Publicado em 12 de outubro de 2026 às 11:47
Quase metade das jogadoras de futebol ouvidas em uma pesquisa internacional considera encerrar a carreira antes do previsto. É o que aponta o Relatório Global de Emprego da FIFPRO de 2026, intitulado Condições de Trabalho no Futebol Feminino, divulgado nesta segunda-feira (12). O estudo ouviu cerca de 800 atletas e identificou dificuldades financeiras, pressão psicológica e condições de trabalho precárias entre os principais desafios enfrentados no esporte.>
De acordo com o levantamento, 49% das entrevistadas cogitam deixar o futebol mais cedo do que planejavam. Entre as atletas que consideram essa possibilidade, 59% apontaram a situação financeira como um dos motivos, enquanto 46% citaram o estresse psicológico. Os dados foram divulgados pela FIFPRO e repercutidos por veículos internacionais, como Reuters e The Guardian.>
Crescimento do futebol feminino não chega a todas>
Apesar da expansão comercial e do aumento das receitas em algumas competições, os benefícios ainda são distribuídos de maneira desigual. Segundo a FIFPRO, o salário mensal médio pago pelos clubes, ajustado pela inflação, triplicou desde 2017 e chegou a US$ 2.601. No entanto, a remuneração mediana é de US$ 1.669, indicando uma diferença significativa entre os ganhos das atletas.>
O relatório também identificou disparidades entre países e ligas. Em dez países do Leste Europeu analisados, por exemplo, os salários médios das jogadoras permanecem abaixo do salário mínimo nacional. Mesmo em regiões com mercados mais desenvolvidos, como a Europa Ocidental e a Ásia/Oceania, a remuneração média nem sempre fica muito acima do mínimo nacional.>
Para Alex Culvin, diretora de futebol feminino da FIFPRO, a profissionalização da modalidade avança em algumas partes do mundo, mas ainda há um longo caminho para garantir condições adequadas à maioria das atletas.>
Falta de contratos e proteção trabalhista>
Os dados também apontam fragilidades na estrutura profissional oferecida às jogadoras. Apenas 56% das atletas entrevistadas afirmaram ter contrato de trabalho, enquanto 47% disseram que os clubes não contam com funcionários suficientes para atender às necessidades das equipes. Além disso, somente 13% recebem algum tipo de previdência ou aposentadoria por meio dos clubes.>
O levantamento indica avanços em alguns aspectos: a duração média dos contratos aumentou de 12 meses, em 2017, para 19 meses em 2026. A proporção de jogadoras que contam com agentes também cresceu, passando de 14% para 41%.>
Apesar disso, a entidade alerta que a experiência profissional de muitas atletas ainda é marcada pela insegurança. A existência de contrato, assistência médica, previdência e licença parental pode variar significativamente conforme o país e o clube em que a jogadora atua.>
Saúde mental preocupa atletas e sindicato>
A saúde mental aparece como outro ponto de alerta. Segundo o relatório, 57% das jogadoras ouvidas disseram já ter enfrentado dificuldades nessa área. Metade das atletas desse grupo afirmou não ter recebido apoio dos clubes.>
Diante dos resultados, a FIFPRO defende a adoção de padrões mínimos obrigatórios nos contratos de trabalho, incluindo remuneração adequada, instalações, equipes de apoio, assistência médica e acompanhamento psicológico.>
A entidade também cita como referência a liga profissional feminina dos Estados Unidos, a National Women's Soccer League (NWSL), que conta com profissionais de saúde mental vinculados aos clubes e prevê licença de até seis meses para tratamento nessa área.>
Proteção à maternidade apresenta avanço>
O estudo também identificou uma evolução relacionada à maternidade. Desde que a FIFA introduziu padrões mínimos globais de proteção à maternidade, em 2021, a proporção de jogadoras que consideram deixar o futebol para constituir família caiu de 47%, em 2017, para 19%.>
Para a FIFPRO, o avanço demonstra que medidas regulatórias podem contribuir para a permanência das atletas no esporte. A entidade defende que o crescimento comercial do futebol feminino seja acompanhado por garantias trabalhistas e condições adequadas para que as jogadoras consigam desenvolver suas carreiras.>
Texto por Pedro Moraes.>