francês e bustos em mármore de Carrara dos compositores Carlos Gomes e Henrique Gurjão. A pintura original do teto foi perdida e substituída, nos anos 1960, por uma obra de Armando Balloni inspirada na Amazônia.

Patrimônio e candidatura à Unesco

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1983, o Theatro da Paz é considerado um dos teatros-monumento do país e o maior da Região Norte. Atualmente, junto com o Teatro Amazonas, é candidato a Patrimônio Mundial da Unesco, dentro da candidatura seriada “Teatros da Amazônia”.

O dossiê foi entregue em janeiro de 2025, e os dois espaços já receberam visita técnica de consultor da Unesco. O processo está em fase de análise e devolutivas.

De espaço elitizado a palco democrático

O que nasceu como símbolo da opulência da borracha e restrito a poucos hoje é um espaço aberto à população. O Teatro da Paz abriga apresentações que vão da ópera ao carimbó, do balé clássico à música popular, consolidando-se como um ponto de encontro cultural e de preservação da memória amazônica.